O governo do México anunciou na quinta-feira que vai deixar a via diplomática e pedir diretamente a promotores estaduais americanos e ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos a abertura de processos criminais pelas mortes de 17 mexicanos ligadas ao ICE. Pelos números do próprio governo mexicano, 14 morreram sob custódia da agência e 3 durante operações de imigração.
O México também prepara ações civis contra as empresas privadas que operam os centros de detenção.
O caso que acendeu o estopim
Em 7 de julho, um agente do ICE matou a tiros Lorenzo Salgado Araujo, mexicano de 52 anos, em Houston. Ele vivia nos Estados Unidos havia décadas e levava uma equipe de trabalho para um canteiro de obras residencial quando foi baleado. A família exige investigação completa e a divulgação das imagens.
O Departamento de Segurança Interna, que supervisiona o ICE, dá outra versão: afirma que os agentes o perseguiam porque ele estava no país sem autorização legal, e que ele foi baleado depois de desobedecer ordens e tentar atropelar um agente, que teria atirado em legítima defesa. A família contesta.
"Vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, porque não podemos ficar em silêncio", disse a presidente Claudia Sheinbaum, referindo-se a mexicanos "cujo único crime é trabalhar honestamente nos Estados Unidos". Sobre o caso de Houston, ela afirmou que a morte "não é apenas triste e lamentável, mas também parece ter sido dirigida".
O chanceler Roberto Velasco explicou a mudança de estratégia: "Vamos além da esfera diplomática e iremos diretamente aos promotores dos EUA para apresentar queixas sobre esses incidentes, pedindo que sejam investigados como matérias criminais."
O que esse pedido vale — e o que não vale
Aqui é preciso honestidade. O pedido não tem força legal: um governo estrangeiro não abre ação penal nos Estados Unidos. Quem decide acusar alguém é o promotor americano. O que o México faz é formalizar as queixas, entregá-las e transformar cada morte em um caso documentado, difícil de arquivar em silêncio.
Não é o primeiro passo. O país já vinha enviando notas diplomáticas a Washington pedindo investigação, apoiando famílias de vítimas e levando o assunto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Sheinbaum também determinou, no início do ano, que os consulados mexicanos visitassem regularmente os detidos do ICE. Agora, o governo quer acionar o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos.
E se fosse um brasileiro?
É a pergunta que a comunidade faz ao ler essa notícia. A resposta prática está na assistência consular — um direito, não um favor.
- Notificação consular. Quem é preso ou detido nos Estados Unidos tem o direito de pedir que o consulado do seu país seja avisado. Diga em voz alta que você quer falar com o consulado brasileiro. Esse pedido deve ser registrado.
- Visita e acompanhamento. O consulado pode visitar o detido, verificar as condições, fazer contato com a família no Brasil e acompanhar o caso — o que ele não faz é bancar advogado particular nem tirar ninguém da detenção.
- Em caso de morte ou ferimento grave, a família pode pedir formalmente ao consulado que cobre das autoridades americanas a investigação, o laudo e o acesso a imagens.
- Guarde o número do consulado da sua jurisdição com alguém de confiança — não só no seu celular, que pode ser apreendido.
O que o caso mexicano mostra é que a pressão organizada de um governo, com casos documentados um a um, é hoje a principal ferramenta de um país estrangeiro quando um cidadão seu morre sob custódia americana.
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