Esta frase circula em todo grupo de brasileiro recém-chegado, e ela é falsa: "sem Social Security não dá para abrir conta em banco".
Não é o que diz a lei. E acreditar nisso custa caro — quem vive só com dinheiro vivo paga taxa para descontar cheque, não constrói crédito, não consegue alugar direito e anda com o salário no bolso, virando alvo fácil.
O que a norma federal realmente diz
A regra que obriga o banco a identificar o cliente é federal e se chama Customer Identification Program. Ela exige quatro coisas de qualquer pessoa: nome, data de nascimento, endereço e um número de identificação.
E aqui está o ponto que muda tudo. A norma separa o cidadão do estrangeiro. Para quem não é americano, ela aceita um ou mais destes:
- um número de identificação de contribuinte (o ITIN, por exemplo);
- número do passaporte e país de emissão;
- número de carteira de identificação de estrangeiro;
- número e país de emissão de qualquer outro documento oficial com foto que comprove nacionalidade ou residência.
Leia de novo: número do passaporte serve. Está no texto da norma, não na boa vontade do gerente.
O órgão federal de defesa do consumidor financeiro confirma em uma linha: "Você não precisa de um número de Social Security para ter uma conta em banco ou em cooperativa de crédito."
Ainda não tem o ITIN? Também dá
A norma tem uma exceção que quase ninguém conhece: o banco pode abrir a conta para quem já pediu, mas ainda não recebeu, o número de contribuinte — desde que confirme que o pedido foi protocolado e obtenha o número depois, em prazo razoável.
Ou seja: com o formulário W-7 do ITIN já enviado, você pode iniciar a conta.
O que é o ITIN — e o que ele não é
O ITIN é um número de nove dígitos que o IRS emite para quem precisa declarar imposto mas não tem direito ao Social Security. Pode ser pedido por residentes, não residentes, cônjuges e dependentes, independentemente do status migratório. O pedido é pelo formulário W-7, entregue junto com a declaração de imposto.
O próprio IRS lista o que ele não faz, e vale saber para não criar falsa expectativa:
- não dá direito a benefícios da Previdência americana nem ao crédito EITC;
- não concede nem muda status migratório;
- não autoriza você a trabalhar legalmente;
- não serve como identidade fora do sistema fiscal federal.
Ele é uma chave fiscal — e, na prática, também a chave que abre a porta do banco.
O que levar ao balcão
- Passaporte (o documento mais forte que você tem).
- ITIN, se já tiver — ou o comprovante de que pediu.
- Comprovante de endereço: conta de luz, contrato de aluguel, correspondência oficial.
- Qualquer outro documento oficial com foto, inclusive a matrícula consular, se o banco aceitar.
E se o atendente disser não?
Acontece — e quase sempre é desinformação do funcionário, não política do banco.
- Peça para falar com o gerente e diga que você quer abrir conta como estrangeiro, com passaporte e ITIN.
- Tente outro banco. Cada instituição define o próprio programa de identificação dentro da regra federal — e o que um recusa, o outro aceita.
- Procure cooperativas de crédito (credit unions), que costumam ser mais acessíveis a quem está começando.
- Leve alguém que fale inglês, se puder. Muita recusa é mal-entendido de balcão.
O que não vale é desistir na primeira porta.
O tamanho do problema
Pela pesquisa nacional do FDIC, 4,2% dos domicílios americanos não têm conta em banco — cerca de 5,6 milhões de lares. Entre famílias negras, hispânicas e indígenas, o índice segue várias vezes maior que entre famílias brancas, mesmo tendo caído quase pela metade desde 2011.
Os dois motivos mais citados por quem não tem conta: não ter dinheiro suficiente para o saldo mínimo e não confiar em bancos.
O primeiro tem solução: existem contas sem exigência de saldo mínimo, e vale perguntar por elas. O segundo é compreensível — mas o dinheiro embaixo do colchão não rende, não protege e não constrói o histórico de crédito de que você vai precisar para alugar, financiar um carro e um dia comprar a casa.
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