O Irã colocou pela primeira vez um prazo na mesa para reabrir o Estreito de Ormuz. Um alto funcionário iraniano disse à agência Reuters, em Nova York, na terça-feira (22), que o país pode restabelecer a passagem em até sete dias se os Estados Unidos aliviarem a pressão militar e suspenderem o bloqueio aos portos iranianos. A proposta foi entregue a Washington por mediadores em 16 de setembro, e a delegação que participa da Assembleia Geral da ONU está na cidade, segundo ele, "com autoridade plena" para retomar a diplomacia.
O estreito por onde passava cerca de 20% do petróleo do mundo antes da guerra opera hoje a 38% do volume anterior. É esse gargalo que sustenta a gasolina perto de US$ 4,50 o galão nos Estados Unidos e pesa no frete e no supermercado de quem vive no país. Cada sinal de reabertura, ou de escalada, chega à bomba em dias.
O que o Irã pede
O porta-voz da chancelaria iraniana, Esmail Baghaei, listou as condições que o país chamou de "claras e transparentes": fim do bloqueio naval americano no Golfo de Omã, fim do que Teerã chama de "terrorismo econômico", ou seja, das sanções a parceiros comerciais do Irã, liberação de ativos iranianos bloqueados e um acordo sobre uma rota segura de navegação em Ormuz. Segundo a CNBC e a PBS, Baghaei disse que as conversas em Nova York "não foram nada novo".
O funcionário ouvido pela Reuters foi mais direto sobre o passo que Teerã espera: "Os EUA precisam anunciar que querem resolver a questão pela via diplomática, tornar isso oficial e depois combinar um cronograma de como o processo vai avançar". O prazo de sete dias, portanto, só começa a contar depois de um anúncio formal de Washington e da suspensão do bloqueio. Ainda não há data marcada.
Trump ameaça e confirma reunião no mesmo dia.
Horas antes, no discurso à Assembleia Geral na terça, o presidente Donald Trump apresentou a escolha em termos crus: "Um acordo será feito com o Irã? Ou eu aniquilo a República Islâmica, e faço isso rápido?" Ele pediu que todas as nações imponham o isolamento econômico completo do país.
No fim do dia, Trump disse a repórteres que seus enviados Steve Witkoff e Jared Kushner tiveram uma reunião "muito boa", de cerca de três horas, com autoridades iranianas à margem da ONU. Os interlocutores, admitiu, "não eram do mais alto nível, mas é alguma coisa". Baghaei falou em aproximadamente duas horas. Segundo a NBC News, o contato foi indireto: diplomatas do Catar levaram perguntas e respostas de um lado para o outro. Foi o primeiro contato entre os dois governos desde que o cessar-fogo de junho desmoronou.
Trump projetou um desfecho para depois das eleições de meio de mandato de 3 de novembro: "Acredito que faremos um acordo logo depois da eleição, porque não faz sentido para eles não fazer". O secretário de Estado, Marco Rubio, disse que o presidente está aberto a encontrar o presidente iraniano em Nova York, mas Teerã já avisou que Masoud Pezeshkian não se reunirá com Trump na sede da ONU.
Pezeshkian na tribuna: "não dobramos o joelho".
Na quarta-feira (23), Pezeshkian discursou na Assembleia Geral, a primeira vez que o líder de um país em guerra com os Estados Unidos fala à ONU em pessoa. Ele ergueu fotos do líder supremo Ali Khamenei, morto em ataque israelense em 28 de fevereiro, e das mais de 150 crianças mortas na escola de Minab no primeiro dia da guerra. Um representante americano deixou o plenário durante a fala.
"Sim, eles nos atingiram, mas não dobramos o joelho", disse. Pezeshkian afirmou que o Irã está "pronto para o diálogo, a diplomacia e as negociações, sem aceitar a linguagem da força", e fixou a posição nuclear: "sem armas nucleares e sem limitações à nova tecnologia nuclear pacífica". O Estado-Maior iraniano classificou as ameaças de Trump como "sinal de desespero estratégico". A guerra completa quase sete meses.
