O endereço mais infame de Aurora vai mudar de história. Os apartamentos Edge at Lowry — projetados às manchetes globais em 2024, quando o então candidato Donald Trump afirmou que uma gangue venezuelana havia “tomado” os prédios — foram comprados em junho por US$ 4,45 milhões pelo East Colfax Community Collective (EC3), grupo comunitário que vai transformá-los em moradia acessível para famílias de baixa renda.
A compra tem desenho incomum: foi feita por meio do Mixed-Income Neighborhood Trust do coletivo, modelo de propriedade comunitária que, segundo o grupo, coloca os inquilinos no comando e tira o motivo de lucro do imóvel. O financiamento veio de empréstimos e doações — US$ 2,1 milhões do Impact Development Fund, US$ 1 milhão do Colorado Trust, US$ 500 mil da Denver Foundation e aportes de outros parceiros.
O plano: reforma total e aluguel restrito
O complexo de 60 unidades em cinco prédios de tijolo vermelho está vazio há mais de um ano, desde que a prefeitura de Aurora o fechou por condições inabitáveis. O plano de reforma, orçado em US$ 10 a 12 milhões, prevê “descascar até a estrutura”: manter os prédios e refazer todas as unidades por dentro. As moradias serão destinadas a quem ganha entre 30% e 60% da renda mediana da área — a faixa de muitos trabalhadores imigrantes da região.
O cronograma depende de uma peça: neste verão, o EC3 pede créditos fiscais estaduais que elevariam o investimento total a US$ 23 milhões. Se aprovados, as obras começam no verão de 2027 e a entrega fica para 2028. “É uma oportunidade muito poderosa de retomar e reviver uma propriedade que por muito tempo foi um ativo tóxico”, disse Carson Bryant, diretor do EC3, ao Sentinel Colorado.
Do palco da campanha à propriedade comunitária
O simbolismo da operação não passa despercebido em Aurora. As alegações de “tomada” pelo Tren de Aragua — feitas originalmente pela antiga proprietária, a CBZ Management, e amplificadas na campanha presidencial de 2024 — nunca foram comprovadas, mas colaram na cidade uma narrativa que associou imigrantes venezuelanos à criminalidade e alimentou o debate nacional. Em fevereiro deste ano, a prefeitura fechou acordo judicial com a CBZ, encerrando a disputa sobre as condições do imóvel.
Agora, o mesmo endereço passa às mãos de um coletivo que conhece os prédios por dentro: o EC3 se envolveu na crise de 2024 ajudando a realocar os antigos inquilinos — em grande parte famílias imigrantes — para novas moradias. Até o prefeito Mike Coffman, que esteve no centro da crise, aprovou: a compra pelo coletivo é o “melhor desfecho que poderíamos ter esperado”, disse ao Sentinel.
O que interessa a quem procura moradia
Para o leitor no corredor de East Colfax e Aurora — onde o aluguel é a maior despesa da família imigrante —, os números que importam: 60 unidades reformadas, aluguel restrito por faixa de renda, gestão sem fim lucrativo e entrega prevista para 2028, condicionada aos créditos fiscais. É oferta nova num dos trechos mais acessíveis (e pressionados) do metrô de Denver.
O marco a acompanhar é a decisão estadual sobre os créditos fiscais ao longo do verão — ela define se o projeto de US$ 23 milhões sai do papel no prazo. O Brazuca acompanha, inclusive para avisar quando (e como) as futuras vagas de moradia abrirem inscrição.
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