O governo brasileiro decidiu adiar o retorno do embaixador Julio Bitelli a Buenos Aires depois que o presidente argentino, Javier Milei, repetiu no fim de semana os insultos a Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao canal argentino LN+ no domingo (2), Milei voltou a chamar Lula de "ladrão" e "corrupto" e disse que ele foi solto "por uma falha administrativa, de procedimento, não por ser inocente". A decisão do Itamaraty foi noticiada pela CNN Brasil na segunda-feira (3); o retorno do embaixador estava previsto para esta semana.
A crise começou em 25 de julho, quando Milei subiu ao palanque do lançamento da pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL), em São Paulo. No palco, chamou Lula de "presidiário", o governo brasileiro de "ladrões socialistas" e disse que Flávio é quem pode "parar" Lula. Também atacou o ministro do STF Alexandre de Moraes, com um insulto traduzido pelos veículos como "lixo careca".
A resposta veio no dia seguinte: o Brasil retirou o embaixador para consultas, decisão tomada pelo chanceler Mauro Vieira após consultar Lula. Segundo o Buenos Aires Times, esse gesto de protesto nunca havia acontecido entre Brasil e Argentina — nem durante os regimes militares dos dois países. O Itamaraty também convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para ouvir o repúdio formal do governo.
Na entrevista de domingo, Milei acrescentou uma acusação sem provas, como registrou a CNN Brasil: a de que Lula teria investido US$ 1 bilhão na campanha do peronista Sergio Massa em 2023. E defendeu o próprio tom: "Agressivo é que alguém roube. É muito mais leve chamar um ladrão de ladrão do que o próprio ato de roubar", disse, segundo a Perfil Brasil.
Milei nega interferência na eleição brasileira e devolve a acusação: à Rádio Mitre, disse que Lula é quem teve "papel muito ativo na campanha de 2023" na Argentina.
Do lado brasileiro, Mauro Vieira classificou o episódio como "grave" e "sem precedentes", mas o governo descarta ruptura de relações ou corte comercial. Lula chamou a vinda de Milei de "patacoada", criticou a interferência externa na eleição e disse que manterá relações de Estado com a Argentina.
Por que importa ?
Para quem vota do exterior pelos consulados nos EUA, a campanha de outubro ganhou um elemento raro: um presidente estrangeiro no palanque de um pré-candidato, e uma crise diplomática aberta por causa disso. No plano econômico, é o pior atrito entre as duas maiores economias da América do Sul desde a redemocratização — e instabilidade entre Brasil e Argentina mexe com câmbio e Mercosul, o que alcança quem tem negócios ou remessas conectando os países. A crise não fecha fronteiras nem consulados, mas o posto de Buenos Aires segue sem embaixador brasileiro, sem data para retorno.
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