A agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos aprovou em 26 de agosto o daraxonrasib, vendido como Rasonque, primeira terapia dirigida a um alvo genético para o câncer de pâncreas metastático. No estudo que sustentou a decisão, os pacientes que receberam o comprimido viveram uma mediana de 13,2 meses, contra 6,7 meses dos que receberam quimioterapia.
O medicamento é da Revolution Medicines, empresa de Redwood City, na Califórnia, e é um inibidor da família RAS GTPase — um grupo de proteínas que funciona como motor de crescimento na maioria dos tumores de pâncreas. A aprovação saiu cerca de seis meses e meio antes do prazo regulatório previsto.
Para quem o remédio foi aprovado?
A indicação autorizada é para adultos com adenocarcinoma pancreático metastático que já receberam pelo menos uma terapia sistêmica anterior, ou que não têm condições de receber um esquema com múltiplos medicamentos. Ou seja: é tratamento de segunda linha, para quem já passou por quimioterapia e viu a doença voltar a avançar.
Não é cura. "Este remédio não é uma cura, mas uma melhora significativa", disse o oncologista Andrew Coveler, do Fred Hutch Cancer Center, à agência Associated Press.
Os números do estudo
A eficácia foi avaliada no ensaio RASolute 302, registrado sob o código NCT06625320 — um estudo randomizado, aberto e multicêntrico com pacientes cuja doença havia progredido após uma linha prévia de tratamento sistêmico. Foram 500 participantes, divididos meio a meio entre o daraxonrasib e a quimioterapia escolhida pelo médico.
No grupo de pacientes com mutação RAS G12, a sobrevida global mediana foi de 13,2 meses com o novo medicamento, contra 6,6 meses com a quimioterapia. A sobrevida livre de progressão — o tempo até o tumor voltar a crescer — foi de 7,3 meses, contra 3,5 meses.
Por que a comunidade médica reagiu assim?
O câncer de pâncreas é diagnosticado em cerca de 67 mil pessoas por ano nos Estados Unidos e mata mais de 52 mil. A taxa de sobrevida em cinco anos é de 13%, uma das mais baixas entre todos os tumores. Décadas de pesquisa não produziram um avanço comparável ao de outros tipos de câncer.
"Será transformador na maneira como tratamos o câncer de pâncreas. "É o maior avanço que tivemos em pâncreas em décadas", disse Andrew Ko, oncologista especializado em tumores gastrointestinais da Universidade da Califórnia em São Francisco, ao site STAT.
A proteína RAS era considerada praticamente inatacável por medicamentos durante quarenta anos. O daraxonrasib é o primeiro tratamento aprovado que ataca diretamente essa causa genética no câncer de pâncreas, e a leitura entre especialistas é que a aprovação destrava um caminho para outras empresas. "Acho que isso abriu portas para muitas outras companhias", afirmou o oncologista Pashtoon Kasi, do City of Hope Orange County.
Como é o tratamento e quais são os efeitos?
O Rasonque é um comprimido tomado uma vez por dia. Os efeitos colaterais mais relatados no estudo foram erupção cutânea, aftas na boca, diarreia e outros problemas digestivos. O perfil de efeitos graves foi menor que o da quimioterapia, o que importa para pacientes já debilitados por tratamentos anteriores.
Trocar infusão hospitalar por comprimido em casa muda a rotina de quem está em tratamento: menos deslocamento, menos dia de trabalho perdido por sessão e menos exposição a infecção hospitalar.
O preço
A Revolution Medicines fixou o preço em cerca de US$ 39.800 pelo suprimento de um mês, informou a NPR. O valor que o paciente efetivamente paga depende do plano de saúde, do desenho da cobertura de medicamentos especiais e dos programas de assistência da fabricante.
Para o imigrante brasileiro, três perguntas fazem diferença prática antes de qualquer expectativa: se o plano cobre medicamento oral de alto custo e em qual faixa de coparticipação; se o centro de tratamento tem um financial navigator para pedir autorização e assistência ao fabricante; e se o caso exige teste genético prévio para identificar a mutação RAS.
O que perguntar ao oncologista
- Meu tumor foi testado para mutação RAS? Se não, o teste está indicado agora?
- Eu me encaixo na indicação aprovada, ou seja, já fiz uma linha de tratamento sistêmico?
- Qual a cobertura do meu plano para esse medicamento e qual o valor estimado que sobra para mim?
- O hospital participa de algum programa de assistência ao paciente da fabricante?
- Há ensaio clínico aberto para o meu caso, caso a cobertura seja negada?
O que vem a seguir
A agência reguladora aprovou o remédio para a fase metastática, depois de tratamento prévio. Estudos em fases mais iniciais da doença e em combinação com outros medicamentos seguem em andamento, e são eles que vão definir se o ganho de sobrevida observado aqui se repete em quem acabou de receber o diagnóstico.
"É nosso dever fundamental entregar mais curas e tratamentos significativos aos pacientes o mais rápido possível", declarou Kyle Diamantas, comissário interino da agência, ao anunciar a decisão.
Onde confirmar?
- Food and Drug Administration — anúncio de aprovação do daraxonrasib para adenocarcinoma pancreático metastático, com a indicação autorizada e os dados do ensaio RASolute 302.
- STAT News — reportagem de 26 de agosto de 2026 sobre a aprovação e sua repercussão entre oncologistas.
- Associated Press (via Chicago Sun-Times) — reportagem de 26 de agosto de 2026 com dados de incidência, sobrevida e declarações da agência reguladora.
- NPR — reportagem de 27 de agosto de 2026 com o preço mensal do medicamento e avaliações de especialistas.
Comentários
Faça login para comentar
EntrarSeja o primeiro a comentar!