A Câmara dos Representantes volta do recesso em 31 de agosto com uma conta em aberto: as duas casas do Congresso já aprovaram prorrogações do orçamento federal, mas com datas diferentes. A Câmara quer financiar as agências até 4 de dezembro. O Senado, até 11 de dezembro. Enquanto os dois textos não viram um só, o país segue caminhando para 30 de setembro, quando o dinheiro autorizado acaba.
O prazo é 30 de setembro.
O ano fiscal de 2026 termina em 30 de setembro, e o de 2027 começa em 1.º de outubro. Se nenhuma lei de verba estiver em vigor nesse dia, as agências federais entram em paralisação. Até agora, nenhum dos projetos de apropriação do ano fiscal de 2027 foi aprovado pelas duas casas, segundo levantamento da National Association of Counties (NACo), entidade que representa os condados americanos e acompanha o calendário orçamentário.
A saída de sempre é a continuing resolution, a prorrogação que mantém o gasto nos níveis do ano anterior por algumas semanas ou meses. É exatamente o que Câmara e Senado aprovaram — cada um do seu jeito.
A Câmara votou primeiro e escolheu 4 de dezembro.
Em 21 de julho, a Câmara aprovou por 220 votos a 205 a H.R. 9770, batizada de Continuing Appropriations Act, 2027. O texto estende os níveis atuais de gasto até 4 de dezembro de 2026, já dentro do novo ano fiscal. Seis democratas votaram a favor e 204 foram contra; entre os republicanos, todos apoiaram, menos um, segundo a Fox News.
O presidente do Comitê de Apropriações da Câmara, o deputado Tom Cole, republicano de Oklahoma, defendeu o formato enxuto do projeto. Segundo ele, o texto é "uma prorrogação limpa e direta", sem emendas polêmicas nem cláusulas partidárias, e tira de cena a chance de alguém usar a ameaça de paralisação como moeda de troca antes das eleições.
O Senado devolveu outra data.
Em 8 de agosto, o Senado aprovou por 90 votos a 6 a sua própria versão, que financia o governo até 11 de dezembro ou até que as leis de apropriação sejam aprovadas, o que vier primeiro. O texto mantém os valores do ano fiscal de 2026 para as 12 grandes divisões do orçamento e inclui uma série de alocações específicas, cancelamentos de verba e dispositivos programa a programa, conforme a análise da NACo.
Foi um placar folgado, construído pela presidente do Comitê de Apropriações do Senado, a republicana Susan Collins, do Maine, e pela vice-presidente do colegiado, a democrata Patty Murray, de Washington. Collins destacou que a proposta passou sem "poison pills" — o jargão do Capitólio para cláusulas indigestas enfiadas em texto orçamentário.
A cláusula que pode travar o acordo
A diferença entre 4 e 11 de dezembro não é o único ponto de atrito. O texto do Senado adia até 11 de dezembro a entrada em vigor de uma regra proposta pelo Escritório de Administração e Orçamento (OMB) que reescreve a Uniform Guidance, a norma que rege como todo repasse federal pode ser administrado.
Para os condados, o adiamento é uma vitória: eles temem perder previsibilidade na gestão do dinheiro federal que chega a programas locais. Democratas argumentam que a regra abriria caminho para cancelar repasses e querem barrá-la em definitivo, e não apenas adiar. Do outro lado, a mesma cláusula pode custar votos republicanos quando o assunto chegar ao plenário da Câmara, apontou a CBS News.
O que a prorrogação mantém de pé
O texto aprovado pela Câmara lista os programas que seguem funcionando no formato atual enquanto a prorrogação durar. Entre eles estão o SNAP, o vale-alimentação usado por famílias de baixa renda; o WIC, voltado a gestantes e crianças pequenas; e o TANF, de assistência temporária a famílias necessitadas.
A lista inclui ainda o programa nacional de seguro contra enchente, o combate a incêndios florestais, o fundo federal de desastres e as linhas de apoio a pequenos negócios. São justamente as áreas que costumam aparecer no noticiário quando uma paralisação começa.
Dois shutdowns em doze meses.
A memória recente pesa sobre a negociação. O país atravessou duas paralisações recordes nos últimos doze meses, segundo a CBS News. A do ano fiscal atual se arrastou de 1º de outubro a 12 de novembro de 2025, informou a Fox News.
O presidente da Câmara, Mike Johnson, republicano da Louisiana, usou esse histórico para justificar a antecipação da votação em julho. "Eles já demonstraram que não se importam com o tipo de dor que infligem ao povo americano", disse Johnson a repórteres, ao acusar os democratas de terem provocado as duas paralisações mais longas da história do Congresso atual.
Por que a briga foi empurrada para dezembro?
As duas datas em disputa têm algo em comum: ficam depois das eleições de meio de mandato de novembro. Com a disputa pelo controle da Câmara e do Senado no horizonte, os dois lados preferem adiar o embate orçamentário, e o apetite por um novo fechamento de governo aparece baixo em ambos os partidos, avaliou a CBS News.
O que acontece a partir de 31 de agosto?
A Câmara retoma os trabalhos em 31 de agosto e terá poucas semanas até o fim do ano fiscal. O caminho mais curto é votar o texto do Senado como veio — o que, segundo a CBS News, poderia atrair votos democratas suficientes para aprová-lo, mesmo com resistência dentro da própria bancada republicana. A alternativa é abrir uma nova rodada de negociação com o relógio correndo.
Para quem depende de programas federais no dia a dia, o calendário vale ser acompanhado: a decisão sobre 4 ou 11 de dezembro define apenas quando a próxima rodada de tensão orçamentária volta à mesa. O que está em jogo em setembro é evitar que ela comece antes.
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