Um estudo divulgado nesta segunda-feira pelo Great Cities Institute, da Universidade de Illinois em Chicago, tentou responder a uma pergunta que a comunidade imigrante conhece pela prática, mas que raramente vira número: quanto custa o medo. A resposta que os pesquisadores chegaram para o condado de Cook, onde fica Chicago, é US$ 1,26 bilhão em vendas que simplesmente não aconteceram no varejo e nos restaurantes.
O trabalho se chama Hunkering Down — algo como “se encolhendo” ou se entrincheirando — e o título é a tese. Quando a fiscalização migratória se intensificou, a partir do começo de 2025, as pessoas não pararam de existir: pararam de sair.
Como os pesquisadores mediram
Em vez de pesquisa de opinião, os autores usaram dados anônimos de localização de celular para medir circulação de pé e cruzaram isso com registros de gasto do Censo para converter a queda de movimento em dólares. O método permite comparar o antes e o depois nos mesmos lugares.
O resultado: as visitas a lojas caíram cerca de 9% e as visitas a restaurantes cerca de 10%. “Vemos uma queda de 9% no varejo e de 10% nas visitas a restaurantes, e isso persistiu por cerca de um ano”, disse Matt Wilson, diretor associado sênior do Great Cities Institute e um dos autores. Não houve recuperação completa no período estudado.
Somadas, são cerca de 25 milhões de idas a menos para comprar e comer fora, feitas por moradores de bairros com alta proporção de gente nascida na América Latina. Para o estado de Illinois, a conta apareceu como US$ 107 milhões a menos de arrecadação.
Quem mais perdeu não foi o bairro latino.
Aqui está o dado que mais interessa a quem tem negócio. O tombo maior, e mais duradouro, não foi nos bairros tradicionalmente mexicanos de Chicago, como Little Village e Brighton Park. Foi no comércio de fora deles — especialmente em áreas suburbanas com pouca população nascida na América Latina.
A lógica é direta: quem tem medo de ser abordado longe de casa encurta o raio da própria vida. Continua comprando o essencial perto e deixa de fazer a viagem até o shopping, a loja de departamento, o restaurante do outro lado da cidade. O prejuízo, portanto, cai no colo de comerciantes que muitas vezes nem sabem que dependiam desse cliente.
Isso vale para o brasileiro que tem restaurante, salão, loja de material de construção ou serviço de limpeza, tanto quanto vale para o comerciante americano da esquina: o efeito atravessa quem é imigrante e quem não é.
O número não é só de Chicago.
A reportagem da NPR sobre o estudo cita medições parecidas em outras cidades. Em Minneapolis, o cálculo aponta cerca de US$ 700 milhões de dano econômico, com US$ 81 milhões de receita perdida por pequenos negócios só em janeiro. Um levantamento da Brookings Institution estima queda de 1,7 ponto percentual no consumo agregado em estados com fiscalização mais intensa.
No comércio miúdo, a conta aparece de forma bem menos abstrata. Um mercado de bairro citado na reportagem, o La Chaparrita, relatou perda de mais da metade da clientela latina. A associação de vendedores ambulantes da cidade levantou US$ 700 mil para socorrer quem parou de trabalhar na rua.
O que o governo responde?
O Departamento de Segurança Interna (DHS) contesta a leitura. Em nota, um porta-voz rejeitou a correlação entre imigração irregular e boa economia, argumentando que, se essa relação existisse, o governo anterior teria tido uma economia em festa. O DHS afirma que a operação em Chicago, batizada de Midway Blitz, retirou da cidade “o pior do pior” entre imigrantes com ficha criminal.
A reportagem observa, no entanto, que os dados disponíveis mostram que a maioria das pessoas deportadas na região não tinha ficha criminal. E a população em detenção migratória nos EUA chegou a cerca de 65 mil pessoas, recorde.
Por que isso importa para o brasileiro nos EUA?
Porque o estudo mede exatamente o comportamento que muita gente adotou sem chamar de decisão econômica: deixar de ir ao mercado grande, cancelar o jantar fora, evitar dirigir para o outro lado da cidade. Multiplicado por uma comunidade inteira, esse recuo vira menos venda, menos turno de trabalho, menos gorjeta e menos imposto na cidade onde você vive.
É também um argumento com número na mão para quem tem negócio e precisa conversar com prefeitura, câmara municipal ou associação comercial: o custo do medo não fica contido no grupo que sente medo.
Onde confirmar?
- NPR — “New report shows the economic toll of ICE raids” (https://text.npr.org/nx-s1-5955787)
- Block Club Chicago — “Chicago-Area Businesses Lost $1.2 Billion Because Of Immigration Crackdown, Report Says” (https://blockclubchicago.org/2026/09/08/chicago-area-businesses-lost-1-2-billion-because-of-immigration-enforcement-report-says/)
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