Austan Goolsbee, presidente do Federal Reserve de Chicago, afirmou nesta segunda-feira (21), em Londres, que trazer a inflação dos Estados Unidos de volta à meta de 2% "vai ser doloroso". A frase, dita a repórteres depois de um discurso em evento do Official Monetary and Financial Institutions Forum (OMFIF), foi registrada pela Associated Press. No texto do discurso, publicado pelo Fed de Chicago, Goolsbee escreveu que forçar a inflação de volta à meta no curto prazo "significa empurrar o emprego para baixo da meta e o produto para baixo do potencial".
É a primeira vez, desde a alta de juros de 16 de setembro, que um dirigente com voto no comitê do Fed admite em público que a estratégia inclui deixar o mercado de trabalho enfraquecer. Para quem vive de trabalho por hora e paga cartão, carro ou casa financiada, o recado define o cenário dos próximos meses.
O que Goolsbee disse
Segundo o discurso, os choques de oferta "passaram a vir com mais frequência, bater mais forte e durar mais". Ele citou como motores a alta do petróleo por causa da guerra no Irã e as tarifas de importação. Nesse ambiente, afirmou: "o único caminho de volta é o caminho difícil": subir os juros e estreitar a distância entre oferta e demanda.
Goolsbee chamou a escolha de "exatamente o trade-off doloroso entre emprego e inflação que os choques estagflacionários sempre impõem". Ele também disse que os previsores passaram mais de um ano adiando a data em que a inflação deveria atingir o pico, e que esse "não é um padrão reconfortante".
Se for demanda, a alta vem mais rápido.
Em entrevista à Reuters, Goolsbee levantou a hipótese de que a inflação esteja migrando de causas de oferta, como tarifas e energia, para causas de demanda, como gastos fortes e o investimento em data centers de inteligência artificial. "Se o fio condutor é que ela vem de demanda superaquecida, a implicação é que a resposta dos juros seja mais agressiva e mais antecipada", disse.
Ele afirmou que, nesse caso, "não há ambiguidade" sobre como o Fed precisa responder. Segundo a Reuters, Goolsbee considera a taxa de desemprego "bem perto" do pleno emprego e avalia que o mix entre oferta e demanda muda mais o ritmo das altas do que o ponto final da taxa. No discurso, ele disse estar especialmente atento à inflação de serviços e a qualquer sinal de que a construção de data centers esteja saindo da própria pista.
Divergência com o presidente do Fed.
A AP registrou o contraste com o presidente do Fed, Kevin Warsh, que disse na semana passada que o banco central não precisa prejudicar o mercado de trabalho para cumprir seus objetivos. Goolsbee, na prática, diz o oposto. Ainda segundo a AP, ele sugeriu que mais de uma alta adicional pode ser necessária ainda em 2026.
Goolsbee também rejeitou a ideia de cortar juros para baratear a dívida pública, depois de o presidente Donald Trump sugerir que a taxa deveria ficar perto de 1%. Deveria o Fed tentar reduzir os juros para diminuir o déficit ou para tornar menos custoso aumentar a dívida? "Vamos ter um pouco de cuidado com isso", disse, segundo a Reuters. A agência lembra que o déficit anual dos Estados Unidos roda perto de 6% do PIB.
O que os 18 dirigentes já projetam
O Fed elevou a taxa básica em 0,25 ponto em 16 de setembro, para a faixa de 3,75% a 4%. As projeções divulgadas naquele dia mostram a mediana da taxa no fim de 2026 em 4,1%. Dos 18 participantes, 12 projetam uma alta a mais, quatro projetam duas altas a mais e dois não veem alta adicional. Ou seja, 16 dos 18 esperam ao menos mais um aumento até dezembro.
As mesmas projeções colocam a inflação medida pelo índice PCE em 3,7% em 2026 e 2,3% em 2027, o desemprego em 4,1% nos dois anos e o crescimento do PIB em 2,3% neste ano e 2,4% no próximo. A Reuters registra que o PCE acumulava 3,7% em 12 meses até julho, contra a meta de 2%.
As próximas datas
Pelo calendário do Fed, o comitê se reúne em 27 e 28 de outubro e em 8 e 9 de dezembro. A reunião de dezembro vem com projeções novas. O relatório de emprego de setembro sai em 2 de outubro.
O mercado de trabalho que o Fed aceita esfriar
Os dados mais recentes do Departamento do Trabalho, de agosto, mostram desemprego em 4,1%, 7 milhões de desempregados e 162 mil vagas criadas no mês. Bares e restaurantes abriram 59 mil vagas, bem acima da média mensal de 12 mil do último ano. A construção somou 22 mil, a saúde 13 mil e a indústria 16 mil. O setor de informação perdeu 23 mil. O salário médio por hora ficou em US$ 37,75, alta de 3,1% em 12 meses.
Restaurante e construção são dois dos setores que mais empregam brasileiros nos Estados Unidos. Eles ainda contratam, mas Goolsbee diz que o desemprego está perto do pleno emprego e que o Fed aceita empurrá-lo para cima para conter os preços.
Efeito na remessa.
O dólar fechou nesta segunda a R$ 5,108, queda de 0,72% no dia, e acumula desvalorização de 6,94% em 2026, segundo o InfoMoney. O site cita entre os motivos o recuo dos juros dos títulos do Tesouro americano e os comentários de Goolsbee sobre inflação, além de fatores domésticos: a pesquisa BTG/Nexus com empate entre Lula (46%) e Flávio Bolsonaro (45%), o boletim Focus com IPCA de 2026 em 4,92% e a venda de 50 mil contratos de swap pelo Banco Central.
Na prática, os mesmos US$ 500 enviados ao Brasil hoje viram menos reais do que em janeiro. Quem tem remessa fixa mensal para sustentar família precisa mandar mais dólares para cobrir o mesmo valor em reais.
O que muda para quem mora aqui?
- Cartão, financiamento de carro e hipoteca com taxa variável repassam cada alta de 0,25 ponto. Contrair dívida nova antes da reunião de 28 de outubro fica mais arriscado.
- Quem trabalha por hora em restaurante, construção ou limpeza deve montar reserva de emergência enquanto a contratação segue positiva, já que o próprio Fed admite mirar um mercado de trabalho mais fraco.
- Quem manda dinheiro ao Brasil precisa acompanhar o câmbio: o real valorizou quase 7% no ano, e a remessa rende menos.
Onde confirmar?
- Federal Reserve Bank of Chicago · Texto do discurso de Austan Goolsbee em Londres (21 de setembro de 2026).
- Associated Press (via CP24) · Fighting inflation to be 'painful', top U.S. Fed official says
- Reuters (via KELO e Investing.com) · entrevistas de Goolsbee sobre demanda e sobre a dívida pública.
- Federal Reserve Board · Summary of Economic Projections de 16 de setembro e calendário de reuniões.
- Bureau of Labor Statistics · Employment Situation, agosto de 2026.
- InfoMoney · fechamento do dólar em 21 de setembro de 2026
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