O Federal Reserve de Nova York divulgou em 11 de agosto o balanço da dívida das famílias americanas no segundo trimestre de 2026. O total caiu levemente — US$ 13 bilhões, ou 0,1% —, para US$ 18,8 trilhões. Dentro desse número, porém, uma linha andou na direção oposta: o saldo do cartão de crédito subiu US$ 21 bilhões, alta de 1,7%, e chegou a US$ 1,26 trilhão. Fica perto do pico de US$ 1,28 trilhão registrado no ano passado.
Para o brasileiro que construiu vida financeira nos Estados Unidos, o cartão costuma ser a primeira porta do crédito — o instrumento que forma o credit score e que, mais tarde, abre financiamento de carro e de casa. Por isso o retrato do trimestre merece leitura atenta.
O que o Fed de Nova York mediu
O levantamento acompanha hipoteca, financiamento de veículo, empréstimo estudantil e cartão a partir de uma amostra de relatórios de crédito. No segundo trimestre, 4,7% de toda a dívida em aberto estava em algum estágio de atraso.
Joelle Scally, assessora de política econômica do Fed de Nova York, resumiu o quadro: “As taxas de inadimplência na maioria dos produtos se mantiveram estáveis nos últimos dois anos. Ainda assim, as novas inadimplências em financiamento de veículo e cartão de crédito continuam em patamar elevado, uma tendência que vamos seguir monitorando.”
Onde o atraso aperta mais
Considerando as dívidas com 30 dias ou mais de atraso, o cartão de crédito lidera, com cerca de 9% do saldo em aberto, seguido pelo financiamento de veículo, perto de 8%, e pela hipoteca, em torno de 4%, segundo a leitura dos dados feita pela Fox Business.
No atraso grave — 90 dias ou mais —, os três produtos pioraram na comparação com o mesmo trimestre de 2025. O cartão foi de 6,93% para 6,97%. O financiamento de veículo subiu de 2,93% para 3,00%. A hipoteca, historicamente a mais comportada, passou de 1,29% para 1,52%.
A dívida velha que não sai do cadastro
Há um segundo indicador, menos comentado e mais revelador. Ele mede o estoque de dívida de cartão em atraso pesado, incluindo o que os bancos já deram como perda e que continua registrado no cadastro do consumidor. Esse percentual saltou de 7,6% no terceiro trimestre de 2022 para 12,8% no primeiro trimestre de 2026.
É um indicador atrasado, que reflete o passado e não o mês corrente. Mas explica uma frustração comum: a pessoa reorganizou as contas, voltou a pagar em dia e mesmo assim continua com crédito caro e limite baixo, porque a marca antiga segue no relatório.
Juro perto de 21% transforma atraso em bola de neve
A taxa média do cartão de crédito nos Estados Unidos está em quase 21% ao ano, contra cerca de 15% em 2021. A diferença muda a matemática de quem carrega saldo: o mesmo valor rolado hoje custa consideravelmente mais caro do que custava cinco anos atrás.
Na prática: um saldo de US$ 5.000 rolado por doze meses a 21% ao ano custa cerca de US$ 1.050 apenas de juros. Se o pagamento fica no valor mínimo, o principal quase não anda, e a fatura do ano seguinte começa praticamente do mesmo lugar.
O pano de fundo é uma inflação de 3,4% nos doze meses encerrados em julho de 2026 — em desaceleração, porém ainda acima do que os salários vêm repondo para boa parte das famílias.
O contraste dentro do próprio relatório ajuda a entender o momento: as famílias americanas reduziram o endividamento total em US$ 13 bilhões e, ao mesmo tempo, ampliaram em US$ 21 bilhões o saldo do cartão — a linha de crédito mais cara de todas.
Metade dos consumidores usa o cartão para o essencial
Uma pesquisa da empresa Achieve, citada pela Yahoo Finance, encontrou que 53% dos consumidores americanos carregam saldo no cartão por causa de despesas essenciais — mercado, remédio, conta de casa. Um quarto deles arrasta essa dívida há seis meses ou mais.
Dados do Bank of America apontam na mesma direção: perto de 25% dos domicílios vivem de salário em salário, sem folga entre uma remuneração e outra.
O que fazer quando a fatura aperta
A orientação prática reunida pela Yahoo Finance começa pelo passo que quase ninguém dá: ligar para a administradora do cartão antes de atrasar. Muitas oferecem redução temporária da taxa ou pausa no pagamento para quem procura a empresa com antecedência.
Os outros caminhos citados são buscar renda adicional ou reajuste salarial e avaliar a consolidação das dívidas. Para orientação a custo baixo, a reportagem indica duas entidades nacionais de aconselhamento financeiro: a National Foundation for Credit Counseling e a Financial Counseling Association of America.
Vale um alerta que a comunidade brasileira conhece de perto: empresa que promete “limpar o nome” mediante pagamento adiantado costuma cobrar caro por algo que o próprio consumidor consegue fazer sozinho. Aconselhamento de crédito sem fins lucrativos é gratuito ou barato, e o relatório de crédito pode ser consultado sem custo.
Onde confirmar
- Federal Reserve Bank of New York — relatório trimestral de dívida e crédito das famílias (11/08/2026)
- Fox Business — leitura das taxas de inadimplência por produto (11/08/2026)
- Yahoo Finance — “Credit card debt climbs to $1.26 trillion: What latest data means for consumers” (11/08/2026)
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