Seattle relançou nesta semana a meta de zerar mortes e feridos graves no trânsito até 2030, com uma ordem executiva da prefeita Katie Wilson e um pacote de projetos de lei na Câmara Municipal. O esforço chega onze anos depois da cidade adotar o programa Vision Zero — e com o número de mortes subindo, não caindo.
Em 2025, 30 pessoas morreram e 221 ficaram gravemente feridas em colisões nas ruas da cidade. A maioria das mortes foi de pedestres atropelados por motoristas.
O que a prefeita assinou
Wilson assinou em 21 de agosto a Ordem Executiva 2026-05, que manda o departamento de transportes da cidade acelerar intervenções nos corredores com mais colisões, ampliar as câmeras automáticas de fiscalização de tráfego, apressar as obras de Vision Zero já previstas e avançar com melhorias para pedestres e com a liberação de visibilidade nas esquinas em toda a cidade.
As ruas que concentram as mortes
O foco é a chamada High Injury Network, a malha de vias onde as colisões graves se concentram. Entre elas estão a Aurora Avenue North, a Rainier Avenue South e a Martin Luther King Jr. Way South. Na lista das cinco mais perigosas apontadas pela prefeitura, também aparecem a Fourth Avenue South e a Lake City Way Northeast.
O padrão não é aleatório. Segundo Gordon Padelford, da Seattle Streets Alliance, 80% das mortes de pedestres acontecem em arteriais de múltiplas faixas — exatamente o tipo de via que corta os bairros de maior população imigrante ao sul da cidade.
O pacote na Câmara Municipal
O vereador Rob Saka, que preside o comitê de transportes, apresentou em 19 de agosto o chamado SAFER Streets Act — sigla para seguro, responsável, flexível, equitativo e responsivo. São três projetos de lei complementares.
O conjunto pretende transformar em lei os compromissos do Vision Zero, hoje apoiados em política administrativa; encurtar a tramitação entre o departamento de transportes e o de construções e inspeções; e dar ao engenheiro de segurança viária da cidade mais autonomia para mudar uma rua rapidamente depois de um acidente fatal. O pacote também mira o poder de compra da prefeitura para exigir caminhões municipais mais seguros e a liberação de visibilidade nas esquinas. O comitê recebeu a primeira apresentação do texto em 20 de agosto.
O que já apareceu no asfalto
Parte da resposta já está pintada no chão. A cidade instalou marcação de ciclofaixa protegida na Southwest Wildwood Place, perto do terminal de balsas de Fauntleroy, no ponto em que a ciclista Maridee Bonadea foi atropelada e morta em junho de 2026. Outro projeto de segurança para pedestres está previsto no cruzamento da 13th Avenue South com a South Lucile Street, junto à Cleveland High School.
Quem cobra e por quê?
A pressão vem de fora da prefeitura. Rita Hulsman, moradora de West Seattle, cujo marido, Steve, foi atropelado e morto, foi uma das vozes que sustentaram a apresentação do pacote. Também se manifestaram Lee Lambert, diretor-executivo do Cascade Bicycle Club, e Monty Anderson, secretário-executivo do Seattle Building Trades Council, que representa trabalhadores da construção.
Clara Cantor, da Seattle Streets Alliance, chamou as intervenções rápidas de solução de mão tripla e disse esperar ver mais delas em bairros de toda a cidade.
Por que isso pesa para quem chegou há pouco?
Boa parte da comunidade brasileira em Seattle mora e trabalha justamente ao longo dessas artérias — Rainier, MLK, Aurora —, onde ficam moradias mais baratas, comércios de bairro e pontos de ônibus usados por quem não dirige. Quem entrega comida, dirige por aplicativo ou pega ônibus à noite atravessa essas vias todos os dias. Ampliar câmera de velocidade e mudar geometria de esquina muda o risco de quem anda a pé — e também o risco de multa para quem trabalha ao volante.
Onze anos de meta e a conta que não fecha.
Seattle adotou o Vision Zero em 2015, com a promessa de eliminar mortes e feridos graves no trânsito até 2030. Onze anos depois, as mortes continuam subindo, e é esse descompasso que os dois movimentos desta semana tentam responder — um pelo lado administrativo, com a ordem executiva, outro pelo legislativo, com os projetos de lei.
A liberação de visibilidade nas esquinas, uma das medidas citadas na ordem, consiste em proibir estacionamento junto ao cruzamento para que motorista e pedestre se enxerguem antes da faixa. É barata e rápida de aplicar, e por isso aparece como prioridade tanto no texto da prefeita quanto no pacote da Câmara.
O que vem a seguir
A ordem executiva já está valendo e depende agora do ritmo do departamento de transportes. Os três projetos de lei precisam passar pelo comitê de transportes e pelo plenário da Câmara Municipal antes de virar norma. A meta de 2030 continua de pé no papel, com pouco mais de três anos e meio pela frente.
Onde confirmar?
KUOW, 28 de agosto de 2026; blog oficial da Câmara Municipal de Seattle, 19 de agosto de 2026; KOMO News, 21 de agosto de 2026.
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