Quatro das maiores entidades médicas dos Estados Unidos divulgaram nesta quarta-feira (2) recomendações próprias de vacinação contra covid-19, gripe e vírus sincicial respiratório (VSR) para a temporada 2026-27. A Academia Americana de Pediatria (AAP), o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG), a Academia Americana de Médicos de Família (AAFP) e a Sociedade Americana de Doenças Infecciosas (IDSA) publicaram os textos no mesmo dia, informou a NPR.
As orientações são mais amplas que a política federal em vigor, que restringe a vacina de COVID principalmente a pessoas de 65 anos ou mais e a quem tem alguma condição de saúde de base. Adultos jovens saudáveis, crianças pequenas e gestantes ficaram de fora da recomendação do governo.
Por que os médicos passaram a publicar sozinhos?
O processo federal de atualização das diretrizes está congelado. O secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr. tentou reduzir o calendário de vacinas infantis de rotina, apoiado em alegações contestadas sobre autismo, e uma ação judicial barrou a mudança, travando também a atualização das recomendações do CDC, segundo a NPR.
“O silêncio, neste momento, é conivente com a tentativa de não deixar as pessoas saberem da importância das vacinas”, disse Demetre Daskalakis, ex-diretor de imunização do CDC.
O que a pediatria recomenda para criança?
A AAP indica a vacina de COVID-19 para todos os bebês e crianças de 6 a 23 meses; para crianças e adolescentes de 2 a 18 anos com risco de complicação grave; e também para qualquer criança ou adolescente dessa faixa cujos pais ou responsáveis queiram vacinar, mesmo sem fator de risco.
A entidade escalonou a publicação: a orientação sobre gripe saiu em 10 de agosto e as de covid-19 e VSR em 2 de setembro, cada uma acompanhada de um relatório técnico com as evidências, na revista Pediatrics.
Gravidez e amamentação.
O ACOG recomenda a vacina de COVID-19 para gestantes, para quem está planejando engravidar e para quem amamenta. A entidade mantém ainda a indicação de gripe, VSR e Tdap (tétano, difteria e coqueluche) na gestação.
É a primeira vez que o colégio de obstetras publica um calendário de imunização separado do CDC. A entidade deixou o comitê federal que assessora o órgão, alegando perda de integridade científica no processo. “Nós somos todos pela ciência”, disse Laura Riley, que preside o grupo de especialistas em imunização do ACOG.
Adultos
A AAFP recomenda a vacina de COVID-19 para todos os adultos a partir de 19 anos. Para quem tem 65 anos ou mais, a entidade indica uma segunda dose seis meses depois da primeira.
A vacina anual de gripe é recomendada para qualquer pessoa a partir de 6 meses de idade. Adultos de 50 anos ou mais podem receber as novas vacinas de gripe de RNA mensageiro.
VSR
A AAP ampliou a imunização contra o VSR para bebês e crianças de 8 a 19 meses com determinados fatores de risco. Em adultos, a AAFP acompanha a orientação federal, que prevê dose única para quem tem 75 anos ou mais e para pessoas de 50 a 74 anos com risco aumentado, e recomenda a vacina também para adultos e adolescentes imunossuprimidos, alinhada à IDSA.
O que a revisão de evidências encontrou
Em paralelo, o Vaccine Integrity Project, do CIDRAP na Universidade de Minnesota, e a Associação Médica Americana revisaram a literatura sobre as três vacinas e publicaram os resultados na revista JAMA. A revisão foi co-liderada pela pesquisadora Nicole Basta.
Sobre a gripe, o levantamento aponta redução de 31% no risco de internação em adultos de 65 anos ou mais e queda de 44% na doença sintomática em bebês cujas mães se vacinaram. Sobre a COVID-19, registra queda de 53% no risco de internação entre adultos de 65 anos ou mais e redução de 32% a 53% em internação em UTI e morte entre imunossuprimidos; a vacinação na gestação foi associada a 76% menos idas ao pronto-socorro de crianças de 9 meses a 4 anos.
Na proteção contra o VSR, a efetividade ficou entre 69% e 83% em adultos de 60 anos ou mais. A vacinação da gestante foi associada a 82% menos internação de bebês, e o anticorpo monoclonal nirsevimabe, a uma redução de 64% a 93% no risco de internação de lactentes.
“O programa nunca vai substituir o ACIP”, disse Michael Osterholm, diretor do CIDRAP, referindo-se ao comitê federal de imunização, que classificou como um paliativo enquanto o processo oficial não volta. Para Bruce Gellin, que preside o conselho do projeto, “não podemos permitir que a ruptura de um processo federal crie um vazio na orientação vacinal baseada em evidência”.
Plano de saúde, Medicare e farmácia.
A cobertura não mudou: planos privados, o Medicare e o programa federal Vaccines for Children, que atende crianças sem plano de saúde, continuam pagando as doses, segundo a NPR.
Na farmácia, a maior parte dos estados desvinculou a autoridade do farmacêutico das diretrizes federais e passou a seguir as recomendações das entidades médicas, o que, na prática, permite aplicar a dose com base nesses novos textos.
O que ainda vem
A AAP prevê publicar a orientação sobre HPV em dezembro e o calendário completo de imunização de crianças e adolescentes em janeiro de 2027. Até lá, quem tiver dúvida sobre qual dose tomar deve conversar com o médico de família ou o pediatra, que estão trabalhando com esses documentos.
Comentários
Faça login para comentar
EntrarSeja o primeiro a comentar!