Drones ucranianos atingiram uma refinaria de petróleo em Moscou na madrugada deste domingo (20), com incêndio e fumaça visíveis de vários pontos da cidade. Duas pessoas morreram e 400 moradores foram retirados de um prédio de 21 andares no distrito de Ramenskoye, entre eles 70 crianças, segundo a CNN Brasil. O ataque aconteceu no último dia da eleição parlamentar russa.
A unidade atingida não é secundária. Em 2024 ela processou 11,6 milhões de toneladas de petróleo e produziu 2,9 milhões de toneladas de gasolina e 3,2 milhões de toneladas de diesel.
O ataque também derruba na prática o acordo que Trump anunciou em 14 de setembro, quando disse que Rússia e Ucrânia haviam concordado em parar de atingir instalações de energia um do outro.
O que isso tem a ver com a conta do supermercado
A resposta está no diesel. Ele não é o combustível do carro de passeio, é o combustível do caminhão que abastece o mercado, do baú que entrega encomenda e da van que leva equipe de obra e de limpeza ao serviço. Quando ele sobe, sobe o frete. Depois sobe o preço da comida.
A média nacional do diesel rodoviário nos Estados Unidos chegou a US$ 6,285 por galão no dado da agência federal de energia, a EIA, divulgado em 15 de setembro e citado pela PolitiFact. Antes da guerra com o Irã, esse mesmo galão custava US$ 3,81.
A série da AAA, que usa outra metodologia, mostra a mesma escalada: US$ 6,06 em 11 de setembro, contra US$ 5,85 uma semana antes e US$ 3,71 um ano atrás. Foi a primeira vez que o diesel passou de US$ 6 no país.
Quem vende produto pela internet já sentiu na margem. Amazon, UPS, FedEx e o correio americano adotaram sobretaxa de combustível, e a Amazon aplicou um acréscimo temporário de 3,5% a parte dos vendedores terceiros.
No supermercado, a conta demora um pouco mais para aparecer, mas aparece. Combustível responde por algo entre 15% e 30% do custo dos alimentos, segundo a Independent Grocers Alliance. Carne, frutas e verduras sentem primeiro, porque precisam de reposição frequente e de transporte refrigerado.
Metade do refino russo de diesel fora do ar
A campanha ucraniana contra refinarias vem de semanas e já produziu estrago estrutural. Apuração da Reuters publicada em 15 de setembro mostra que metade das seis maiores produtoras de diesel da Rússia parou ou cortou produção: a de Kirishi está totalmente fora de operação, e as de Nizhny Novgorod e Volgogrado rodam a cerca de 25% da capacidade.
Dentro da Rússia, a consequência é fila. O oblast de Leningrado passou a racionar combustível nos postos até 1º de outubro, e o governo prepara a prorrogação do veto à exportação de diesel até 31 de outubro. A proibição, ampliada em julho para todos os produtores, venceria em 30 de setembro.
Dias antes do ataque em Moscou, uma operação conjunta dos serviços ucranianos atingiu a refinaria de Yaroslavl, de Rosneft e Gazprom Neft, que processa 300 mil barris por dia a menos de 200 milhas a nordeste da capital russa.
Por que o preço americano sobe se os EUA não compram petróleo russo
O embargo americano ao petróleo russo está em vigor desde 2022, e mesmo assim o galão aqui subiu. A explicação é o mercado mundial de derivados.
"Quando o diesel fica escasso no resto do mundo, os preços sobem e as empresas americanas passam a exportar mais derivados", disse à PolitiFact Kenneth Gillingham, economista da Universidade Yale. As refinarias dos Estados Unidos já operam a 97% ou 98% da capacidade, então cada galão que embarca para fora é um galão a menos na bomba daqui.
Quanto dessa alta vem da Rússia e quanto vem da guerra com o Irã é objeto de estimativa, não de dado oficial. O analista Patrick De Haan, da GasBuddy, atribui de 60% a 65% da alta recente aos ataques ucranianos às instalações russas.
Trump pediu publicamente, em 13 de setembro, que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky pare de atacar as refinarias, e responsabilizou esses ataques pelo recorde do diesel.
Do lado russo, o prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, classificou a onda de drones sobre a cidade como um ataque sem precedentes, planejado, segundo ele, para atrapalhar as eleições.
O que observar nos próximos dias
Para quem dirige veículo a diesel para trabalhar, a variável a acompanhar é se o veto russo à exportação será mesmo prorrogado no fim de setembro e se a Ucrânia mantém o ritmo de ataques. Cada refinaria que sai do ar aperta um mercado que já está sem folga, e a bomba americana responde com atraso de poucos dias.
A Ucrânia não comentou o ataque de domingo, e a refinaria atingida em Moscou não teve o operador identificado pelas fontes consultadas.
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