As universidades americanas devem receber cerca de 111 mil estudantes internacionais a menos no ano letivo 2026-27, segundo projeção divulgada em 11 de agosto pela NAFSA, a associação de educadores internacionais dos Estados Unidos. A queda equivale a até 9,5% do total e derrubaria o número de matriculados de aproximadamente 1.168.600 no ciclo 2025-26 para algo entre 1.056.900 e 1.104.900 neste ano letivo.
O Washington Post e a Forbes noticiaram o levantamento em 12 de agosto, com o mesmo intervalo de perda. É a projeção mais pessimista para o setor desde a interrupção provocada pela pandemia.
Como a projeção foi construída
A NAFSA montou um modelo por quartis a partir das respostas ao Spring 2026 Snapshot, pesquisa conduzida pelo Institute of International Education (IIE). As respostas qualitativas das instituições foram convertidas em faixas percentuais — uma queda descrita como significativa entra no modelo como variação de 15% a 30%, e uma queda leve, como variação de 2% a 7%.
A taxa de resposta ficou entre 22% e 36% conforme o quartil, o que a própria entidade registra. O número final, portanto, é uma estimativa a partir do que as universidades relataram antes do início do semestre, e não uma contagem de matrículas efetivadas.
A pós-graduação puxa o tombo.
O documento aponta que a queda na pós-graduação é o principal motor da perda econômica. As projeções de matrícula de pós-graduação recuam em todos os quartis, com variações de -6,75% a -15%.
Na graduação, o quadro se divide: as instituições maiores projetam algo entre estabilidade e crescimento modesto, enquanto as de porte médio aparecem com quedas mais pesadas, de 10% a 15%. A diferença importa porque programas de pós-graduação costumam concentrar estudantes que pagam mensalidade integral e sustentam laboratórios e departamentos inteiros.
US$ 3,4 bilhões e 40 mil empregos.
A NAFSA calcula que a economia americana pode deixar de receber até US$ 3,4 bilhões em contribuição econômica direta neste outono. Perto de 40 mil empregos ficam em risco, o que representa redução de aproximadamente 9% em relação à base de comparação do outono de 2025.
A conta inclui não só mensalidade, mas o gasto do estudante estrangeiro com moradia, alimentação, transporte e serviços na cidade onde estuda — a parcela que sustenta comércio e empregos fora do campus.
O que aparece antes da matrícula
Os sinais de queda já vinham dos dados de candidatura. O levantamento cita números do Common App com recuo de 34% nas candidaturas de Gana, 17% da Nigéria e 14% da Índia. Índia e China permanecem como os dois maiores países de origem de estudantes internacionais nos Estados Unidos.
Nas reportagens do Washington Post e da Forbes sobre o estudo, a retração é atribuída a políticas de vistos mais rígidas e à incerteza em torno de programas de estágio pós-formatura, como o Optional Practical Training.
Onde o Brasil entra nessa conta?
O levantamento da NAFSA não abre os números por país de origem, e não há projeção específica para o Brasil. Os dados mais recentes disponíveis vêm do Open Doors: eram 16.877 estudantes brasileiros nos Estados Unidos no ano letivo 2023-24, segundo análise publicada pelo Center for Strategic and International Studies (CSIS) em abril de 2025.
O pico brasileiro foi em 2014-15, com 23.675 estudantes, impulsionado pelo Ciência sem Fronteiras, programa que financiou mais de 25 mil bolsistas entre 2011 e 2016. Em contribuição econômica, os brasileiros levaram US$ 1 bilhão ao setor educacional americano em 2023, contra US$ 271 milhões em 2010. O Brasil está entre os dez maiores países de origem de estudantes internacionais no país.
O que sustentou a presença brasileira
A análise do CSIS, assinada por Julie Baer, do IIE, e por Juliana Rubio e Eitan Casaverde, da instituição, atribui o salto da década passada a dois programas de intercâmbio. O Ciência sem Fronteiras, mantido pelo governo brasileiro entre 2011 e 2016, respondeu pela maior parte do fluxo; do lado americano, a iniciativa 100,000 Strong in the Americas ampliou as parcerias entre instituições dos dois países.
O encerramento do Ciência sem Fronteiras explica boa parte da distância entre os 23.675 estudantes de 2014-15 e os 16.877 de 2023-24 — uma queda de quase 30% em menos de uma década, anterior a qualquer efeito das mudanças de visto agora em discussão. O crescimento da contribuição econômica no mesmo período, de US$ 271 milhões em 2010 para US$ 1 bilhão em 2023, indica que o perfil mudou: menos bolsista financiado por programa público, mais estudante que paga a própria mensalidade.
O efeito que chega a quem já está matriculado
A perda de receita não fica contida no escritório de assuntos internacionais. Universidades que perdem estudantes de pós-graduação relatam rombos orçamentários e cortes de programas, o que atinge também o aluno americano e o imigrante já residente — turma cancelada, curso encerrado, assistente de ensino a menos.
Para a família brasileira que planeja mandar um filho para a faculdade nos Estados Unidos, o efeito prático é ambíguo. Menos concorrência internacional pode abrir vaga em programas antes disputados; ao mesmo tempo, orçamento apertado tende a reduzir bolsa e auxílio, justamente o item que decide se o curso cabe no bolso.
O que ainda pode mudar o número?
A projeção da NAFSA é anterior ao fechamento das matrículas do semestre. O número consolidado só aparece no relatório Open Doors, produzido pelo IIE, que, na edição de 2025, registrou 1.177.766 estudantes internacionais no ano letivo 2024-25, alta de 5% sobre o ciclo anterior — o retrato do momento em que a curva ainda subia.
A comparação entre as duas séries dará a medida real da inflexão. Até lá, o que existe é a estimativa das próprias instituições sobre um semestre que começou.
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