A rede pública NPR e o Centro de Clima e Saúde da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston passaram dois anos montando um modelo estatístico para responder a uma pergunta simples: quantas pessoas morrem por causa do calor nos Estados Unidos. O número que encontraram é cerca de cinco vezes maior do que o da contabilidade oficial.
O modelo estima aproximadamente 9 mil mortes por ano influenciadas pelo calor entre 2018 e 2025, com alguns anos passando de 10 mil. Os registros federais, no mesmo período, apontam em média cerca de 1.700 mortes anuais. Entre 2004 e 2018, a média oficial era ainda menor, perto de 700 por ano.
Por que o atestado de óbito quase nunca diz calor
O calor raramente aparece como causa em documento oficial porque não deixa marca visível no corpo. Ele empurra para o limite quem já tem uma condição de saúde, e a morte acaba registrada pelo que veio depois: um infarto, uma falência renal, uma crise respiratória. É por isso que a reportagem chama o calor de assassino silencioso.
O outro problema é de coleta. Os dados que alimentam a contagem nacional são reunidos de forma desigual entre estados e condados, e raras vezes com investigação a fundo do que precedeu a morte. O resultado é uma subcontagem larga.
Como os pesquisadores chegaram ao número
A equipe analisou 530 condados com pelo menos 50 mil habitantes, que juntos concentravam cerca de 73% da população americana em 2024. O período foi de 2018 a 2025, com 2020 excluído por causa das distorções provocadas pela covid-19.
Os dados de temperatura vieram do ERA5-Land, base do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo. O método estatístico se chama case-crossover estratificado no espaço e no tempo: em resumo, ele compara a mortalidade de um mesmo lugar em dias quentes e em dias de temperatura normal, o que isola o efeito do calor. A análise completa ainda será publicada em revista científica.
Quinn Adams, pesquisadora científica do Centro de Clima e Saúde da Universidade de Boston, liderou a parte acadêmica do trabalho. Também aparecem na reportagem o médico e pesquisador Sameed Khatana, da Escola de Medicina Perelman da Universidade da Pensilvânia, e Nichole Quick, diretora científica do Departamento de Saúde Pública do Condado de Los Angeles.
Onde a diferença entre o real e o oficial é maior
Os maiores totais absolutos estão na Flórida e no Texas. Na Flórida, o modelo estima cerca de 1.900 mortes por ano ligadas ao calor, aproximadamente 40 vezes o que os registros oficiais mostram. Em Michigan, a estimativa fica perto de 100 por ano, dez vezes o número oficial. Em Massachusetts, são cerca de 60 mortes estimadas contra 5 reportadas.
A investigação também mostra que o calor deixou de ser problema restrito ao Sul. Segundo a reportagem, ele está matando gente em praticamente todos os cantos do país.
A temporada de calor ficou mais longa
Dois números resumem a mudança do pano de fundo. A temporada de ondas de calor se estendeu em um mês e meio desde os anos 1960. E nas 50 maiores cidades americanas o número de ondas de calor dobrou desde os anos 1980.
Isso muda o cálculo de risco de cidades que historicamente não precisavam pensar no assunto, inclusive as de altitude e clima seco, onde parte do estoque de moradias antigas não tem ar-condicionado.
No Colorado, o atendimento por calor bate recorde
O estado dá um retrato local do que a investigação nacional descreve. Entre 3 de maio e 8 de agosto de 2026, 1.124 pacientes em 18 dos condados mais populosos do Colorado foram internados ou atendidos em pronto-socorro e em clínicas de urgência por insolação, exaustão por calor ou outra doença ligada à temperatura, segundo o Programa de Vigilância Sindrômica do Departamento de Saúde Pública e Meio Ambiente do estado (CDPHE).
Esses números colocam o Colorado a caminho de um índice de 13,6 casos por 10 mil atendimentos médicos no verão de 2026, acima do recorde anterior de 8,9, de 2024, e mais que o dobro do índice medido quando o estado começou a acompanhar esses dados, em 2019. O monitoramento vai de 1º de maio a 30 de setembro, e 46 condados do estado ficam fora da coleta.
Dois episódios ajudam a entender o que está por trás do índice. Em 8 de agosto, Colorado Springs chegou a 97°F e quebrou um recorde de 57 anos. No festival Tacos and Tequila, mais de 70 pessoas foram atendidas por problemas ligados ao calor e pelo menos sete foram hospitalizadas.
Sara Meerow, professora associada de geografia da Universidade do Colorado em Boulder, resumiu a virada à KUNC: comunidades que historicamente não pensavam muito em calor agora precisam pensar.
Quem corre mais risco
Os grupos mais atingidos, segundo a reportagem da KUNC, são os trabalhadores ao ar livre - frigorífico, colheita, construção e comércio -, os idosos e as pessoas em situação de rua. Milton Jones, presidente do sindicato internacional de trabalhadores de alimentos e comércio (UFCW), acusou o governo Trump de deixar trabalhadores em risco.
É a faixa de ocupações em que boa parte da comunidade brasileira nos Estados Unidos está: obra, telhado, paisagismo, entrega, limpeza. Nenhuma dessas atividades entra na estatística de morte por calor com esse nome, e é exatamente esse o ponto da investigação.
O que vem a seguir
A publicação da análise completa em revista científica é o próximo passo do trabalho da NPR com a Universidade de Boston. No plano estadual, o painel de vigilância do CDPHE segue atualizando os dados de doença ligada ao calor até o fim de setembro, quando a temporada de monitoramento se encerra.
Onde confirmar
Reportagem da NPR sobre a investigação conjunta com a Universidade de Boston, publicada em 31 de agosto de 2026 e distribuída pelas afiliadas da rede; e reportagem da KUNC de 18 de agosto de 2026 com os dados do Programa de Vigilância Sindrômica do Departamento de Saúde Pública e Meio Ambiente do Colorado.
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