A África do Sul deportou ou repatriou mais de 53 mil imigrantes africanos em cerca de um mês. O número foi anunciado no domingo pela ministra da Justiça, Mmamoloko Kubayi.
Mais de 80% eram do Malaui. Havia também cidadãos do Zimbábue, de Moçambique, da Nigéria, de Uganda e do Quênia. As autoridades não especificaram quantos foram deportados à força e quantos foram "repatriados voluntariamente".
Só num centro temporário de imigração montado na cidade fronteiriça de Musina, mais de 20 mil pessoas foram processadas.
A parte mais grave: a fiscalização virou coisa de civil
Grupos anti-imigração passaram a fazer batidas de porta em porta, exigindo documentos dos moradores.
No município de Alexandra, repórteres da agência Reuters viram manifestantes arrombando casas e escoltando moradores até viaturas policiais — entre eles uma mulher e uma criança do Malaui. Um dos detidos afirmou ter residência legal no país.
A polícia prendeu 350 pessoas por violência pública, intimidação e "checagens de imigração não autorizadas".
"Seja qual for a motivação, fazer justiça com as próprias mãos é vigilantismo", disse o presidente Cyril Ramaphosa.
Ter documento parou de proteger
É este o alerta dos Médicos Sem Fronteiras, que documentou casos de imigrantes com documento, refugiados e solicitantes de asilo sendo alvo das batidas — mesmo que os manifestantes digam mirar apenas quem não tem papel.
A organização advertiu para "necessidades humanitárias crescentes e interrupção do atendimento de saúde".
Um malauiano de 49 anos contou que teve atendimento médico negado numa clínica depois de ser roubado por manifestantes durante uma dessas batidas.
"Existe uma percepção equivocada de que todas as pessoas em movimento são indocumentadas", disse Sabina Tadera, da rede de apoio a imigrantes e refugiados da África Austral.
Os grupos anti-imigração fixaram um "prazo" não oficial para que indocumentados deixassem o país e prometem protestos toda quinta-feira.
Mortes sob investigação
A polícia sul-africana investiga a morte de pelo menos três migrantes — dois moçambicanos e um malauiano. A Nigéria afirma que dois cidadãos seus foram mortos nos protestos; as autoridades sul-africanas negam ligação com as manifestações.
O país tem histórico sangrento nesse terreno: os ataques xenófobos de 2008 deixaram mais de 60 mortos, e os de 2019, ao menos 12.
O pano de fundo
A África do Sul convive com desemprego de 33% — e acima de 60% entre os jovens de 15 a 24 anos. É o combustível do discurso.
"Estamos dizendo que não podemos continuar tendo oportunidades de emprego tomadas por pessoas que estão ilegalmente no país", afirmou o vice-ministro do Trabalho, Jomo Sibiya.
Mas há o outro lado dessa moeda, apontado pelo pesquisador de migração Loren Landau: o trabalhador imigrante sem status é justamente o mais fácil de explorar. "Você sempre pode ameaçá-lo com deportação, ou com o não pagamento."
Os números de retorno seguem subindo. O Malaui informa mais de 38 mil cidadãos de volta. O Zimbábue, mais de 60 mil.
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