Os Estados Unidos decidiram não renovar, na forma atual, o acordo de livre comércio que mantêm com México e Canadá, conhecido pela sigla USMCA. A decisão foi anunciada em 1º de julho pelo representante de Comércio dos EUA, embaixador Jamieson Greer, no dia da revisão obrigatória prevista no próprio tratado.
Em comunicado oficial, o escritório de Greer afirmou que "os Estados Unidos não concordaram em renovar o USMCA na sua forma atual" e que, "como resultado, o USMCA não está renovado". O texto acrescenta que o acordo "permanece em vigor até a resolução dessas questões ou até a rescisão do acordo".
Na prática, nada muda de um dia para o outro. O tratado continua valendo. O que a decisão faz é ligar um cronômetro: como os três países não chegaram a um acordo unânime de renovação, o USMCA entra em um ciclo de revisões anuais. Sem um entendimento entre eles, o acordo caminha para o fim de seu prazo em 1º de julho de 2036.
O que está em jogo
O USMCA substituiu o antigo Nafta em 1º de julho de 2020 e cobre cerca de US$ 1,6 trilhão em comércio entre os três países, segundo a rede Al Jazeera. É a espinha dorsal da economia da América do Norte: carros, autopeças, alimentos, metais, madeira e energia atravessam essas fronteiras todos os dias.
A principal queixa do presidente Donald Trump são os déficits comerciais dos EUA com os vizinhos. Em 2025, segundo a Al Jazeera, esse déficit foi de US$ 197 bilhões com o México e de US$ 48,3 bilhões com o Canadá. O escritório de Greer indicou que Washington seguirá negociando para corrigir o que considera deficiências do acordo e reduzir os déficits comerciais com os dois países. A próxima rodada de conversas bilaterais com o México está marcada para a semana de 20 de julho.
Enquanto isso, tarifas já aplicadas continuam pesando. A Al Jazeera cita cobranças de 25% sobre automóveis do Canadá e do México, 50% sobre metais e 10% sobre a madeira. Esses são exatamente os produtos que influenciam o custo de itens do dia a dia dentro dos Estados Unidos.
Reações no México e no Canadá
Do lado mexicano, o ministro da Economia, Marcelo Ebrard, adotou um tom conciliador. "Não há diferença que eu consiga identificar entre México, Estados Unidos e Canadá que seja tão grande que não possamos resolver", disse, segundo a Al Jazeera. Ele afirmou ainda que a principal preocupação nas conversas com Washington tem sido "proteger nossa indústria automotiva".
No Canadá, o ministro Dominic LeBlanc destacou a intenção de manter o diálogo. As partes, segundo ele, "concordaram sobre a importância de continuar nossas discussões e identificar formas de garantir que os marcos de comércio e investimento entre Canadá, Estados Unidos e México continuem a apoiar a prosperidade e a competitividade da América do Norte". Tanto o governo mexicano quanto o canadense defendiam a renovação do acordo, e não o caminho das revisões anuais.
Por que isso importa para brasileiros no Colorado e em Washington
Para quem vive em Denver ou em Seattle, o assunto pode soar distante, mas mexe com o custo de vida. Boa parte da comida fresca vendida nos supermercados americanos vem do México, e o estado de Washington faz fronteira com o Canadá, de onde chegam energia, madeira e produtos industriais. Quando sobem as tarifas, tende a subir também o preço final que aparece no caixa.
O setor da construção, que emprega muitos brasileiros nas duas regiões, é sensível ao custo da madeira canadense, hoje sob tarifa de 10%. Preços mais altos de material podem encarecer reformas e a construção de casas, num momento em que moradia já pesa no orçamento de famílias imigrantes.
A incerteza também afeta empregos. Fábricas de automóveis, transportadoras e empresas de logística dependem de regras estáveis para planejar contratações e investimentos. A troca de um acordo renovado por revisões anuais deixa esse ambiente mais imprevisível, e trabalhadores costumam sentir os efeitos antes dos grandes números da economia.
Vale acompanhar a rodada de negociações entre EUA e México marcada para a semana de 20 de julho, quando as partes retomam as conversas bilaterais. Até uma definição, o USMCA segue em vigor, mas sob um relógio que agora corre ano a ano, com revisões anuais até, no limite, 1º de julho de 2036.
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