A Casa Branca retirou nesta quinta-feira (17) a indicação de Lance Schroyer para dirigir o ICE, o serviço de imigração e alfândega dos Estados Unidos. A retirada foi publicada em nota no site da Casa Branca, sem explicação para a decisão, segundo a ABC News e a NBC News. Com isso, a agência que conduz as deportações no país continua sem um diretor confirmado pelo Senado, situação que se arrasta desde 2017.
Quem segue no comando é David Venturella, diretor interino e ex-executivo do GEO Group, uma das maiores operadoras privadas de centros de detenção do país. Um porta-voz do ICE disse à NBC que Venturella deve continuar no cargo por enquanto.
Quem era o indicado
Schroyer é ex-fuzileiro naval e ex-policial da patrulha rodoviária de Oklahoma. Ao anunciar a indicação, em junho, o presidente Donald Trump destacou os 29 anos de carreira policial do escolhido no estado, de acordo com a ABC. Em publicação na rede Truth Social, citada pela NBC, Trump escreveu que Schroyer tinha "experiência direta em tirar imigrantes ilegais das nossas ruas".
O nome saiu da equipe do secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, ex-senador por Oklahoma. Schroyer trabalhava como assessor sênior de Mullin e, segundo a CNN, fez parte da segurança pessoal dele no Senado. Mullin o descreveu como "um bom amigo". A mesma reportagem da CNN informa que Schroyer não era a primeira opção do secretário: o nome escolhido antes dele criou atrito com integrantes da Casa Branca.
Por que a indicação travou no Senado
A indicação ficou parada na Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado, que nunca marcou a audiência de confirmação. A comissão é presidida pelo senador republicano Rand Paul, do Kentucky.
Segundo uma pessoa a par da decisão ouvida pela NBC, Paul segurou o processo porque não ficou satisfeito com as informações que recebeu da Casa Branca sobre os tiros disparados por agentes federais que mataram dois cidadãos americanos em Minnesota. A CNN apresenta um quadro um pouco diferente: diz que Paul não se opôs publicamente ao indicado, mas lembra que o senador e Mullin tiveram uma discussão acalorada durante a sabatina do próprio Mullin, no início do ano.
Havia resistência também dentro do campo do governo. De acordo com a CNN, defensores de linha dura na imigração e alguns funcionários do Departamento de Segurança Interna duvidavam da escolha, porque Schroyer não tinha experiência em fiscalização migratória nem no comando de uma estrutura grande. A ABC relata que a indicação sofreu críticas de parte da base do presidente e de democratas pelo mesmo motivo.
Quem comanda o ICE agora
Venturella assumiu interinamente depois da saída de Todd Lyons, que anunciou em abril que deixaria a agência e ficou até o fim de maio, segundo a Global News, que republicou reportagem da agência Associated Press. Lyons comandou o ICE durante boa parte da ofensiva do governo contra a imigração irregular.
O chefe interino trabalha com o ICE há mais de duas décadas, com idas e vindas, segundo a reportagem da AP. Em 2011 e 2012, supervisionou as operações de remoção da agência. Depois foi para o GEO Group, onde chegou a vice-presidente executivo de desenvolvimento corporativo. Deixou a empresa no início de 2023 e, antes de virar interino, chefiava a divisão do ICE que cuida dos contratos de detenção.
O GEO Group abriga cerca de um terço das pessoas detidas pelo ICE e opera 23 centros de detenção da agência, com 26 mil vagas, de acordo com a mesma reportagem. Democratas vêm usando o histórico de Venturella para questionar a relação entre o ICE e as empresas privadas de prisão.
O tamanho da agência sem titular
O ICE tem orçamento de mais de US$ 75 bilhões, o maior entre as agências de segurança pública do país, segundo a ABC. O Congresso, de maioria republicana, liberou os recursos para a política de deportação em massa do segundo mandato de Trump. A agência também está sob escrutínio: democratas criticam o que chamam de táticas pesadas e a contratação apressada de agentes sem a qualificação necessária, relata a ABC.
O que muda na prática para o imigrante
Nenhuma das fontes consultadas registra mudança de regra ou de procedimento ligada à retirada da indicação. O ICE continua funcionando sob o comando interino de Venturella, que ocupa o posto desde a saída de Lyons.
Quem tem caso aberto na imigração deve continuar acompanhando os prazos pelos canais oficiais e, na dúvida, procurar um advogado de imigração ou uma entidade de assistência jurídica credenciada.
O que passa a valer hoje no USCIS
No mesmo dia em que o ICE continua sem diretor, outra mudança atinge diretamente quem está no caminho do green card. A partir desta sexta-feira (18), o USCIS só aceita a edição de 18/09/26 do formulário I-485, o pedido de ajuste de status para residência permanente. As edições de 20/01/25 e de 04/09/26 serão rejeitadas se forem enviadas pelo correio ou pela internet a partir de hoje.
O USCIS informa que não há período de transição. Por isso, a agência publicou com antecedência versões de prévia do formulário e das instruções. Segundo o USCIS, a nova edição foi revisada para se alinhar à regra final de "carga pública" (public charge), que trata do uso de benefícios públicos na análise do green card.
Na prática, quem estava com o pedido pronto na edição antiga precisa refazer o preenchimento na versão nova antes de enviar, porque o formulário em edição anterior será rejeitado.
O que vem a seguir
A Casa Branca não informou por que retirou a indicação nem se já tem outro nome para o cargo. O ICE disse à NBC que vai divulgar uma nota sobre o assunto. Um novo nome também dependeria da comissão presidida por Rand Paul, a mesma em que a indicação de Schroyer ficou parada à espera de informações sobre os tiros em Minnesota.
Até lá, o comando da agência fica com Venturella, e o ICE segue sem um diretor confirmado pelo Senado, como acontece desde 2017.
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