Os Estados Unidos retiraram a Síria da lista de países patrocinadores do terrorismo em 24 de agosto. A designação vigorava desde 1979 e era o último grande entrave formal à entrada de dinheiro estrangeiro no país.
A medida entrou em vigor ao fim de um prazo de 45 dias de revisão do Congresso, aberto quando o presidente Donald Trump notificou formalmente os parlamentares, em 8 de julho, sobre a intenção de revogar a classificação.
O que a designação travava
Estar na lista impunha limites em quatro frentes: assistência externa americana, exportação de material de defesa, venda de itens de uso dual — aqueles com aplicação civil e militar — e transações financeiras.
O efeito mais pesado estava no controle de exportação. A Síria era classificada no chamado Country Group E das regras americanas, faixa reservada aos controles antiterrorismo mais rígidos: mesmo produtos com apenas 10% de conteúdo americano precisavam de licença para chegar ao país. A designação também retirava do Estado sírio a imunidade prevista na lei americana de imunidades soberanas, o que o expunha a processos em tribunais dos EUA.
O que muda para investimento e comércio?
Com a retirada, abre-se caminho para investimento estrangeiro, atividade comercial, venda de equipamento de defesa e reconexão do país ao sistema financeiro global.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse que a medida “vai ajudar a fomentar investimento adicional na Síria para promover estabilidade política e econômica”. A conta da reconstrução é alta: o Banco Mundial estimou, em outubro de 2025, que a Síria precisa de US$ 216 bilhões para se reerguer.
O que disse o governo americano?
O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que a decisão foi tomada “em reconhecimento às ações positivas e aos compromissos assumidos pelo governo sírio” sob o presidente Ahmed al-Sharaa para afastar o país de atos de terrorismo internacional. Rubio classificou o gesto como “mais um passo histórico do presidente Trump para dar ao povo sírio um caminho para a prosperidade”.
Tom Barrack, enviado especial da presidência para a Síria, chamou a retirada de “mais um passo decisivo na jornada notável da Síria, do isolamento à parceria”.
Como a Síria chegou até aqui?
A retirada fecha um ciclo de pouco mais de um ano. Em 30 de junho de 2025, Trump assinou a ordem executiva 14312, que revogou ordens anteriores de sanção à Síria e tirou 518 pessoas das listas de restrição. Em 8 de julho do mesmo ano, o Hay’at Tahrir al-Sham (HTS) saiu da lista de organizações terroristas estrangeiras.
Em 10 de novembro de 2025, al-Sharaa esteve na Casa Branca — a primeira visita de um chefe de Estado sírio desde a independência do país, em 1946. Semanas depois, em 18 de dezembro, o Congresso revogou o Caesar Act dentro da lei de orçamento da Defesa para 2026, encerrando o regime de sanções obrigatórias criado em 2019 contra o governo de Bashar al-Assad.
A trajetória de Ahmed al-Sharaa
Al-Sharaa comanda a Síria desde a queda de Assad, derrubado em dezembro de 2024. Ele próprio já foi classificado como terrorista pelos Estados Unidos antes de liderar a ofensiva que encerrou o regime, e só saiu dessa lista em novembro de 2025.
Ao comentar a decisão americana, al-Sharaa a chamou de histórica e disse que o país está “arrancando uma página de seu passado doloroso, para se lançar ao campo do desenvolvimento, da reconstrução e da construção”.
O grupo HTS também sai da outra lista.
Junto com a retirada da Síria, o Departamento de Estado revogou a designação do HTS como terrorista global especialmente designado — classificação distinta da lista de organizações terroristas estrangeiras, da qual o grupo já havia saído em 2025. O grupo político e paramilitar foi liderado por al-Sharaa e teve papel central na ofensiva contra Assad.
O que ainda falta e o que o Congresso vigia.
A saída da lista não normaliza o comércio de imediato. O Departamento de Comércio precisa alterar suas próprias regras para que a Síria deixe a faixa mais restritiva de controle de exportação.
A revogação do Caesar Act veio com um mecanismo de acompanhamento: pelos próximos quatro anos, o presidente tem de reportar ao Congresso a cada 180 dias, certificando que o governo sírio age contra o Estado Islâmico e outros grupos terroristas, afasta combatentes estrangeiros do governo, respeita direitos de minorias, não ataca vizinhos sem provocação, cumpre acordos com as Forças Democráticas Sírias, combate lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo, processa responsáveis por violações graves de direitos humanos cometidas desde dezembro de 2024 e enfrenta a produção de drogas ilícitas, incluindo o Captagon. A lei não prevê retomada automática das sanções caso as condições não sejam cumpridas.
Quem sobra na lista americana
Com a saída da Síria, restam três países classificados por Washington como patrocinadores do terrorismo: Cuba, Irã e Coreia do Norte.
A decisão teve apoio dos dois partidos. Em carta enviada em julho, os senadores Jeanne Shaheen, democrata de New Hampshire, e Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, e o deputado Joe Wilson, republicano da Carolina do Sul, pediram a retirada da designação.
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