Lula desembarcou em Nova York neste domingo (20) para o debate geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Na terça-feira (22), ele faz o discurso de abertura entre os chefes de Estado, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fala logo em seguida. Não há reunião bilateral marcada entre os dois.
A ordem dos discursos não é acaso nem cortesia do momento: por tradição diplomática que se repete há décadas, o Brasil abre o debate geral, e o país-sede fala na sequência. O que muda este ano é o contexto em que os dois sobem ao palco, com a relação entre Brasília e Washington tensionada e a eleição presidencial brasileira logo adiante.
Antes de embarcar, Lula afirmou que pretende puxar um "bate-papo" com Trump para pedir que os Estados Unidos não se metam na eleição do Brasil. "Não se meta nas eleições no Brasil" foi o resumo que ele deu do recado, em declaração publicada pela CNN Brasil.
Agenda curta, sem reunião oficial com Trump
A viagem é rápida. A chegada foi no domingo, as reuniões bilaterais estão concentradas na segunda-feira (21), e na terça o presidente encontra o secretário-geral da ONU, António Guterres, antes de discursar. A volta ao Brasil está prevista para o mesmo dia.
Sobre um eventual encontro com Trump, o Itamaraty não informou expectativa de reunião formal. No Planalto, a hipótese que se trabalha é a de um contato informal de bastidor, do tipo que acontece quando dois presidentes discursam em sequência e circulam pelos mesmos corredores.
Na segunda-feira entra na agenda um encontro com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, que pediu a reunião. A Agência Brasil registrou que o Itamaraty confirmou o pedido do prefeito; a CNN Brasil já tratou o encontro como agendado, na residência do Brasil junto à ONU. A delegação brasileira inclui o chanceler Mauro Vieira e os ministros Esther Dweck, Eloy Terena e Rachel Barros de Oliveira.
No discurso, a expectativa é de um texto ancorado em soberania nacional, multilateralismo e não intervenção em assuntos internos, além de reforma do Conselho de Segurança, crime organizado transnacional, COP30, regulação de plataformas digitais e inteligência artificial, e segurança alimentar.
O atrito que chega junto com a viagem
A cinco dias do discurso, o governo americano abriu uma frente nova de desgaste. Em relatório anual enviado ao Congresso dos Estados Unidos em 15 de setembro, Trump afirmou que o governo brasileiro não conseguiu enfrentar o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, e que essas facções transformaram o país em centro dos fluxos globais de cocaína.
O peso da acusação vem de uma decisão anterior: em maio, os Estados Unidos designaram os dois grupos como organizações terroristas estrangeiras, com efeito a partir de 5 de junho. A designação amplia o alcance das sanções americanas sobre pessoas e empresas apontadas como ligadas às facções.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública rejeitou a avaliação. Citou a Lei Antifacção, de março deste ano, o programa Brasil Contra o Crime Organizado, lançado em maio, e as operações federais em curso. Lembrou também que segue aguardando resposta americana às propostas entregues por Lula em 7 de maio, em Washington, sobre lavagem de dinheiro, troca de inteligência e tráfico de armas.
Na leitura da equipe diplomática brasileira, a acusação sobre crime organizado é uma fórmula que traz embutidos outros interesses.
Por que isso interessa a quem mora nos Estados Unidos
Para o brasileiro que vive aqui, a temperatura dessa relação não é assunto de noticiário distante. Ela aparece no preço do produto brasileiro que chega ao mercado, no tratamento dado a quem viaja entre os dois países e no ritmo de assuntos consulares que dependem de entendimento entre os governos.
Soma-se a isso o calendário eleitoral brasileiro, que mobiliza a comunidade no exterior e faz do tom adotado em Nova York um indicador do que vem pela frente na campanha.
A 81ª sessão da Assembleia Geral começou em 8 de setembro e vai até setembro de 2027, sob o tema "Restaurando a confiança, administrando a transformação: uma ONU que entrega para todos", com presidência de Khalilur Rahman, de Bangladesh.
O horário exato do discurso de Lula na terça ainda não estava disponível em material oficial acessível até a publicação desta matéria. A transmissão da Assembleia é aberta pela própria ONU.
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