O Itamaraty orientou embaixadas e consulados brasileiros a segurar a emissão de passaportes no exterior. A razão é de caixa: a procura pelo documento superou a previsão orçamentária de 2026 para a compra do material usado na produção das cadernetas.
Na prática, os postos com maior concentração de brasileiros passam a oferecer menos vagas de agendamento e prazos mais longos. Quem quer renovar o passaporte por precaução, sem viagem marcada, é o primeiro a sentir.
A ordem que saiu para os consulados
A orientação do Ministério das Relações Exteriores foi reduzir os atendimentos considerados não urgentes e preservar o estoque de cadernetas enquanto o ministério busca recursos adicionais. Casos emergenciais seguem com prioridade: viagem urgente comprovada e situações de natureza humanitária continuam sendo atendidas.
O ministério não fixou um teto público de emissões por posto nem divulgou data para normalizar o atendimento. A instrução vale para toda a rede consular no exterior, e não apenas para os Estados Unidos.
A conta que não fechou
O aperto veio depois de uma decisão que barateou o documento. Em 4 de maio, o Itamaraty anunciou que as taxas cobradas por consulados e embaixadas para a emissão de passaporte cairiam pela metade a partir de 1º de junho de 2026. O ministério justificou a medida como forma de tornar o serviço mais acessível, com atenção especial às famílias binacionais que têm filhos nascidos fora do Brasil, e de aproximar o preço cobrado no exterior do que se paga em território nacional, onde o passaporte custa de R$ 257,25 a R$ 514,50.
A procura respondeu. O orçamento do material não acompanhou.
Os números da corrida pelo documento
A série de emissões no exterior mostra o tamanho do salto. Em 2024, foram 195.658 passaportes emitidos fora do Brasil. Em 2025, 274.429 documentos, alta de 40% sobre o ano anterior. Só no primeiro semestre de 2026, foram 188.928 emissões, 26% acima do mesmo período de 2025.
Julho foi o ponto fora da curva: mais de 33 mil pedidos em um único mês, o maior volume mensal já registrado pela rede consular brasileira. O primeiro semestre de 2026 sozinho já se aproxima do total de todo o ano de 2024.
O que mudou no balcão desde 30 de julho
Junto com a restrição, mudou também a forma de entrega. Desde 30 de julho de 2026, os passaportes passaram a ser produzidos diretamente pela Casa da Moeda do Brasil. O documento deixou de ser entregue no ato do atendimento consular, como acontecia antes.
Depois de produzido, o passaporte é enviado ao requerente pelo serviço postal ou fica disponível para retirada no consulado, conforme o sistema adotado por cada posto. O Consulado-Geral do Brasil em Miami foi um dos que adotaram o novo procedimento a partir daquela data.
A ida ao consulado deixou de resolver tudo em um dia. Quem mora longe do posto precisa contar com uma etapa a mais no calendário.
Quem continua na frente da fila
A prioridade declarada é para emergências com comprovação: viagem urgente documentada e casos humanitários. Renovação preventiva, passaporte de criança que ainda tem validade e segunda via por conveniência entram na categoria que o ministério mandou espaçar.
Não há, até agora, critério público detalhado do que cada consulado considera urgência comprovada. A avaliação fica com o posto.
Por que isso pesa para quem vive fora
O passaporte brasileiro é o documento que sustenta boa parte da vida burocrática de quem mora no exterior, do registro do filho nascido fora do país aos serviços que exigem identificação emitida pelo país de origem. Foi exatamente esse público que o Itamaraty citou ao cortar as taxas em maio, quando falou em manter a documentação das famílias binacionais em dia.
Quatro meses depois, o mesmo público encontra menos vaga na agenda. A política que barateou o documento é a que agora limita o acesso a ele.
O que fazer agora
Com a restrição em vigor, antecipar o pedido virou a estratégia mais segura. Quem tem passaporte vencendo nos próximos meses ganha ao entrar na fila antes de precisar viajar, porque a vaga tende a ficar mais escassa nos postos de maior demanda.
No atendimento, vale confirmar qual é a forma de entrega disponível naquele consulado, já que a retirada presencial e o envio postal variam de posto para posto. E guardar o comprovante do agendamento: ele é o registro da data em que o pedido entrou.
O que ainda não está resolvido
O ministério informou que busca recursos adicionais para a compra das cadernetas, sem indicar prazo. Enquanto o dinheiro não aparece, a restrição permanece, e não há estimativa oficial de quanto o tempo de espera vai aumentar em cada posto.
A demanda não deu sinal de recuo: julho, o mês recorde, veio depois da redução de taxas, e o segundo semestre ainda não teve números divulgados. Entre a instrução, revelada no fim de julho, e o começo de setembro, já se passou mais de um mês de restrição sem anúncio de reforço orçamentário.
Também não foi divulgada a lista dos postos mais afetados. Quem depende de um consulado específico só descobre o tamanho da fila ao tentar marcar o atendimento.
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