Quinhentas faculdades e escolas superiores dos Estados Unidos passaram a dividir a mesma marca: pelo menos 40% dos ex-alunos que pegaram empréstimo federal não estão pagando. O número saiu da base mais recente de taxas de não pagamento por instituição, publicada pelo Departamento de Educação e analisada pela NPR nesta quarta-feira (16).
A lista importa para quem está escolhendo onde estudar, e importa em dobro para quem chegou há pouco ao país. Curso técnico de carreira curta, com promessa de emprego rápido em solda, beleza, ar-condicionado ou área da saúde, é um dos caminhos mais procurados por imigrantes que querem trocar de ocupação. É exatamente nesse grupo que estão as piores taxas.
O que o número mede?
A taxa de não pagamento indica a fatia de ex-alunos com empréstimo federal que estão com pelo menos três meses de atraso ou que já passaram de nove meses em inadimplência formal. O recorte do Departamento de Educação considera quem entrou em fase de pagamento entre janeiro de 2020 e maio de 2025, algo em torno de 17 milhões de pessoas.
Na definição técnica usada pela Federal Student Aid, o cálculo divide o número de devedores da instituição com mais de 90 dias de atraso pelo total de devedores daquela escola que entraram em pagamento desde janeiro de 2020. É uma medida mais ampla do que a inadimplência clássica, porque pega o atraso antes de ele virar default.
Quem está na lista
Das 500 instituições com taxa de 40% ou mais, apenas 15 são públicas. A maioria esmagadora, 424, é de escolas privadas com fins lucrativos. O restante são privadas sem fins lucrativos.
A diferença entre os setores é grande. Universidades públicas e privadas sem fins lucrativos têm taxa média de não pagamento em torno de 15%. Nas escolas com fins lucrativos, a média é de 33%.
As escolas com os piores números
A NPR detalhou alguns casos. A UEI College aparece com taxa de 55% entre cerca de 32 mil ex-alunos com empréstimo, e entre 79% e 85% da receita da instituição vem de verba federal. A Miller-Motte College tem cerca de 50% de não pagamento entre 37 mil devedores, com 86% da receita vinda de dinheiro público.
A Tulsa Welding School, escola de solda, tinha em maio quase 20 mil ex-alunos com empréstimo federal em fase de pagamento, e mais da metade não estava pagando. O caso mais extremo é pequeno em tamanho e grande em proporção: a Legends Barber College, no Texas, registra 81% de não pagamento entre cerca de 100 devedores.
Quando a escola fecha, a dívida fica.
O histórico recente mostra o que acontece quando o governo age. A Florida Career College teve o acesso à verba federal cortado em 2023, depois de uma investigação que apontou violação das regras de matrícula, e acabou fechando. Restaram 28 mil ex-alunos com dívida em aberto, quase 65% deles sem pagar.
Eileen Connor, que dirige o Project on Predatory Student Lending, foi direta ao comentar os dados: “Esses números são de cair o queixo”. Para ela, o modelo depende do dinheiro público. “Se o programa federal de empréstimo estudantil não existisse, essas escolas não existiriam”, afirmou.
A conta do certificado curto
Preston Cooper, pesquisador de ensino superior do American Enterprise Institute, apontou o preço como primeiro sinal de alerta. “Quando vejo uma escola de carreira cobrando US$ 20 mil por um certificado de curta duração, alguns alertas disparam na minha cabeça. Isso é mais por ano do que muitas faculdades de quatro anos estão cobrando”, disse.
Ele também questionou o critério do próprio governo. “Se um credor privado olhasse para uma escola com 40% ou 50% de atraso nos empréstimos passados, provavelmente diria: não vamos emprestar para essa escola. Por que faz sentido para o governo federal e para o contribuinte?”
O que dizem as escolas?
As instituições citadas atribuem parte do problema ao período da pandemia e ao perfil dos alunos. Darcy Schnuth, vice-presidente de financiamento estudantil da IEC International Education Corp., disse que muitos ex-alunos perderam o contato com a escola durante a pausa nos pagamentos. “Depois de dois, três, quatro anos sem muita comunicação, eles acharam que não tinham mais empréstimo”, afirmou.
Joseph Cockrell, porta-voz da UEI College, apontou obstáculos concretos do público atendido. “Transporte, creche, jornada de trabalho e dinheiro podem ser barreiras muito reais, especialmente para a população que atendemos”, disse.
A regra que pode cortar a verba federal
O Departamento de Educação já avisou que a tolerância acabou. Em comunicado de fevereiro, o subsecretário de Educação, Nicholas Kent, afirmou que “os estudantes têm a obrigação de pagar seus empréstimos, mas as instituições também dividem a responsabilidade de garantir que seus alunos estejam preparados para entrar na fase de pagamento”. Naquele levantamento, mais de 1.800 instituições tinham taxa de não pagamento igual ou superior a 25%.
A régua que corta verba é o chamado cohort default rate. Pela regra vigente, a instituição perde acesso ao programa de empréstimo direto e ao Pell Grant se ficar com 30% ou mais de inadimplência por três anos consecutivos, e perde o empréstimo direto se registrar 40% ou mais no ano mais recente. O indicador ficou suspenso durante a pausa de pagamentos da pandemia e volta a valer.
O novo teste de ganhos chega em 2028.
Há ainda uma segunda régua a caminho, criada pela lei orçamentária aprovada pelos republicanos. Programas cujos formados não ganharem mais do que quem tem apenas ensino médio perdem o acesso ao empréstimo federal. O Departamento de Educação deve calcular os ganhos do primeiro ano de formados no início de 2027, e a designação de programas de baixo retorno pode começar a valer no ano de ajuda financeira de 2028 a 2029.
Jordan Matsudaira, professor da American University e ex-economista-chefe do Departamento de Educação, vê uma brecha no desenho. Segundo ele, há programas com ganhos modestos, suficientes para passar no teste de comparação com o ensino médio, mas com dívida altíssima e alunos em dificuldade para pagar.
O que checar antes de assinar a matrícula?
Os próprios dados do governo dão o roteiro. Vale perguntar à escola qual é a taxa de não pagamento dos ex-alunos dela, já que o Departamento de Educação publica esse número por instituição. Vale comparar o custo total do certificado com a mensalidade de uma faculdade comunitária ou de quatro anos da região, porque, como apontou Cooper, o curso curto às vezes sai mais caro por ano.
E vale lembrar do caso da Florida Career College: se a escola perde a verba federal e fecha, o diploma some, mas a dívida não. Em um cenário em que 424 das 500 instituições mais problemáticas são privadas com fins lucrativos, a checagem prévia deixou de ser detalhe burocrático.
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