Um ataque russo com drones contra um depósito de munição no vilarejo de Myla, no distrito de Bucha, região de Kyiv, matou 38 pessoas. O número foi confirmado pelo presidente Volodymyr Zelensky no domingo, 30 de agosto. Outras 20 pessoas ficaram feridas, entre elas duas crianças, e quatro seguiam desaparecidas.
O ataque ocorreu na noite de sexta-feira, 28. O drone atingiu o armazém de munições e provocou uma sequência de explosões secundárias que se espalhou por uma área residencial vizinha. Foi o ataque mais letal do ano na Ucrânia.
O que sobrou no vilarejo
As detonações forçaram a retirada de emergência de 381 moradores, incluindo 59 crianças, e danificaram cerca de 50 prédios residenciais. Entre os mortos está Taras Didych, líder da comunidade vizinha de Dmytrivka, que estava no local com as equipes de socorro.
Dias depois, a área continuava perigosa. Zelensky afirmou que o grau de contaminação no local é significativo e que equipes de artificiais do Serviço Estatal de Emergência trabalhavam sem parar para localizar e neutralizar explosivos que não detonaram e ficaram espalhados pelo terreno.
A investigação mira o próprio lado ucraniano.
O caso abriu uma crise interna. O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) e a Polícia Nacional abriram investigação criminal sobre o armazenamento irregular de munição militar tão perto de casas. Zelensky cobrou responsabilização de quem decidiu instalar o depósito ali.
O primeiro-ministro Serhii Koretskyi classificou a situação como "negligência criminosa" e lembrou que já houve uma detonação catastrófica semelhante em Vyshneve, em outro momento da guerra, sem que a lição fosse aprendida. É o segundo depósito de munições atingido nos arredores de Kyiv em dois meses.
A distinção que a investigação tenta estabelecer é direta: o drone veio da Rússia, mas a decisão de guardar toneladas de munição a poucos metros de casas habitadas foi tomada do lado ucraniano. É essa segunda parte que está sob apuração criminal, e ela explica por que um ataque externo virou também uma crise de responsabilidade interna em Kyiv.
A escalada aérea da última semana
O ataque a Myla não foi um episódio isolado. Segundo Zelensky, ao longo de uma semana as forças russas lançaram cerca de 2 mil drones de ataque, mais de 1.600 bombas aéreas guiadas e 31 mísseis contra o território ucraniano, incluindo balísticos fornecidos pela Coreia do Norte.
A intensidade se concentrou nos últimos dias. Em uma janela de quatro dias, foram lançados quase 1.500 drones, cerca de 800 deles do modelo Shahed com propulsão a jato. Só entre a noite de sábado e a madrugada de domingo, 30, a Ucrânia registrou 130 drones de tipos variados e dois mísseis balísticos Iskander-M.
Comunidades da linha de frente e de fronteira, como Nikopol, Kramatorsk, Kherson e localidades das regiões de Kharkiv e Sumy, enfrentam bombardeio quase constante. Zelensky descreveu a interceptação dos drones de longo alcance como a tarefa mais difícil das forças ucranianas hoje e voltou a pedir reforço na defesa antiaérea.
Moscou ameaça a rede de energia antes do inverno.
O Ministério da Defesa da Rússia anunciou que começou a preparar ataques massivos contra a infraestrutura de energia da Ucrânia, em resposta ao que Moscou descreve como ofensivas ucranianas contra instalações de petróleo e gás.
O calendário importa. Ataques a usinas e subestações no início do inverno já foram usados nos anos anteriores para deixar cidades sem aquecimento e sem eletricidade em temperaturas negativas. A ameaça vem depois de a Ucrânia atingir, na madrugada de domingo, 30, a refinaria de petróleo de Kirishi, na região de Leningrado, e um aeródromo militar em Yeysk.
O ataque e a mesa de negociação
A escalada acontece enquanto Kyiv prepara conversas com representantes do presidente americano Donald Trump. Zelensky afirmou que a tática atual da Rússia é desgastar a Ucrânia e, acima de tudo, desgastar os ucranianos, e disse que o país faz o possível para que a guerra não seja a única opção disponível. Moscou mantém exigências territoriais e políticas que o governo ucraniano trata como capitulação.
Por que acompanhar daqui?
A guerra na Ucrânia continua no centro da política externa americana e do debate sobre gastos de defesa no Congresso, os mesmos projetos de gastos que voltam à pauta em Washington nos próximos meses. Ataques em série contra refinarias e infraestrutura de energia dos dois lados também mantêm o mercado global de combustíveis sob pressão, item que aparece direto na conta de quem abastece o carro nos Estados Unidos.
Para a comunidade brasileira, o acompanhamento é o de sempre em pauta internacional: entender o que está em jogo antes que o assunto chegue aqui em forma de preço, de voto ou de decisão do governo americano.
Onde confirmar?
- Kyiv Post, "Death Toll in Myla Ammunition Depot Blast Reaches 38" (30/08/2026): kyivpost.com/post/83376
- Al Jazeera, "Death toll from Russian strike on Ukrainian arms depot rises to 38" (30/08/2026): aljazeera.com/news/2026/8/30/death-toll-from-russian-strike-on-ukrainian-arms-depot-rises-to-38
- Euronews, "Russia threatens mass strikes on Ukraine energy sites as Kyiv depot death toll hits 38" (30/08/2026): euronews.com/my-europe/2026/08/30/russia-threatens-mass-strikes-on-ukraine-energy-sites-as-kyiv-depot-death-toll-hits-38
Comentários
Faça login para comentar
EntrarSeja o primeiro a comentar!