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EUA deportam menino brasileiro para o Haiti com os pais haitianos, e voos semanais devem levar mais crianças do Brasil

O garoto, nascido em 2021, desembarcou em Cabo Haitiano em 27 de agosto em um voo com 57 deportados. Com o fim do TPS para haitianos, as remoções passaram de mensais a semanais e o perfil dos deportados mudou para famílias.

Redação Brazuca News 10 de September de 2026, 21:16 1 visualizações
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EUA deportam menino brasileiro para o Haiti com os pais haitianos, e voos semanais devem levar mais crianças do Brasil
Foto: Jasinto Shabani / Pexels License

Os Estados Unidos deportaram para o Haiti um menino brasileiro nascido em 2021, junto com os pais haitianos, em 27 de agosto. A informação foi dada à Folha de S. Paulo pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) e confirmada por Nathalye Cotrino, pesquisadora sênior da Human Rights Watch, que acompanhou a chegada do voo, com 57 deportados, na cidade de Cabo Haitiano.

O caso expõe uma engrenagem que tende a produzir mais casos como esse: com o fim da proteção humanitária concedida a haitianos nos EUA, famílias que passaram anos no Brasil antes de seguir para a América do Norte estão sendo removidas com seus filhos brasileiros a bordo.

Como a família chegou ao avião?

A família vivia em Nova York e era beneficiária do TPS, a proteção temporária que permitia a haitianos morar e trabalhar legalmente nos Estados Unidos. Ela é formada pelos pais haitianos, pelo menino brasileiro, por um irmão mais novo nascido nos EUA e por um irmão mais velho nascido no Haiti.

Quando perderam o benefício no fim de julho, após a Suprema Corte validar a decisão do governo Donald Trump de encerrar o programa, tentaram emigrar para o Canadá para pedir asilo. Foram detidos e devolvidos aos Estados Unidos, passaram à custódia do ICE, o serviço de imigração, e acabaram deportados para o Haiti.

Havia mais crianças no mesmo voo.

Segundo a Folha, outras três crianças que não nasceram no Haiti estavam naquele avião: o irmão americano do menino, outra criança nascida nos EUA e uma menina nascida no Brasil em 2015. No caso dessa menina, a família não é contabilizada como deportada porque o pai, haitiano, aceitou o chamado retorno voluntário oferecido pelo ICE, no qual o imigrante recebe a promessa de uma ajuda financeira de US$ 2.600. Ele afirmou à Cotrino, logo após o desembarque, que nunca recebeu o dinheiro.

Essa família procurou a Embaixada do Brasil em Porto Príncipe para pedir ajuda. O Brasil informou a documentação necessária para obter vistos de reunião familiar e assim seguir para o território brasileiro. O trâmite estava em andamento.

Os voos passaram de mensais a semanais.

O fim do TPS mudou a escala e o perfil das remoções. Washington encerrou a proteção que permitia a 330 mil haitianos viverem no país, número informado pela Folha — a NBC News fala em cerca de 350 mil pessoas atingidas.

Antes da decisão judicial, o governo operava voos mensais de deportação para o Haiti, a maioria com pessoas que respondiam a acusações criminais. Agora os voos passaram a ser semanais. Depois da liberação, mais de 160 pessoas foram deportadas para Cabo Haitiano em agosto, no primeiro voo após o fim do programa, conforme a NBC News e o serviço jurídico JURIST. Jean Négot Bonheur Delva, diretor do escritório nacional de migração do Haiti, disse que as autoridades esperam voos semanais com cerca de 250 pessoas. Os deportados receberam até US$ 65 e itens básicos na chegada.

Para onde essas pessoas estão sendo mandadas?

O Departamento de Estado americano mantém o Haiti na classificação de "não viaje". Gangues armadas controlam cerca de 70% da região da capital, segundo a NBC News, e a Folha registra estimativas de 80% a 90% de domínio armado em Porto Príncipe. Mais de 1,4 milhão de pessoas estão fora de casa por causa da violência, e a insegurança alimentar atinge 5,8 milhões, em um país de cerca de 12 milhões de habitantes.

Entre janeiro e junho de 2026, mais de 3.100 pessoas foram mortas, de acordo com o JURIST. Mortes causadas por gangues correspondem a uma média de 30% a 50% de todos os assassinatos do país, segundo estimativas da ONU citadas pela Folha. Há ainda o que vem sendo descrito como uma epidemia de violência sexual, com estupros coletivos praticados por membros de gangues, sobretudo contra adolescentes de 12 a 17 anos. A missão internacional que tenta apoiar a polícia local recebeu 1.100 dos 5.550 agentes autorizados.

Por que tantas famílias haitianas têm filhos brasileiros?

A resposta está em uma rota migratória de quinze anos. Desde pelo menos 2010, o Brasil recebeu milhares de haitianos por um programa de acolhida humanitária criado após o terremoto de janeiro daquele ano e mantido diante da crise social no Caribe. Por volta de 2015, milhares dessas famílias deixaram o Brasil rumo aos Estados Unidos, já com filhos nascidos em território brasileiro, buscando o dólar para sustentar os parentes que ficaram no Haiti.

O resultado é uma geração de crianças com cidadania brasileira dentro de famílias haitianas nos EUA. Não é a primeira vez que elas acabam em um voo para Porto Príncipe: dezenas de casos ocorreram em 2021, e casos isolados seguiram nos anos seguintes.

O ponto cego consular

O ICE costuma enviar ao país de destino a lista com nomes e nacionalidades dos deportados pouco antes do voo. Para a Human Rights Watch, isso deixa o consulado brasileiro sabendo tarde demais que há uma criança do Brasil a bordo.

Cotrino defende que serviços consulares de países como o Brasil criem um canal direto com o setor de migrações haitiano, para serem avisados com antecedência sobre as crianças que vão chegar. A embaixada brasileira em Porto Príncipe já forneceu, em casos anteriores, vistos de reunião familiar para que pais haitianos pudessem emigrar ao Brasil com filhos brasileiros deportados.

A escolha que as famílias enfrentam

As autoridades americanas costumam oferecer às famílias a opção de serem enviadas juntas ao país de origem dos pais. Para não serem separadas, é comum que aceitem — e é assim que crianças com passaporte de outro país entram na conta.

Organizações que acompanham a chegada dos voos afirmam que o Haiti não tem estrutura para absorver quem chega. "Não há medidas do governo para assistir adequadamente esses migrantes", registrou uma dessas entidades à NBC News, que também apontou o risco de separação familiar e de rompimento de vínculos comunitários.

Onde confirmar?

  • Folha de S.Paulo — "Estados Unidos deportam criança brasileira para o Haiti", reportagem de Mayara Paixão, de Nova York, publicada em 9 de setembro de 2026 e atualizada em 10 de setembro.
  • NBC News — chegada do primeiro grupo de deportados ao Haiti após o fim do TPS, com a previsão de voos semanais.
  • JURIST — registro da deportação de mais de 160 pessoas ao Haiti depois da decisão da Suprema Corte, com dados de deslocados e mortes no primeiro semestre de 2026.

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