A venda de casas novas nos Estados Unidos subiu 6,4% em agosto e chegou a um ritmo anual de 684 mil unidades, informou o Census Bureau em 24 de setembro, em levantamento feito com o Departamento de Habitação (HUD). O número ainda fica 2% abaixo de agosto de 2025, quando o ritmo era de 698 mil, e o próprio Census avisa que a variação mensal cabe dentro da margem de erro, de 19,5 pontos percentuais.
O dado que mais muda a conta de quem procura casa é o preço. A mediana da casa nova vendida em agosto foi de US$ 393.700, 5,8% menor do que um ano antes, segundo a HousingWire. O preço médio ficou em US$ 478.700. Com 483 mil casas novas à venda, o estoque equivale a 8,5 meses no ritmo atual, e 112 mil delas já estão prontas para morar.
O construtor virou o vendedor mais flexível do mercado.
Selma Hepp, economista-chefe da Cotality, resumiu à HousingWire o momento: as construtoras "ficaram cada vez mais agressivas no uso de cortes de preço, redução de juros e outros incentivos para atrair compradores, na prática tirando as casas de 'à venda' e colocando em 'promoção'". Sam Williamson, economista sênior da First American, disse que as empresas "precisam trabalhar mais por cada venda".
A ferramenta preferida é o chamado buydown: a construtora paga para baixar a taxa do financiamento do comprador. Segundo a HousingWire, entre 80% e 90% das vendas de casa nova em 2026 saíram com algum tipo de redução de juro paga pelo construtor.
Por que o juro pesa tanto agora?
A taxa média do financiamento de 30 anos passou de 7% para 7,03% na pesquisa da Freddie Mac de 24 de setembro, contra 6,95% na semana anterior e 6,30% um ano antes. A taxa de 15 anos está em 6,42%, ante 5,49% em setembro de 2025. Nesse cenário, um desconto de juro bancado pela construtora pode valer mais na parcela do que um corte pequeno no preço de tabela.
Stuart Miller, presidente e CEO da Lennar, uma das maiores construtoras do país, explicou à HousingWire o que vê no balcão: "Quando as famílias estão pagando mais na bomba e mais pela eletricidade, a disposição de assumir o maior compromisso financeiro da vida diminui." Jeffrey Mezger, presidente do conselho da KB Home, aposta na direção contrária: "Se houver um pequeno impulso na confiança do consumidor, a demanda por moradia sobe."
Casa usada: maior estoque em dez anos dá poder de barganha.
A comparação com o mercado de usados ajuda a entender o momento. A National Association of Realtors (NAR) registrou em 10 de setembro uma venda de 3,98 milhões de casas usadas em ritmo anual em agosto, 2% abaixo de julho, com 1,62 milhão de imóveis em oferta, um estoque de 4,9 meses, o maior em mais de dez anos. Lawrence Yun, economista-chefe da NAR, disse que essa oferta "dá ao comprador uma capacidade de negociação significativamente maior do que nos anos anteriores".
A NAHB, associação das construtoras, calcula que a soma dos estoques de casa nova e usada equivale a 5,3 meses de venda. O comprador tem escolha nos dois mercados, mas é no de casa nova que encontra o vendedor com caixa para bancar juro menor.
Faixa de preço: metade das vendas entre US$ 300 mil e US$ 500 mil.
A HousingWire detalha onde o mercado se moveu: 22% das casas novas vendidas em agosto custaram menos de US$ 300 mil, 50% ficaram entre US$ 300 mil e US$ 499.999, e 26% passaram de US$ 500 mil. A fatia abaixo de US$ 300 mil cresceu nos últimos meses, enquanto a acima de US$ 500 mil encolheu, sinal de que as construtoras estão redesenhando o produto para caber no bolso.
O Sul concentra cerca de dois terços das vendas: 451 mil unidades em ritmo anual, contra 112 mil no Oeste, 98 mil no Meio-Oeste e 23 mil no Nordeste, segundo o Census.
Oeste, onde ficam Colorado e Washington, é a região que mais cai.
No acumulado de 2026, a NAHB aponta que as vendas de casa nova no Oeste caem 10% em relação ao mesmo período de 2025. No Sul, a queda é de 1%. No Meio-Oeste, de 0,6%. O Nordeste está estável. Colorado e Washington fazem parte da região Oeste na divisão do Census. Para o brasileiro que procura casa em Denver ou em Seattle, isso significa construtoras com mais casas paradas e mais motivo para negociar do que a média nacional.
Entrada: o dinheiro na mão continua sendo o gargalo.
A HousingWire cita levantamento de Orphe Divounguy, ex-economista sênior da Zillow, segundo o qual uma família de renda mediana precisaria de cerca de US$ 159.100 em dinheiro no fechamento para comprar a casa típica hoje. A entrada média, por outro lado, caiu para US$ 27.100, o menor valor em cinco anos, segundo o mesmo texto.
O que dizem as construtoras?
Bill Owens, presidente da NAHB e construtor em Worthington, Ohio, afirmou que "o ganho nas vendas de casas novas é encorajador, mas a acessibilidade continua sendo um desafio", e lembrou que as vendas seguem abaixo do ano passado. Danushka Nanayakkara-Skillington, vice-presidente assistente de previsões da associação, acrescentou que "a demanda por moradia continua sensível a juros mais altos".
O que vem a seguir
O Censo divulga os dados de setembro em 27 de outubro. Até lá, o termômetro semanal segue sendo a pesquisa de juros da Freddie Mac. Para quem está negociando com construtora, a lição de agosto é objetiva: perguntar pelo buydown antes de discutir o preço de tabela, pedir a lista das casas prontas para entrega e comparar a parcela final, não o valor anunciado.
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