A via mais usada por brasileiros qualificados para trabalhar legalmente nos EUA entrou na mira da maior operação antifraude da atual gestão. O Escritório do Inspetor-Geral (OIG) do Departamento do Trabalho anunciou nesta quarta-feira (8) uma investigação em larga escala sobre fraudes nos programas H-1B (visto de trabalho qualificado) e PERM (a certificação trabalhista que é etapa obrigatória da maioria dos green cards por emprego) — com dezenas de intimações já emitidas contra empresas e “labor brokers”, os intermediários de mão de obra.
Os esquemas descritos pelo órgão são conhecidos de quem circula no mundo dos vistos de trabalho: petições fraudulentas, “wage kickback” (o trabalhador é forçado a devolver parte do salário ao patrão ou ao broker), “benching” (ficar sem pagamento entre projetos, o que é ilegal no H-1B) e recrutamento enganoso. “Isto não é só fraude de papelada — é a exploração de trabalhadores vulneráveis, trabalho forçado, o deslocamento de trabalhadores americanos e tráfico humano abusivo”, disse o inspetor-geral Anthony P. D'Esposito, que na TV ligou parte dos esquemas a “cartéis e gangues transnacionais”.
Quem é o alvo — e quem não é
O ponto que separa esta operação do pânico: o foco declarado são empregadores e intermediários, não os trabalhadores. O OIG convida explicitamente trabalhadores estrangeiros explorados a denunciar — com possibilidade de recompensa em dinheiro por informação que ajude nos processos. Os canais são: hotline 1-800-347-3756 ou o formulário em oig.dol.gov.
Os setores citados são exatamente onde a comunidade brasileira qualificada se concentra: tecnologia (60% a 70% dos pedidos H-1B recentes), instalações médicas e consultórios, consultoria, engenharia e ensino superior. A operação integra a força-tarefa antifraude do governo e se apoia no Project Firewall, o programa de fiscalização do H-1B lançado em setembro de 2025.
O que muda para quem tem processo em andamento?
- Espere mais escrutínio e lentidão: petições H-1B e PERM tendem a passar por auditorias e checagens adicionais enquanto a investigação corre — ninguém apontou trabalhadores como alvo, mas o funil aperta para todos.
- Guarde tudo: contracheques, contratos, e-mails sobre salário e projeto. Se o seu empregador ou broker cair na malha, a documentação é o que separa a vítima do cúmplice — e sustenta eventuais proteções.
- Reconheça os sinais de exploração: pedir de volta parte do salário, semanas “no banco” sem pagamento, salário menor que o declarado na petição — tudo isso é ilegal e denunciável.
- Desconfie de quem vende vaga: agência que cobra do trabalhador para “arrumar emprego com visto” é o retrato falado do broker sob investigação.
Os próximos meses devem trazer os desdobramentos das intimações — ações civis e criminais —, e o OIG avisa que a fiscalização “vai continuar se intensificando”. Para o brasileiro de tech e saúde no caminho do green card por emprego, o resumo é o de sempre nesta era: processo limpo não tem o que temer, mas convém acompanhar os comunicados do empregador — e do advogado — mais de perto do que nunca.
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