Pelo menos 17 episódios de atuação de agentes de imigração em propriedade escolar foram documentados nos Estados Unidos em 2025 e 2026, segundo levantamento do site especializado K-12 Dive. O número não inclui os casos ocorridos nas imediações — ponto de ônibus, calçada, portão — que são mais frequentes e menos registrados.
A mudança que abriu essa porta foi administrativa. O governo retirou a proteção que classificava escolas como locais sensíveis, categoria que antes limitava operações de imigração em creches, escolas, hospitais e igrejas.
Onde aconteceu
O K-12 Dive cita operações em terreno escolar em Minneapolis, em Illinois e em Connecticut. Em Baltimore, uma prisão feita em junho dentro da área da escola, diante dos alunos, virou o caso mais citado no debate.
Em Columbus, San Antonio e Pittsburgh, houve ameaça de fechamento em massa de escolas em bairros de maioria negra e latina.
O efeito colateral aparece nos números que os distritos reportam: aumento de custo com transporte, queda na frequência dos alunos e desvio de recursos para protocolos de segurança.
O impacto na sala de aula, medido
O estudo mais citado sobre esse efeito é de Thomas Dee, da Escola de Pós-Graduação em Educação da Universidade Stanford, publicado em junho de 2025. Ele analisou a frequência diária de cinco distritos do Vale Central da Califórnia depois de uma operação federal de imigração e encontrou aumento de 22% nas faltas.
O efeito foi mais que o triplo entre alunos do jardim de infância ao quinto ano em comparação com o ensino médio. No total, a região perdeu cerca de 725 mil dias de aula.
Dee resumiu o achado: o estresse imposto a essas crianças pequenas e às famílias delas é sério, e o aumento das faltas é um indicador antecipado de dano mais amplo ao desenvolvimento.
Há um agravante financeiro. Na Califórnia e em vários outros estados, o repasse ao distrito é calculado pela frequência média diária — aluno que falta reduz o orçamento da escola inteira.
O que estados e cidades estão fazendo?
A reação vem em três formatos, conforme o levantamento do K-12 Dive.
Lei estadual. Em 5 de agosto, a governadora de Massachusetts, Maura Healey, sancionou o PROTECT Act, que proíbe prisão sem mandado judicial em escolas e centros de educação infantil.
Ordenança municipal. Em Baltimore, a vereadora Odette Ramos propôs em julho ampliar o programa Safe Passage, criado para proteger estudantes no trajeto de ida e volta da escola, para incluir as escolas onde há mais risco de ação de imigração.
Ação comunitária. Em Los Angeles, voluntários do sindicato de professores UTLA se coordenam com a organização Unión del Barrio para patrulhar e documentar veículos de agentes federais no entorno das escolas.
Treze estados e várias cidades grandes mantêm regras que limitam a colaboração da polícia local com o ICE.
O que os tribunais decidiram até agora
As escolas públicas de Fridley e de Duluth, em Minnesota, entraram na Justiça pedindo a reversão nacional da política sobre locais sensíveis. O pedido de liminar foi negado em maio de 2026.
Um caso semelhante, movido pela organização Pineros Y Campesinos Unidos Del Noreste contra a secretária de Segurança Interna, ganhou a adesão dos dois maiores sindicatos de professores do país, a National Education Association e a American Federation of Teachers.
O apoio federal ao aluno que aprende inglês encolheu.
Enquanto isso, o Departamento de Educação decidiu dissolver o escritório federal dedicado à aquisição de língua inglesa, distribuindo suas funções entre outras áreas. O escritório atendia cerca de 5 milhões de estudantes que aprendem inglês nos Estados Unidos — grupo que inclui filhos de imigrantes nascidos aqui.
A verba do Título III, que financia esse atendimento, passou para o escritório que cuida dos demais programas federais. A proposta orçamentária do governo prevê eliminar o Título III como programa separado; o Congresso rejeitou proposta semelhante no ano anterior e manteve o financiamento.
Kirsten Baesler, secretária-assistente de Educação, afirmou que a mudança reduz a burocracia e dá aos estados poder para desenhar apoios integrados. Entidades da área apontam que o escritório tinha papel central em fiscalizar o uso do dinheiro e em divulgar pesquisa, tarefa que agora fica com estados e distritos.
O que a família deve saber
Independentemente da situação migratória, toda criança tem direito à escola pública nos Estados Unidos. A escola não pode exigir documento de imigração para matricular.
Vale procurar a secretaria da escola e perguntar por escrito qual é o protocolo do distrito caso um agente federal apareça, quem na escola tem autoridade para autorizar entrada e qual contato de emergência está cadastrado para buscar a criança. Ter um segundo adulto autorizado no cadastro é a providência mais simples e mais útil.
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