Comer algumas horas antes de tirar sangue muda pouco o resultado da maioria dos exames de rotina, segundo estudo publicado na segunda-feira (28) na revista médica JAMA Internal Medicine. Pesquisadores do Asan Medical Center, em Seul, analisaram 9.755.547 resultados de 101.148 pacientes e concluíram que só um grupo pequeno de testes, liderado pela glicose e pelos triglicerídeos, varia o bastante para exigir jejum.
O trabalho reacende uma discussão antiga. Na mesma edição, três médicos assinam um comentário que pede o fim da exigência de jejum como regra geral antes da coleta de sangue.
O que o estudo mediu
A equipe liderada por Sunghwan Shin, do departamento de medicina laboratorial do Asan Medical Center, revisou dados de pacientes ambulatoriais de um hospital de 670 leitos na Coreia do Sul, colhidos entre fevereiro de 2021 e dezembro de 2023. Foram avaliados 372 itens de exame, dos quais 121 tinham dados suficientes para a análise completa.
Os pesquisadores dividiram as coletas em três grupos: jejum de menos de 8 horas (8,3% das amostras), de 8 a 12 horas (1,6%) e de mais de 12 horas (90%). Além de comparar grupos diferentes, eles compararam o mesmo paciente em coletas feitas com tempos de jejum diferentes, o que reduz o peso de diferenças individuais.
Onde o jejum faz diferença.
Na comparação dentro do mesmo paciente, entre menos de 8 horas e mais de 12 horas de jejum, alguns exames mudaram de forma relevante. A glicose saiu 10,8% mais alta com jejum curto. Os triglicerídeos subiram 20,1%. A gama-GT, enzima ligada ao fígado, ficou 14,8% mais alta, e a lipase, enzima do pâncreas, 36,4% mais alta. O lactato também variou.
Para esses testes, os autores defendem manter o jejum adequado. A recomendação deles é trocar a regra única por orientações específicas para cada exame, com jejum reservado para glicose, triglicerídeos e enzimas pancreáticas.
Onde ele quase não pesa.
No hemograma completo, nos eletrólitos, nos exames de função renal e hepática e no colesterol total e HDL, as diferenças ficaram dentro dos limites aceitáveis de variação do próprio laboratório ou não se confirmaram quando o mesmo paciente foi comparado consigo mesmo, segundo o artigo.
Para esses exames, ter comido algumas horas antes da coleta teve pouco efeito sobre o resultado, de acordo com os dados do hospital coreano.
Mais de 12 horas não ajuda.
Um dos achados mais diretos envolve quem estende o jejum além do pedido. Na comparação entre 8 a 12 horas e mais de 12 horas, nenhum exame ultrapassou o limite de erro total permitido, informaram os autores. Ficar a noite inteira e a manhã seguinte sem comer, portanto, não trouxe ganho de precisão em nenhum dos testes analisados.
O site Medical Dialogues, que resumiu o estudo, destacou o mesmo ponto: prolongar o jejum além de 12 horas não oferece benefício adicional.
Os limites da pesquisa
Os próprios autores listam as restrições do trabalho. Os dados vêm de um único hospital coreano, o que limita a generalização para outras populações. O estudo é retrospectivo, e a composição da refeição feita antes da coleta não foi controlada. O tempo de jejum só era registrado quando o médico pedia um exame que já exigia jejum. E a amostra tem mais pessoas idosas do que a população geral.
Médicos pedem o fim da regra geral.
No comentário que acompanha o estudo, Liv Tybjærg Nordestgaard, Mie Balling e Børge Grønne Nordestgaard argumentam que a maioria das pessoas passa o dia alimentada. Por isso, segundo eles, o exame sem jejum é "mais representativo da condição fisiológica habitual". Os autores afirmam que o jejum é clinicamente relevante para poucos testes, pesa sobre o paciente e complica o atendimento, e defendem abandonar a exigência de rotina.
O Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA (VA) já fez essa mudança. Desde 17 de abril de 2023, a maioria dos exames de sangue na rede do VA deixou de exigir jejum, e os veteranos podem colher sangue em qualquer horário de funcionamento da clínica. O órgão citou pesquisas que mostram resultados precisos sem jejum noturno e o risco de hipoglicemia perigosa em pacientes com diabetes que ficam muitas horas sem comer.
O Brasil flexibilizou o exame de colesterol há dez anos.
No Brasil, a discussão começou antes. Um consenso brasileiro de 2016 recomendou medir colesterol total, HDL e triglicerídeos sem jejum e calcular o colesterol não-HDL a partir desses valores. Quando os triglicerídeos passam de cerca de 400 mg/dL, o consenso orienta usar outra fórmula para estimar o LDL.
A mudança teve críticos. Em artigo de 2018 nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, os pesquisadores Caio Maurício Mendes de Cordova e Caroline Galgowski questionaram se a flexibilização tinha base científica. Eles apontaram que a medida sem jejum pode ser menos sensível para prever doença cardiovascular, sobretudo em mulheres, e alertaram para o risco de pacientes deixarem de fazer jejum também em exames que ainda exigem.
O que fazer antes do próximo exame?
O estudo não muda o pedido que está na mão do paciente. A orientação que vale é a do médico ou do laboratório que fará a coleta, já que o pedido pode incluir glicose, triglicerídeos ou outro teste sensível ao jejum. Em caso de dúvida, a saída é perguntar ao laboratório quais exames do pedido exigem jejum e por quantas horas.
O VA orienta que a equipe de saúde informe quando o paciente precisa de jejum ou deve suspender algum remédio antes da coleta. Para pessoas com diabetes, o próprio órgão lembra que longos períodos sem comer podem derrubar o açúcar no sangue a níveis perigosos.
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