O presidente Donald Trump disse no domingo (27) que avalia "muito seriamente" proibir a exportação de diesel dos Estados Unidos, o maior exportador do combustível no mundo. Nesta terça-feira (29), o Departamento de Energia ofereceu mais 40 milhões de barris da reserva estratégica de petróleo e cobrou países europeus que liberaram só uma parte do que prometeram. Do outro lado do Atlântico, a União Europeia mandou carta aos 27 países-membros pedindo corte no consumo de energia.
O efeito passa pelo bolso de quem vive aqui e de quem tem família no Brasil. O diesel médio nos EUA estava em cerca de US$ 6,50 o galão na sexta-feira, perto do recorde de US$ 6,53 registrado em 22 de setembro, segundo dados da AAA citados pela CNBC. E o Brasil foi o maior comprador do diesel americano em setembro, de acordo com levantamento da Bloomberg.
O que Trump disse
A declaração foi dada a um repórter da Fox News durante o torneio de golfe Presidents Cup, em Illinois. "Estamos pensando nisso muito seriamente", afirmou Trump, segundo a CNBC. Ele mesmo reconheceu o risco para o consumidor: "Isso muitas vezes pode levar a um pequeno aumento da gasolina para carros, então estamos olhando isso muito seriamente. Talvez façamos".
A proibição não foi decretada. O político noticiou na semana passada que o governo preparava uma restrição de 90 dias, segundo a CNBC. O secretário de Energia, Chris Wright, tem falado em restrições, e não em proibição total, e avalia que um veto completo pode encarecer a gasolina e o querosene de aviação, de acordo com o Washington Post.
Trump também pediu ao presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que pare de atacar refinarias russas, que ele descreveu como "derrubar o diesel". O diesel caro atinge agricultores e caminhoneiros, parte importante do eleitorado republicano, a pouco mais de um mês das eleições de meio de mandato de novembro.
Mais petróleo da reserva estratégica.
O Departamento de Energia anunciou nesta terça que oferece até 40 milhões de barris da reserva estratégica em regime de troca: as empresas recebem o petróleo agora e devolvem mais barris depois. O volume sai das bases de Big Hill e Bryan Mound, no Texas, e as propostas podem ser enviadas até 6 de outubro, às 11h no horário Central.
É a última parcela do compromisso de 172 milhões de barris assumido em março, dentro da liberação conjunta de 400 milhões de barris coordenada pela Agência Internacional de Energia (AIE). Segundo o departamento, as cinco ofertas anteriores somaram mais de 133 milhões de barris.
No mesmo comunicado, Wright cobrou os aliados. "Vários países europeus membros liberaram apenas uma fração do petróleo e dos derivados que prometeram. "Pedimos a cada país membro que cumpra seus compromissos", afirmou.
A reserva tinha 284,5 milhões de barris em 19 de setembro e deve cair ao menor nível desde 1982, segundo o jornal The National. O efeito sobre a bomba pode ser pequeno. Uma oferta parecida em junho teve pouca procura, e só meio milhão de barris foram contratados, informou a Semafor. Patrick De Haan, analista da GasBuddy, disse ao site que a medida não deve mudar muito o preço.
A pressão sobre a Europa
A Casa Branca pediu à União Europeia que use seus estoques de emergência de diesel, segundo duas fontes ouvidas pela agência Reuters. Os EUA exportam em média 1,4 milhão de barris por dia de destilados, sobretudo para a Europa e a América Latina, de acordo com o Washington Post.
Os ministros de Energia da UE se reuniram nesta terça na Irlanda. O comissário de Energia, Dan Jorgensen, enviou aos governos uma carta recomendando reduzir o consumo de gás e eletricidade "pelo tempo que for necessário", com menos uso no horário de pico e limite de temperatura em prédios públicos. Ele disse que os estoques de gás estão "excepcionalmente baixos" depois de um verão de calor recorde, mas que não há risco imediato de falta.
"Não é do interesse de ninguém, nem dos EUA, nem nosso, não ter o fluxo de energia mais livre possível nestes tempos difíceis", afirmou Jorgensen. O porta-voz da Comissão Europeia, Olof Gill, foi mais direto: "Acreditamos que isso é uma má ideia".
Fatih Birol, diretor da AIE, disse que a Europa é "uma das regiões mais expostas, se não a mais exposta", e que "hoje recebemos cerca de 50% do nosso diesel dos Estados Unidos", segundo a Bloomberg. O ministro irlandês Darragh O'Brien, que esteve em Washington, afirmou que não espera a proibição, mas que é preciso cautela.
Por que o Brasil entra na conta?
Dados das empresas de rastreamento de navios Kpler e Vortexa, reunidos pela Bloomberg em 23 de setembro, mostram o Brasil como o maior comprador do diesel feito nos EUA neste mês, puxado pela época de plantio. Segundo a agência, a América Latina sentiria o aperto mais forte com uma proibição.
No Brasil, o diesel move caminhões que levam a safra e a comida às cidades. Um corte no fornecimento americano, em pleno plantio, tende a pressionar o frete. É esse o preço que chega à família de quem manda dinheiro daqui.
O risco de a gasolina subir aqui
A proibição poderia até baixar o diesel nos EUA num primeiro momento, mas com possíveis reações adversas na cadeia, avaliou o banco Morgan Stanley, citado pela CNBC. O banco vê risco de o efeito voltar para a gasolina americana conforme as refinarias ajustarem a produção.
Mike Sommers, presidente do American Petroleum Institute, que representa a indústria do petróleo, disse que restringir as exportações "só agravaria o problema". Benedict George, da consultoria Argus Media, afirmou à CNBC que os EUA forneceram cerca de metade do diesel importado pela Europa nos últimos meses e que qualquer medida duraria "dois ou três meses, no máximo absoluto".
Para o brasileiro que trabalha como motorista de caminhão, de entrega ou de aplicativo, ou em construção e jardinagem, o preço do combustível pesa direto no orçamento. O diesel também entra no custo do frete e, por consequência, no preço da comida no mercado.
O pano de fundo
A alta do combustível vem da guerra com o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, que afetou o tráfego no Estreito de Ormuz. Cerca de 20% das importações de diesel da Europa já são atingidas pela crise na região, segundo a Bloomberg. O presidente francês, Emmanuel Macron, pediu o afrouxamento das regras para que as refinarias europeias produzam mais.
O que vem a seguir
As propostas pela reserva estratégica fecham em 6 de outubro. A decisão de Trump sobre a exportação não tem data, e as versões em discussão falam em restrição de 90 dias. A UE e a AIE avaliam liberar estoques próprios. No Brasil, o primeiro turno da eleição é no domingo, 4 de outubro.
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