A Amazon vai desligar em 30 de setembro o Mechanical Turk, plataforma criada em 2005 para distribuir microtarefas digitais a trabalhadores de qualquer lugar do mundo. O anúncio foi feito nesta semana, e a empresa parou de aceitar novos clientes em julho.
Em comunicado, a Amazon afirmou que avalia regularmente seus programas, ferramentas e serviços e faz ajustes com base nessas avaliações, e que decidiu fechar o AWS Mechanical Turk a partir de 30 de setembro de 2026.
O que era o Mechanical Turk?
O serviço funcionava como um mercado de tarefas pequenas. Empresas publicavam trabalhos que computador não fazia bem — rotular imagem, transcrever áudio e vídeo, responder pesquisa, classificar texto — e qualquer pessoa cadastrada podia executá-los.
O pagamento era por tarefa, tipicamente alguns centavos de dólar cada. No auge, a plataforma reuniu mais de 500 mil trabalhadores.
O nome vem de um autômato enxadrista do século 18 que fingia jogar sozinho e escondia um humano dentro do gabinete. Jeff Bezos, fundador da Amazon, batizou o serviço com o termo "inteligência artificial artificial", justamente para descrever a ideia de gente fazendo, nos bastidores, o que parecia ser trabalho de máquina.
Por que fechou?
A explicação está no próprio mercado que a plataforma ajudou a criar. Os modelos de inteligência artificial avançaram a ponto de executar boa parte das tarefas simples que antes exigiam pessoas.
Ao mesmo tempo, surgiu uma geração de empresas especializadas em rotulagem de dados — Scale AI, Mercor e Prolific entre elas — que passou a recrutar trabalhadores para treinar modelos, com processos mais organizados e pagamento melhor.
Observadores do setor apontam que a Amazon investiu cada vez menos em melhorar o Mechanical Turk enquanto essas concorrentes cresciam, e a plataforma entrou em declínio.
Quem perde renda
Krista Pawloski, que atua na defesa de trabalhadores de dados, afirmou que algumas pessoas dependem da plataforma como fonte principal de renda e estão preocupadas em encontrar alternativa, segundo o Yahoo Finance.
O perfil de quem trabalhava ali ajuda a entender a preocupação: o serviço não exigia diploma, entrevista, horário fixo nem endereço comercial. Bastava conexão e tempo. Era um caminho de renda para quem cuida de filho pequeno, para quem tem limitação de mobilidade, para quem mora longe de centro urbano e para quem acumula um segundo trabalho.
Para imigrantes, havia ainda a atração da flexibilidade de horário — encaixar tarefa entre turnos, à noite, no fim de semana.
O que fazer em quatro semanas?
Quem tem conta ativa precisa resolver três coisas antes do desligamento:
- Sacar o saldo acumulado, porque plataforma encerrada costuma complicar qualquer pedido posterior;
- Baixar o histórico de tarefas e de pagamentos, que serve de comprovação de renda e para declaração de imposto;
- Guardar registro do desempenho na plataforma, já que serviços concorrentes às vezes consideram histórico anterior no cadastro.
Renda obtida em plataforma desse tipo é tributável nos Estados Unidos e costuma ser declarada como trabalho autônomo. Encerrar a conta não apaga a obrigação de declarar o que foi recebido no ano.
O sinal maior
O fechamento do Mechanical Turk é menos sobre um produto e mais sobre um ciclo. A plataforma existia para que humanos fizessem o que a máquina não conseguia; parte relevante desse trabalho serviu justamente para treinar as máquinas que hoje fazem a tarefa.
O trabalho de rotulagem não acabou — mudou de endereço e de formato, indo para empresas especializadas que exigem mais qualificação e oferecem menos anonimato. O que desapareceu foi a porta de entrada mais informal desse mercado.
Para quem procura renda complementar online, fica o alerta de sempre: com a saída de uma plataforma grande e conhecida, aumenta a oferta de sites que prometem substituí-la. Serviço legítimo de microtarefa não cobra taxa de cadastro, não pede pagamento antecipado para liberar trabalho e não exige dados bancários antes da primeira tarefa concluída.
Um serviço que sai inteiro do mercado.
O Mechanical Turk não sai sozinho. A Amazon encerra na mesma data outros serviços da mesma família, ligados à coleta e à revisão humana de dados para treinamento de modelos.
Isso muda a natureza do anúncio: não é a aposentadoria de um produto antigo, e sim a saída da empresa de um segmento inteiro — o da infraestrutura de dados rotulados por pessoas.
Onde esse trabalho foi parar?
A demanda por dado rotulado não caiu; ao contrário. O que mudou foi a exigência. Treinar modelo avançado hoje pede anotação especializada — quem entende de direito revisando texto jurídico, quem é da saúde revisando exame, quem fala determinada língua avaliando tradução.
Esse trabalho paga melhor por hora e é intermediado por empresas que aplicam teste de seleção. A porta continua aberta, mas passou a ter tranca.
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