A Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu no domingo (6) a eleição estadual da Saxônia-Anhalt com 43,8% dos votos — mais que o dobro do que obteve em 2021 e o melhor desempenho do partido de ultradireita em qualquer eleição estadual do país. O resultado deixou a legenda a três cadeiras da maioria absoluta no parlamento regional e arrancou do chanceler Friedrich Merz, no dia seguinte, a admissão de que estava “profundamente chocado”.
Na segunda-feira (7), o candidato da AfD ao governo estadual, Ulrich Siegmund, disse que já há conversas para atrair deputados de outras bancadas — o suficiente, se der certo, para transformar a vitória em governo e derrubar pela primeira vez o “firewall” que até hoje manteve o partido fora de qualquer governo na Alemanha.
O resultado saiu de um estado do leste do país, mas o efeito foi continental: em 24 horas, a vitória rendeu reações do premiê polonês, do chanceler francês e do premiê espanhol — e abriu, dentro da própria CDU de Merz, a discussão sobre como responder a uma derrota desse tamanho.
O resultado em números
A AfD conquistou 39 das 83 cadeiras do Landtag, o parlamento estadual sediado em Magdeburgo — três a menos que as 42 necessárias para governar sozinha. A CDU, o partido de centro-direita de Merz que comandava o estado, caiu para o segundo lugar, com 17,2% dos votos.
A distância de mais de 26 pontos percentuais entre os dois dá a medida da virada: em 2021, a AfD havia ficado com menos da metade da votação que registrou agora, e era a CDU quem comandava o governo estadual.
O “firewall” posto à prova
Fundada há 13 anos, a AfD nunca participou de nenhum governo estadual ou federal alemão. A razão é o que os alemães chamam de Brandmauer, o “firewall”: a recusa combinada dos partidos tradicionais em formar coalizão com a legenda, que é classificada como extremista pelas autoridades em algumas regiões — incluindo a própria Saxônia-Anhalt, segundo a revista Fortune.
É essa barreira que está em jogo em Magdeburgo. Enquanto o cordão durou, as vitórias eleitorais da AfD se traduziram em bancadas grandes, mas nunca em governo. Com 39 cadeiras e três de distância da maioria, o partido tenta pela primeira vez converter votos em poder executivo sem depender do aval das legendas tradicionais.
O colíder nacional do partido, Tino Chrupalla, declarou à emissora ARD que “o ‘firewall’ foi definitivamente rejeitado pelos eleitores hoje”.
Merz: “sacode o partido até os alicerces”.
Merz reconheceu na segunda-feira a dimensão da derrota. “Isso sacode nosso partido até os alicerces. “Não podemos simplesmente seguir como antes”, disse o chanceler a jornalistas. Ele vinculou a resiliência das instituições alemãs à Lei Fundamental, a constituição do país, e prometeu manter o apoio do governo federal à Ucrânia — na direção oposta à da AfD, que tem posição pró-Rússia.
O premiê estadual derrotado, Sven Schulze, da CDU, resumiu o clima no partido: “Vamos ter que conviver com esse resultado”.
A caça a três deputados
Siegmund comemorou no palco na noite de domingo: “Fizemos história neste estado”. No dia seguinte, afirmou que as conversas para atrair deputados avulsos de outros partidos já estavam em andamento. Bastam três defecções para a AfD alcançar a maioria e assumir o governo estadual.
Os cenários de coalizão
Há outro caminho aritmético: uma aliança com o BSW, partido de esquerda populista que obteve 5,3% dos votos e compartilha com a AfD a posição pró-Rússia e a agenda anti-imigração, daria maioria. A alternativa para barrar a ultradireita seria costurar uma coalizão de até cinco partidos — um arranjo que a Fortune descreve como extremamente complicado e instável.
O alarme na Europa
As reações de líderes europeus vieram em cascata na segunda-feira. O premiê polonês, Donald Tusk, disse que “só idiotas ou traidores podem se alegrar com o triunfo da AfD”. O chanceler francês, Jean-Noël Barrot, classificou o programa do partido como uma “traição ao espírito europeu”. E o premiê espanhol, Pedro Sánchez, alertou que a “ameaça extremista” avança globalmente.
As três declarações vieram no mesmo dia, enquanto Berlim ainda digeria o resultado — um sinal de que os vizinhos tratam a eleição regional alemã como assunto europeu.
O que vem a seguir
O desfecho na Saxônia-Anhalt dirá se o cordão de isolamento à extrema direita alemã sobrevive — Chrupalla já o declara morto, e Merz promete não seguir “como antes”. Os caminhos possíveis estão postos: as três defecções que Siegmund persegue, a aliança com o BSW ou uma coalizão de cinco partidos para barrar a ultradireita. As próximas semanas, de negociação cadeira a cadeira em Magdeburgo, vão mostrar qual dos dois leu o resultado corretamente.
Onde confirmar?
- Al Jazeera — "Far-right AfD wins vote in Germany's Saxony-Anhalt state" (06/09/2026).
- Fortune — "Germany built a 'firewall' so the far-right could never take power again. It just failed in Saxony-Anhalt" (07/09/2026).
- France 24 — "Germany's Merz 'deeply shocked' by far-right AfD's historic electoral victory" (07/09/2026)
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