O ICE prendeu 49.571 pessoas em julho, o maior número mensal desde outubro de 2022 e o recorde do segundo mandato de Donald Trump. A média passou de 1.500 prisões por dia.
Os dados são da própria agência e chegaram ao público pelo Deportation Data Project, projeto sediado na Universidade da Califórnia em Berkeley e na UCLA, que obteve os registros por meio de uma ação judicial baseada na lei de acesso à informação. É a mesma base que vem permitindo acompanhar mês a mês o ritmo da operação de deportação.
O tamanho do salto
O total de julho representa alta de 15% sobre junho, quando o ICE registrou 43.021 prisões, e de 70% sobre fevereiro, quando foram 29.241. Em dezembro de 2025, o número tinha sido 40.177. No mês anterior à posse de Trump, a agência prendia cerca de 8 mil pessoas.
A curva não subiu em linha reta. Houve recuo depois de episódios em Minnesota, em janeiro, que provocaram protestos e reação de parlamentares democratas. O patamar de julho mostra que a queda foi temporária.
Mais da metade não tinha ficha criminal
Entre os presos em julho, 51% não tinham histórico criminal — proporção recorde, segundo levantamento do jornal britânico The Guardian sobre os mesmos dados, citado pela agência UPI.
Para a comunidade brasileira, o número tem leitura direta: não ter antecedentes deixou de ser, na prática, um fator que reduz a exposição.
As deportações também bateram recorde
Julho não foi recorde apenas em prisões. O número de pessoas retiradas dos Estados Unidos chegou a quase 34 mil no mês, também o maior desde o início do segundo mandato.
Os números já incluem as primeiras prisões feitas depois de a Suprema Corte permitir ao governo encerrar o Status de Proteção Temporária de imigrantes haitianos, no mês anterior.
Onde as prisões estão acontecendo
Texas e Flórida sozinhos responderam por quase 20 mil das prisões de julho, segundo o PBS NewsHour. Somados a Geórgia e Califórnia, os quatro estados concentraram mais da metade do total do mês.
Mudou também o tipo de lugar. "O que estamos vendo é uma expansão em todas as formas pelas quais o ICE detém pessoas", disse Graeme Blair, codiretor do Deportation Data Project, à NPR. "Eles estão prendendo em aeroportos, em check-ins do ICE, em fóruns de imigração, e este é o resultado disso."
A lista importa porque descreve situações em que a pessoa vai por conta própria: o comparecimento periódico exigido pela própria agência, a audiência marcada na corte de imigração, o embarque num voo doméstico. São compromissos de rotina para quem tem processo em andamento.
Do palco para o cotidiano
O governo mudou o formato da operação ao longo do ano. Saiu das ações de grande visibilidade em cidades grandes, que geraram protestos e desgaste público, e passou a fazer abordagens espalhadas, de menor repercussão — sem que o volume caísse. Ao contrário: julho é o pico da série.
Essa diferença explica por que a percepção da comunidade nem sempre acompanha os números. Quando a prisão deixa de ser uma operação com dezenas de agentes e vira uma abordagem de trânsito, o caso não vira notícia local, mas entra na mesma estatística.
O programa que transforma polícia local em agente federal
Texas, Flórida e Geórgia participam do programa 287(g), que permite a policiais estaduais e municipais executar parte do trabalho do ICE em campo, sob supervisão federal. É uma das explicações para a concentração das prisões nesses estados.
A Califórnia, ao lado de Nova York, Maine e Vermont, proíbe acordos 287(g) — e ainda assim aparece entre os quatro estados com mais prisões, o que indica atuação direta de agentes federais.
Dinheiro novo e gente nova dentro da agência
O Congresso aprovou um reforço de US$ 70 bilhões para o Departamento de Segurança Interna, incluindo o ICE. Com esse orçamento, a agência passou a contratar 12 mil novos agentes de deportação e investigadores, segundo o PBS NewsHour.
Markwayne Mullin assumiu o Departamento de Segurança Interna em março, no lugar de Kristi Noem, e disse que cumpriria as metas de deportação do governo sem manchetes constantes.
Uma operação mais silenciosa
A mudança de método aparece no relato de quem atende imigrantes. "A forma como as pessoas estão sendo detidas é bem menos espalhafatosa, mas continuamos vendo prisões", disse Melissa Shepard, diretora de serviços jurídicos da organização ImmDef, ao The Guardian. "É só em escala mais silenciosa: em vez de 10, 12 agentes fazendo uma prisão, você tem um punhado de agentes parando alguém no trânsito."
Foi essa troca — de operações de grande visibilidade em cidades grandes por abordagens dispersas — que permitiu ao número subir sem o mesmo ruído público do início do ano.
O que vem a seguir
Os dados do Deportation Data Project saem com algumas semanas de defasagem, e o retrato de agosto ainda não existe. O que já está posto é o patamar: com orçamento ampliado, 12 mil agentes a mais em contratação e a cooperação de polícias estaduais em três dos quatro estados que mais prendem, o ritmo de julho tem estrutura para se manter.
Comentários
Faça login para comentar
EntrarSeja o primeiro a comentar!