Cuba passou a segunda-feira (6) inteira no escuro. A rede elétrica nacional entrou em colapso total por volta do meio-dia, deixando os quase 10 milhões de habitantes da ilha sem energia — o terceiro apagão nacional em seis meses e o oitavo desde o fim de 2024, segundo a Al Jazeera e a CBS News. A estatal Unión Eléctrica anunciou a “desconexão total do sistema elétrico nacional” e disse que a causa está sob investigação.
A recuperação é lenta e desigual. Na tarde de segunda, a empresa atendia apenas 1% da demanda de Havana, priorizando hospitais e centros de produção de alimentos; na madrugada de terça, pouco mais de 30% da capital tinha luz de volta, incluindo 43 centros médicos e 9 pontos de distribuição de água. Cirurgias foram adiadas em todo o país. Antes mesmo do colapso, os cortes programados já passavam de 30 horas seguidas em Havana — e de 70 horas no interior. “Meu bairro normalmente recebe três ou quatro horas de luz por dia”, contou uma moradora de 51 anos à CBS.
O bloqueio de combustível por trás do colapso
A infraestrutura elétrica cubana se deteriora há décadas — usinas quebram mais rápido do que podem ser consertadas, e peças de reposição se tornaram quase impossíveis de obter. Mas o fator novo de 2026 é geopolítico: em janeiro, o governo Trump cortou os embarques de petróleo da Venezuela para Cuba e ameaçou tarifas contra qualquer país que forneça combustível à ilha. Desde então, apenas um navio-tanque russo foi autorizado a atracar.
“A falta de combustível sem dúvida complica o processo de restabelecimento”, admitiu o diretor de eletricidade Lázaro Guerra. O presidente Miguel Díaz-Canel classificou o trabalho dos eletricitários “em meio a um bloqueio energético genocida” como heroico; o ministro de Energia falou em serviços vitais protegidos “em meio a esta situação complexa agravada pelo bloqueio energético”. A ONU já havia alertado para uma emergência humanitária na ilha, com impacto em hospitais, água e alimentos.
Por que isso chega à vida do brasileiro nos EUA
A crise cubana não fica em Cuba. Três conexões práticas com a comunidade:
- Pressão migratória: colapsos humanitários a 145 km da Flórida historicamente produzem ondas de migração para o sul dos EUA — e cada onda mexe com todo o debate migratório que afeta os brasileiros, das políticas de parole à fila do asilo.
- Vizinhos de comunidade: cubanos e brasileiros dividem os mesmos bairros, igrejas e empregos em Miami, Orlando e Tampa; as campanhas de ajuda que se organizam nessas cidades passam pelas mesmas redes comunitárias.
- O precedente: o uso de bloqueio de combustível e ameaças tarifárias como instrumento de pressão na América Latina é a mesma lógica de coerção econômica que hoje ronda a relação Washington-Brasília — do tarifaço à designação de facções como terroristas. O caso cubano mostra o instrumento em uso máximo.
Sem novos carregamentos de combustível à vista, as autoridades cubanas admitem que os cortes prolongados continuarão, e não há prazo para a normalização do sistema. Para a ilha, a conta é diária; para a região, o transbordamento — humano e político — é questão de tempo.
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