O Centro de Previsão Climática da NOAA elevou, em 13 de agosto, o alerta de El Niño para o status de advisory e passou a atribuir mais de 90% de probabilidade a um evento muito forte durante o outono e o inverno de 2026-2027 no Hemisfério Norte.
Há um número mais chamativo no mesmo boletim. Para o trimestre de outubro a dezembro, o órgão calcula 69% de chance de um evento histórico, capaz de superar em intensidade todos os El Niños registrados desde 1950.
O que é o El Niño?
O nome descreve o aquecimento acima da média das águas superficiais do Pacífico equatorial, na faixa entre a América do Sul e a Indonésia. Esse calor extra altera a circulação da atmosfera acima do oceano e, a partir daí, desloca as correntes de jato que organizam o tempo em boa parte do planeta.
A NOAA classifica a situação em três níveis de comunicação: watch, quando as condições favorecem a formação nos meses seguintes; advisory, quando o fenômeno já está em curso; e final advisory, quando ele se dissipa. O boletim de 13 de agosto colocou o sistema em advisory — ou seja, o El Niño já está instalado.
A intensidade é medida pela anomalia de temperatura na região de referência do Pacífico. Quanto maior a anomalia e quanto mais tempo ela se sustenta, mais forte tende a ser o efeito nas correntes de jato — e é por isso que a projeção de 15 modelos acima de 3,0°C chamou atenção dos meteorologistas.
O que dizem os modelos?
O boletim de agosto do Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade da Universidade Columbia, publicado em 19 de agosto, é ainda mais categórico quanto à permanência do fenômeno.
Segundo o instituto, a probabilidade de El Niño é de 100% do trimestre agosto-setembro-outubro de 2026 até o trimestre fevereiro-março-abril de 2027. Nenhuma probabilidade foi atribuída a La Niña ou à condição neutra nesse intervalo. Depois disso, a chance cai para 97% em março-abril-maio e 78% em abril-maio-junho de 2027.
A maioria dos modelos aponta condições de El Niño muito forte ao longo do inverno. E 15 modelos projetam anomalias de temperatura na superfície do Pacífico igual ou acima de 3,0°C — patamar acima da categoria mais intensa que o próprio instituto define.
O que El Niño costuma fazer nos EUA
O Serviço Nacional de Meteorologia explica o mecanismo. Em eventos de moderados a fortes, a corrente de jato do Pacífico fica mais forte e se estende pelo sul dos Estados Unidos, enquanto a corrente polar se desloca para o norte, em direção ao Canadá.
O resultado típico desse arranjo, segundo o órgão:
- Mais chuva no sudoeste e em toda a faixa sul do país;
- temperaturas acima da média no noroeste do Pacífico e no norte em geral;
- Inverno mais quente que o normal também no Nordeste;
- Na faixa de transição das Montanhas Rochosas, tendência de condições mais úmidas que o normal.
O serviço faz uma ressalva importante: esses mapas são composições históricas, indicam onde o fenômeno pode influenciar chuva e temperatura, e o resultado real varia conforme a intensidade do evento e outros fatores atmosféricos.
Por que isso importa para quem mora em Colorado e em Washington?
Os dois estados onde vive a maior parte dos leitores ficam em lados opostos desse padrão.
Em Washington, no noroeste do Pacífico, El Niño historicamente puxa inverno mais quente e menos úmido que o normal — o que costuma se traduzir em menos neve nas montanhas e em uma temporada de esqui mais curta.
No Colorado, a situação é de transição. O estado fica na zona onde o jato do sul, mais ativo, pode trazer mais umidade, sem que isso seja garantia. E o assunto vai além do lazer: o abastecimento de água da região metropolitana de Denver depende da neve acumulada nas montanhas, hoje em déficit.
O que fazer com essa informação agora?
Previsão sazonal não é previsão do tempo. Ela indica tendência para três meses, não se vai nevar em determinado dia.
Ainda assim, dá para agir. Quem aquece a casa com gás ou eletricidade pode acompanhar a projeção de custo da temporada antes de dezembro, já que inverno mais quente tende a reduzir o consumo e inverno mais frio faz o contrário. Quem viaja no fim do ano deve contar com maior chance de atraso de voo em rotas do sul do país, onde a tendência é de mais tempestades de chuva.
E vale lembrar que o inverno de El Niño forte não é sinônimo de inverno ameno em todo lugar. O padrão desloca as tempestades, não as elimina — o que muda é onde elas caem.
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