A pobreza na Argentina subiu para 32,3% da população no primeiro semestre de 2026, ante 28,2% nos seis meses anteriores, informou em 24 de setembro o Indec, o instituto oficial de estatística do país. É a primeira alta desde o pico de 52,9% registrado no primeiro semestre de 2024, logo após a desvalorização do peso promovida pelo presidente Javier Milei, e interrompe dois anos de queda contínua.
A pobreza extrema, chamada de indigência, subiu de 6,3% para 7,5%. Entre as crianças de até 14 anos, 44,5% vivem abaixo da linha da pobreza, contra 41,3% no semestre anterior, e 10,8% estão na indigência, segundo o La Nación e a France 24.
Renda sobe, mas a cesta sobe mais.
A Associated Press (AP) explica a mecânica da piora: a renda média por pessoa nos domicílios cresceu 11,5% em seis meses, enquanto a cesta básica usada para definir a linha da pobreza encareceu quase 20%. Quando o preço do essencial corre mais do que o salário, famílias que tinham saído da estatística voltam a entrar.
A France 24 detalha os cortes: um adulto que não consegue pagar a cesta de bens e serviços básicos, de cerca de US$ 340 por mês, é considerado pobre. Quem não cobre nem a cesta alimentar, de cerca de US$ 150, entra na indigência.
Quantas pessoas são
O Indec mede a pobreza nos grandes aglomerados urbanos, e é sobre essa base que a AP calcula 9,7 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza e 2,25 milhões na indigência. Projetando o índice para toda a população, o La Nación estima 15,4 milhões de argentinos pobres, cerca de 2 milhões a mais do que seis meses antes.
A geografia é desigual. Segundo o La Nación, Concordia, no nordeste do país, tem 56,2% de pobres, e Gran Resistencia, 48,6%. Na periferia de Buenos Aires, o chamado conurbano, a taxa é de 36,9%, mais que o triplo dos 11,1% da capital.
Emprego formal em queda há 13 meses.
A AP aponta que o emprego formal no setor privado caiu por 13 meses consecutivos e que a atividade econômica recuou 2,9% em julho na comparação com junho. A France 24 registra desemprego de 7,9% no segundo trimestre, o maior desde 2021, e cerca de 30 mil empresas fechadas desde a posse de Milei.
Eduardo Donza, pesquisador do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina, atribui a piora à "precariedade do trabalho, não ao desemprego", e descreveu à France 24 o que acontece: "quando as famílias são privadas, elas precisam inventar um emprego, que pode ser catar lixo, vender na rua, vender comida na estação de trem".
O que o governo responde?
O ministro da Economia, Luis Caputo, reconheceu a alta, mas insistiu na comparação com o pior momento: "Embora a pobreza e a indigência tenham aumentado em relação ao semestre anterior, ambas as taxas seguem fortemente abaixo das do primeiro semestre de 2024", disse, segundo a AP. O governo classificou a alta como temporária e ligada à "incerteza eleitoral", de acordo com o La Nación.
Milei costuma afirmar que tirou 14 milhões de pessoas da pobreza, cálculo que parte do pico posterior à sua posse, como lembra a France 24. A AP registra que os cortes em aposentadorias e assistência social responderam por quase um quarto da redução real do gasto público no ajuste do governo, que também desvalorizou o peso em mais de 50%, segundo a France 24.
Análise: núcleo duro de pobreza.
Para Agustín Salvia, da Universidade Católica Argentina, os números mostram a "persistência de um núcleo estrutural de pobreza crônica", segundo o La Nación. Leopoldo Tornarolli, do centro de estudos Cedlas, avalia que "é necessário um mercado de trabalho mais dinâmico" para retomar a queda. O analista político Lucas Romero resumiu à AP o custo para o governo: "Sem resultados tangíveis, em atividade econômica, emprego e renda, será difícil convencer as pessoas a continuar fazendo sacrifícios."
Por que isso importa no Brasil e para o brasileiro nos EUA?
O resultado argentino entrou na campanha presidencial brasileira. Segundo o jornal A Tarde, Daniella Marques, coordenadora econômica da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), afirmou em 14 de julho, em evento com empresários em São Paulo: "A gente já tem mais de mil normas [mapeadas para revogar]. Usando um pouco de inspiração no que foi feito no governo do Javier Milei na Argentina." O próprio Milei participou da convenção do PL, em julho, que lançou a candidatura, com críticas ao governo Lula e a ministros do STF.
Brasileiros que vivem nos Estados Unidos e votam no exterior escolhem presidente em 4 de outubro, e o debate sobre repetir ou não a receita argentina faz parte da decisão. Os dados do Indec chegaram a dez dias do primeiro turno.
O que vem a seguir
O Indec divulga a pobreza a cada semestre, e o próximo dado, referente ao segundo semestre de 2026, sai em 2027. Antes disso, os indicadores mensais de inflação, emprego e atividade vão mostrar se a alta foi um solavanco ou uma tendência. O La Nación aponta como origem da piora a aceleração da inflação entre maio de 2025 e março de 2026, somada à fraqueza do emprego registrado.
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