Um estudo publicado nesta semana na revista Annals of Internal Medicine estima que o fim da vacinação universal contra a hepatite B ao nascer pode elevar em até 83% as infecções crônicas em crianças nos Estados Unidos em 20 anos. O trabalho, da Mass General Brigham, em Boston, chega num momento de dúvida para quem vai ter bebê no país: a mudança aprovada em dezembro de 2025 está suspensa pela Justiça desde março, e o site do CDC, segundo a ABC News, ainda indica a vacina para todos os bebês.
Para as famílias brasileiras que esperam filho nos EUA, a questão é prática. A primeira dose é a aplicada logo após o parto, e o governo federal prepara uma revisão do calendário infantil com prazo no começo de novembro.
O que o estudo projeta
O modelo de computador acompanhou um grupo hipotético de 3,6 milhões de bebês nascidos nos EUA em 2026 até os 20 anos. Para os filhos de mães com teste negativo para hepatite B na gravidez, comparou a dose universal ao nascer com duas alternativas: adiar a primeira dose para pelo menos 2 meses ou deixar a escolha para os pais e o profissional de saúde, a chamada "decisão clínica compartilhada". Nesse último cenário, os pesquisadores supuseram que metade dos bebês seria vacinada a partir dos 2 meses.
Adiar a dose aumentaria os casos crônicos em cerca de 19% (303 contra 255 na vacinação universal). A decisão compartilhada levaria a 467 casos, alta de cerca de 83%. O número de jovens de 20 anos sem proteção contra o vírus subiria de cerca de 232 mil, com a dose universal, para 474 mil com o adiamento e 1,8 milhão com a decisão compartilhada. Os autores ressaltam que os números saem de uma simulação e que, no estudo, suscetível quer dizer sem proteção contra o vírus.
"Descobrimos que, mesmo nas condições mais otimistas, as novas recomendações poderiam aumentar as infecções de hepatite B na infância em mais de 80%", disse o autor correspondente, o infectologista Amir Mohareb, do Centro de Saúde Global da Mass General Brigham. Para ele, os resultados mostram por que as autoridades deveriam restabelecer a vacinação universal ao nascer.
A hepatite B ataca o fígado e pode virar uma infecção para a vida toda. Segundo a Academia Americana de Pediatria (AAP), cerca de 90% dos recém-nascidos infectados desenvolvem a forma crônica, contra menos de 5% dos adultos infectados mais tarde.
O que está valendo agora
Em 5 de dezembro de 2025, o comitê de vacinas do CDC, o ACIP, votou para acabar com a dose universal ao nascer para filhos de mães com teste negativo, e o CDC adotou a mudança no dia 16. Pela regra, os pais decidiriam com o profissional de saúde, e o bebê não vacinado ao nascer receberia a primeira dose a partir dos 2 meses. Filhos de mães com hepatite B ou com resultado desconhecido continuariam recebendo a vacina em até 12 horas.
Em 16 de março de 2026, o juiz federal Brian Murphy, de Boston, suspendeu as decisões tomadas pelo ACIP, inclusive a da hepatite B, e as nomeações de 13 integrantes escolhidos pelo secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., numa ação movida pela AAP e por outras entidades médicas. O governo recorreu ao Tribunal de Apelações do 1º Circuito. A página oficial do ACIP mostra canceladas as três reuniões previstas para 2026, incluindo a desta semana, de 21 a 23 de outubro, "devido a litígio em andamento".
Procurado pela ABC News, o Departamento de Saúde (HHS) indicou uma publicação de Kennedy na rede X na terça-feira (20). "Rejeito a ideia de que respeitar as escolhas dos pais significa abandonar a saúde das crianças", escreveu o secretário.
O próximo capítulo pode vir em novembro. Uma ordem executiva de 10 de agosto deu ao secretário 90 dias para apresentar planos sobre o calendário federal de vacinação, incluindo o momento e a sequência das doses. Reportagem do CIDRAP, centro de pesquisa da Universidade de Minnesota, aponta que, se a linguagem das recomendações mudar, a vacina de hepatite B pode cair na categoria de decisão compartilhada. "Isso introduziu muita confusão num campo em que a ciência, na verdade, não mudou", disse ao CIDRAP Margot Savoy, diretora médica da Academia Americana de Médicos de Família.
O que muda para quem vai ter bebê nos EUA
A AAP afirma que sua orientação não mudou com as votações do ACIP: primeira dose nas primeiras 24 horas de vida e doses seguintes entre 1 e 2 meses e entre 6 e 18 meses. Para filhos de mães com teste positivo, a entidade indica a vacina e a imunoglobulina contra hepatite B (HBIG) em até 12 horas após o parto. Quando o resultado da mãe é desconhecido, a vacina também deve ser aplicada em até 12 horas. Por isso o exame de hepatite B feito na gestação define o caminho do bebê.
Médicos e especialistas em saúde pública ouvidos pela ABC News dizem que a vacina importa mesmo quando a mãe tem resultado negativo, porque a criança pode ter contato com o vírus por meio de cuidadores infectados. "Quando uma recomendação passa de 'todo bebê' para 'vamos conversar', muitas famílias ouvem 'opcional'", afirmou o pediatra Alok Patel, professor clínico associado da Universidade Stanford.
Quem paga a vacina
No texto da consulta pública que abriu em agosto, o próprio HHS escreve que uma recomendação de decisão compartilhada, depois de adotada pelo diretor do CDC, gera as mesmas exigências de cobertura de uma recomendação de rotina, incluindo vacina sem custo para o paciente pela lei de saúde conhecida como ACA (Obamacare) e acesso pelo programa Vaccines for Children (VFC). Uma análise da KFF de dezembro de 2025 aponta que, para a hepatite B, a exigência continuou valendo para seguros privados, Medicaid e VFC. A AHIP, associação das operadoras, afirma que seus membros vão cobrir todas as vacinas recomendadas pelo ACIP, sem coparticipação, até o fim de 2027.
Para famílias sem plano, o VFC fornece vacinas de graça a crianças de até 18 anos que se encaixem em ao menos um critério: ter direito ao Medicaid, não ter seguro, ter seguro insuficiente (nesse caso, só em centros de saúde com qualificação federal ou clínicas rurais) ou ser indígena americano ou nativo do Alasca. Segundo o CDC, não é preciso apresentar prova de elegibilidade, e a página do programa não cita status migratório entre os critérios. O profissional pode cobrar uma taxa de aplicação, mas não pode recusar a vacina se a família não tiver como pagá-la. Para achar um posto credenciado, o CDC orienta procurar o departamento de saúde estadual ou local.
A próxima reunião do ACIP no calendário do CDC está marcada para 24 a 26 de fevereiro de 2027. Antes disso, dois fatos podem mexer na regra da dose ao nascer: a decisão do 1º Circuito sobre o recurso do governo e o plano que o HHS deve apresentar até o começo de novembro.
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