Rubio, depois do discurso, evitou euforia: "Não quero caracterizar isso como um grande avanço, mas acho que foi significativo que houvesse ao menos uma conversa". Trump já não estava em Nova York: voltou a Washington de madrugada para receber o presidente chinês Xi Jinping.
França redige resolução para o Conselho de Segurança.
Enquanto EUA e Irã trocavam recados pelo Catar, a França começou a redigir, em coordenação com Washington, uma resolução no Conselho de Segurança para criar uma missão internacional que restaure o tráfego em Ormuz, disseram diplomatas à Reuters. A iniciativa saiu de uma reunião do presidente Emmanuel Macron com Trump na noite de segunda-feira (21), na Trump Tower. Paris quer circular o rascunho em breve, sem prazo definido.
A ideia é separar a segurança do estreito das demais tensões com o Irã, sem postura ofensiva contra Teerã e sem críticas aos Estados Unidos. Tentativas anteriores esbarraram no veto de China e Rússia: em abril, os dois países barraram uma resolução sobre Ormuz apresentada pelo Bahrein. Macron disse ver "disposição para reabrir Ormuz" e que o objetivo é permitir a passagem de mais porta-contêineres e petroleiros "mesmo sem um acordo abrangente".
O que passa pelo estreito hoje
Os trânsitos confirmados por Ormuz somaram em média 6,98 milhões de barris por dia nos sete dias até 20 de setembro, cerca de 38% da linha de base de 18,3 milhões anterior à guerra, segundo dados da Kpler citados pela CNBC. As exportações de petróleo do Irã caíram a zero em setembro, de 893 mil barris por dia em julho, por causa do bloqueio naval americano. O estreito, na descrição da CNBC, virou "um corredor cada vez mais controlado pela Arábia Saudita".
Petróleo sobe e a gasolina fica perto de US$ 4,50.
O petróleo reagiu na quarta. Depois de cinco sessões seguidas de queda, em que perdeu quase 12% e saiu da faixa acima de US$ 100, o Brent fechou a US$ 103,08, alta de 3,9%, e o WTI a US$ 92,16, alta de 1,8%.
Na bomba, a média nacional da gasolina comum estava em US$ 4,43 em 17 de setembro, segundo a AAA, 16 centavos acima da semana anterior e mais de US$ 1 acima de um ano antes, perto do recorde do ano, de US$ 4,56, registrado em 21 de maio. O estado de Washington tinha o segundo galão mais caro do país, a US$ 5,57, atrás só da Califórnia (US$ 6,08).
O Brasil na mesma conta.
Ao abrir a Assembleia Geral na terça, o presidente Lula disse que "o Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional" e que famílias de todo o mundo foram atingidas pelo aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos, segundo a CNN Brasil.
O que vem a seguir
Irã e EUA chegaram a assinar em junho, em Islamabad, um memorando preliminar de 60 dias para encerrar a guerra e reabrir o estreito, mas os combates recomeçaram no verão e o acordo caiu em julho. "A discussão principal será sobre voltar ao memorando, que é essencialmente suspender o bloqueio ao Irã e o Irã suspender o bloqueio ao Estreito de Ormuz", disse Sina Azodi, diretor de estudos do Oriente Médio da George Washington University, à NBC News.
Nenhum dos lados indicou quando será a próxima rodada. A Al Jazeera cita Catar, Omã e Paquistão como mediadores e lista os sinais a observar: uma rodada de acompanhamento confirmada, um acordo sobre a ordem dos passos e uma reunião direta entre autoridades. O debate de alto nível da ONU segue até sexta-feira (26). Em Washington, a cúpula entre Trump e Xi Jinping na quinta-feira (24) inclui a política para o Irã na agenda, segundo o Council on Foreign Relations.
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