O memorando de entendimento que sustentava a trégua entre Estados Unidos e Irã venceu na segunda-feira, 17 de agosto, sem acordo de paz e sem prorrogação. O texto, assinado em junho pelos presidentes Donald Trump e Masoud Pezeshkian, dava 60 dias para uma negociação ampla sobre o programa nuclear iraniano e o alívio de sanções. Os dois governos passaram esse período se acusando mutuamente de descumprir o combinado. O Estreito de Ormuz — rota por onde passava cerca de um quinto do petróleo e do gás do mundo antes dos ataques americanos e israelenses de 28 de fevereiro — segue praticamente fechado.
A conta chegou rápido ao bolso de quem mora nos Estados Unidos. O barril do petróleo Brent subiu 2,7% na segunda-feira, a US$ 90,87, e as bolsas americanas fecharam em queda de 0,3% a 0,5%, segundo a CBS News. Combustível e alimentos mais caros vêm corroendo o apoio da opinião pública americana à guerra, registra o jornal The National.
O que dizia o acordo de junho?
O memorando tinha 14 pontos, de acordo com a Al Jazeera. Prévia de cessar-fogo em todas as frentes, inclusive no Líbano, e retirada do bloqueio naval americano em até 30 dias. O Irã se comprometia a limpar as minas do Estreito de Ormuz e a liberar a passagem de navios sem cobrança durante 60 dias.
Do lado americano, o texto previa suspensão de sanções, licenças para exportação de petróleo iraniano e um pacote de reconstrução de US$ 300 bilhões. Teerã reafirmava não buscar armas nucleares e aceitava negociar limites para o enriquecimento de urânio. Nada disso saiu do papel.
Onde a negociação travou.
A Al Jazeera identifica quatro brechas no próprio texto. O artigo 5, que trata da rota de navegação no estreito, não resolveu a divergência entre o traçado defendido por Washington e Omã e o caminho preferido por Teerã, mais colado à costa iraniana. O artigo 1, sobre o cessar-fogo, não menciona Israel: o Irã passou a exigir o fim dos ataques israelenses no Líbano, e Israel discordou.
O artigo 6, dos US$ 300 bilhões de reconstrução, não dizia de onde sairia o dinheiro nem como poderia ser gasto. E o trecho sobre sanções nunca esclareceu se a suspensão valia só para as medidas americanas ou também para as impostas pela ONU.
Joey Hood, ex-diretor interino do escritório de Assuntos Iranianos do Departamento de Estado americano, disse à Al Jazeera que o acordo “estava fadado a fracassar” porque “foi muito mal redigido e deu ao Irã a chance de interpretá-lo como se lhe desse soberania sobre o Estreito de Ormuz”.
O porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baghaei, atribuiu o fracasso ao outro lado: “por causa da violação grosseira e generalizada do memorando pelos Estados Unidos poucas semanas depois de assinado, nenhuma negociação foi iniciada”.
O estreito virou o centro da disputa.
O controle da passagem concentra hoje o conflito. Trump afirmou que “muito em breve” declararia o Estreito de Ormuz “território dos Estados Unidos” e disse não haver “ninguém com quem negociar” quando o prazo venceu, segundo o The National. O vice-chanceler iraniano Kazem Gharibabadi respondeu na rede X que o estreito “era do Irã, é do Irã e continuará sendo do Irã”.
Em entrevista à Fox News no dia 17, Trump ameaçou atacar Omã caso o país interfira na reabertura da rota e minimizou o risco de uma escalada: “nós lidaríamos com eles muito facilmente”, disse, conforme a CBS News. Omã tem atuado como intermediário nas conversas sobre a gestão do estreito.
O tráfego marítimo mostra o tamanho do estrangulamento. As travessias caíram de 19 no dia 11 de agosto para 3 no dia 16, informou a CBS News. Antes da guerra, passavam por ali cerca de 130 navios por dia.
Quase seis meses de guerra.
O conflito começou em 28 de fevereiro, com ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel a alvos militares, governamentais e de infraestrutura no Irã. Em 25 de junho, poucos dias depois da assinatura do memorando, a embarcação Ever Lovely foi atingida perto da costa de Omã. Em 27 de junho, os Estados Unidos bombardearam instalações costeiras iranianas em retaliação. Em 7 de julho, Trump declarou que o acordo estava encerrado.
No Líbano, ao menos 3 mil pessoas morreram e mais de 1 milhão foram deslocadas desde o início de março, segundo a Al Jazeera. Em 17 de julho, o Irã acusou os Estados Unidos de atingir infraestrutura civil no sul do país; pelo menos 50 pessoas morreram desde a retomada dos ataques.
Os números militares também subiram. O Pentágono autorizou um contrato de US$ 22,9 bilhões para mísseis Tomahawk, e a Marinha americana desviou 64 embarcações, inutilizou 3 e abordou 2, de acordo com a CBS News.
O que pode vir agora?
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, sinalizou que medidas econômicas inéditas contra o Irã seriam anunciadas na semana seguinte ao fim do prazo, informou o The National. Trump afirmou não ter cronograma para encerrar o conflito.
Nenhum dos dois lados pediu a prorrogação prevista no próprio memorando, que exigia consentimento mútuo. O Irã sustenta que o acordo nunca chegou a entrar em vigor — por isso, diz Teerã, não havia o que prorrogar.
Por que isso importa para quem mora nos Estados Unidos?
Petróleo mais caro leva algumas semanas para aparecer no posto de gasolina e depois se espalha pelo frete, pelo preço do alimento no mercado e pela passagem aérea. Para a família brasileira que já dirige longas distâncias em Denver ou em Seattle e ainda manda dinheiro ao Brasil todo mês, cada centavo a mais no galão sai do mesmo orçamento.
O preço médio do combustível por estado é público e atualizado diariamente, o que permite comparar postos e planejar o abastecimento antes de a alta se consolidar na bomba.
Onde confirmar?
- Al Jazeera — “US-Iran Memorandum of Understanding expires: How and why it fell apart” (17/08/2026)
- CBS News — cobertura ao vivo do fim do prazo e da situação no Estreito de Ormuz (17/08/2026).
- The National — “Stalemate on the strait as deadline for US-Iran agreement expires” (16/08/2026)
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