Seattle e King County vão retomar a administração direta de cerca de US$ 160 milhões em contratos de atendimento a pessoas sem moradia, hoje sob responsabilidade da King County Regional Homelessness Authority (KCRHA). O plano foi anunciado em 3 de agosto pela prefeita Katie B. Wilson e pelo executivo do condado, Girmay Zahilay.
A agência não será extinta, mas perde a maior parte do trabalho do dia a dia. A transferência dos contratos deve se completar em janeiro de 2027.
Quem passa a administrar cada contrato
O Departamento de Serviços Humanos de Seattle assume 117 contratos, que somam US$ 112,8 milhões e envolvem 40 prestadores de serviço. O Departamento de Serviços Comunitários e Humanos de King County fica com outros 100 contratos, de US$ 46,3 milhões, também com 40 prestadores.
No conjunto, são mais de 50 organizações que operam abrigos, atendimento de rua e programas de moradia na região. Para quem procura vaga em abrigo ou trabalha em uma dessas organizações, o serviço continua, mas o órgão que assina o contrato e cobra o resultado passa a ser a prefeitura ou o condado.
Os números da auditoria
A mudança veio depois de uma auditoria forense divulgada em abril. O levantamento apontou US$ 13 milhões em gastos sem prestação de contas, cerca de US$ 8 milhões em despesas não reconciliadas e mais de US$ 4 milhões de gasto administrativo acima do previsto.
A auditoria também registrou saldo de caixa negativo de US$ 44,7 milhões em julho de 2025, e descreveu escrituração precária, recibos ausentes e atraso no pagamento de prestadores. Depois dos resultados, parte dos dirigentes de Seattle e do condado defendeu dissolver a agência.
Entre 27 e 31 de julho, prefeitura e condado começaram a anunciar publicamente o que chamaram de “reset” da autoridade. O plano detalhado, com os números por contrato, veio em 3 de agosto.
Como a agência chegou até aqui?
A KCRHA nasceu de um acordo entre a cidade e o condado, assinado em dezembro de 2019 pela então prefeita Jenny Durkan e pelo então executivo do condado, Dow Constantine. A ideia era unificar num só órgão o atendimento que estava espalhado entre governos, quatro anos depois de a região declarar emergência de saúde pública por causa da população de rua.
A operação começou de fato em 2021. De lá para cá, a agência teve cinco chefes-executivos em cinco anos, três deles interinos, e chegou a administrar um orçamento anual de cerca de US$ 200 milhões e contratos que cobriam 39 cidades de King County.
Por que a agência não foi extinta?
“Nem a cidade nem o condado estão propondo que a gente dissolva a King County Regional Homelessness Authority”, afirmou Mark Ellerbrook, da prefeitura de Seattle, ao detalhar o plano.
Zahilay tratou a decisão como etapa, não como ponto final: “Este é um passo intermediário para estabilizar a entidade.” Em outra declaração sobre a reorganização, o executivo do condado resumiu: “Não vamos manter o status quo só porque mudar é difícil.”
O que sobra para a autoridade regional
A KCRHA continua com quatro funções centrais. A primeira é captar dinheiro federal, sobretudo os recursos do programa Continuum of Care, do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano (HUD), que somam cerca de US$ 67 milhões por ano.
A agência também segue responsável pela contagem periódica de pessoas em situação de rua, pelo sistema regional de cadastro e dados — o Coordinated Entry e o sistema de informação HMIS — e pela coordenação de abrigos em episódios de clima severo, como frio extremo, calor extremo e fumaça de incêndio florestal.
A conta de pessoal
Assumir os contratos custa dinheiro. Seattle criou 23 posições emergenciais, ao custo de US$ 3,9 milhões por ano. King County informou que vai contratar de dez a doze servidores para acompanhar os contratos transferidos.
Do lado da KCRHA, a redução de escopo vem acompanhada de corte de pessoal.
A fila cresce enquanto a estrutura muda.
A reorganização acontece com a demanda em alta. A contagem de 2026 registrou 18.365 pessoas em situação de rua em King County, 9% a mais do que em 2024. A parcela sem abrigo — quem dorme na rua, em carro ou em barraca — chegou a 64% do total, com alta de 21% em dois anos.
No mesmo período, a região perdeu 689 vagas de abrigo entre 2025 e 2026.
O que o morador de Seattle precisa acompanhar
Até janeiro de 2027, o atendimento segue pelos mesmos prestadores e nos mesmos endereços. A troca é administrativa, e não de porta de entrada.
O ponto a acompanhar é o período de transição: contrato que muda de gestor costuma passar por renegociação de prazo e de valor. Para famílias imigrantes que dependem de abrigo emergencial, de ajuda com aluguel ou de atendimento em português por meio de organizações comunitárias, vale confirmar com o próprio prestador se o serviço muda de escopo quando o contrato passar para a prefeitura ou para o condado.
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