Dois drones russos atingiram na sexta-feira o maior complexo comercial de Kryvyi Rih, no centro da Ucrânia, com meia hora de intervalo entre um ataque e outro. O balanço divulgado ao fim do dia pelas autoridades locais registrava ao menos 15 mortos e mais de 130 feridos.
Entre os feridos havia 22 crianças. Vinte e nove pessoas estavam em estado grave, cinco delas crianças, segundo o governador regional Oleksandr Hanzha. O primeiro impacto provocou incêndio no complexo, que fica a cerca de 60 quilômetros da linha de frente.
O intervalo de meia hora
O intervalo entre os dois disparos é o ponto central da acusação ucraniana. O presidente Volodymyr Zelensky afirmou que o segundo drone atingiu o shopping meia hora depois do primeiro, numa tentativa deliberada de acertar as equipes de emergência que já trabalhavam no local — a tática conhecida no jargão militar como double-tap.
"Um ataque absolutamente cínico e vil foi realizado pelos russos contra um shopping center comum em Kryvyi Rih", declarou Zelensky. "Ataques como esses não são nada menos que atos terroristas." Kryvyi Rih é a cidade natal do presidente ucraniano. Oleksandr Vilkul, chefe do conselho de defesa municipal, confirmou que os ataques de sexta miraram o complexo comercial.
O balanço subiu ao longo do dia.
Os números foram revisados várias vezes enquanto as buscas avançavam. As primeiras informações davam conta de seis mortos e cerca de 90 feridos; ao longo da tarde, o total passou para 14 e depois 15 mortos, com mais de 130 feridos. Em ataques dessa escala, o balanço costuma subir nas horas seguintes, à medida que escombros são removidos e feridos graves não resistem.
A véspera em Kyiv
O ataque a Kryvyi Rih veio um dia depois de uma ofensiva com mísseis balísticos contra Kyiv e arredores. Na quinta-feira, os disparos mataram 17 pessoas e feriram mais de 40, segundo autoridades locais.
No distrito de Solomianskyi, o fogo tomou os andares superiores de um prédio residencial de nove pavimentos e matou sete moradores. Cerca de 20 edifícios residenciais, uma escola, um hospital infantil e uma creche foram significativamente danificados na região. O prefeito da capital decretou dia de luto.
A reação da ONU
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, condenou os ataques e pediu, por meio de seu porta-voz, "uma desescalada urgente, que leve a um cessar-fogo pleno, imediato e incondicional".
"Ataques contra civis e infraestrutura civil são uma violação clara do direito internacional humanitário, onde quer que ocorram, e devem cessar imediatamente", declarou o porta-voz Stéphane Dujarric. Tom Fletcher, chefe de operações humanitárias da ONU, esteve em Kyiv, viu os efeitos do bombardeio e se reuniu com autoridades ucranianas.
O que os números da ONU mostram
O registro das Nações Unidas para 2026 ajuda a dimensionar a escalada. Entre janeiro e junho, 1.396 civis foram mortos e 7.978 ficaram feridos na Ucrânia. Só em julho, a ONU contabilizou 437 civis mortos e 2.610 feridos — o maior total mensal desde 2022.
Na mesma sexta-feira do ataque a Kryvyi Rih, outro bombardeio russo na região de Mykolaiv matou quatro pessoas, três delas crianças.
Ucrânia leva o caso ao Conselho de Segurança.
Kyiv convocou uma reunião do Conselho de Segurança da ONU depois do ataque. À medida que as buscas avançavam, o balanço divulgado por autoridades locais subiu para ao menos 16 mortos e 130 feridos, com 23 crianças entre os atingidos.
O Conselho de Segurança é o órgão da ONU com poder de adotar medidas obrigatórias, mas a Rússia é membro permanente e tem direito de veto — o que na prática limita o encontro a registro público e pressão diplomática.
Aliados se reúnem em Kyiv na segunda-feira
Independentemente do ataque, a chamada Coalizão dos Dispostos já tinha reunião marcada para segunda-feira em Kyiv, na data da independência ucraniana. O encontro será copresidido pelo presidente francês Emmanuel Macron, que participa por videoconferência, pelo chanceler alemão Friedrich Merz e pelo novo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham.
Cerca de dez líderes devem estar presencialmente na capital ucraniana, entre eles o presidente do Conselho Europeu, António Costa, segundo um funcionário da União Europeia. Comunicado do Palácio do Eliseu informa que o grupo vai reafirmar o apoio a Kyiv e avançar no desenho das garantias de segurança que sustentariam uma paz duradoura caso um cessar-fogo seja costurado.
Uma guerra que se aproxima dos quatro anos e meio.
A intensificação da campanha aérea russa ocorre com o conflito perto de completar quatro anos e meio. O padrão dos últimos dias — ataques diurnos contra alvos urbanos com grande circulação e disparos sucessivos sobre o mesmo ponto — é o que sustenta a leitura ucraniana de que a mira deixou de ser apenas militar.
As reportagens publicadas até a noite de sexta-feira não registram manifestação do governo russo sobre a acusação de ter atacado deliberadamente as equipes de socorro em Kryvyi Rih.
Por que acompanhar daqui?
Para quem mora nos Estados Unidos, a guerra na Ucrânia não é assunto distante: o conflito segue no centro da agenda externa de Washington e pesa nas discussões sobre orçamento militar, sanções e mercados de energia e alimentos. O apelo de Guterres por um cessar-fogo imediato foi o passo mais recente da ONU, que não tem poder de impô-lo — a decisão depende das partes e dos governos com influência sobre elas.
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