Em uma janela de cerca de oito horas, no dia 24 de junho, terremotos de grande magnitude atingiram três regiões distantes do planeta — o norte da Califórnia (EUA), a costa da Venezuela e o norte do Japão. O mais destrutivo foi o da Venezuela, onde dois tremores quase simultâneos já deixaram mais de 1.400 mortos, entre eles dois brasileiros. A coincidência de horários alimentou teorias de um "alarme sísmico global" nas redes, mas os cientistas são diretos: os eventos não têm relação entre si.
Venezuela: o tremor mais forte em mais de um século
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), um terremoto de magnitude 7,2 atingiu a costa central da Venezuela, a oeste de Caracas, na noite de 24 de junho. Cerca de 40 segundos depois, um segundo tremor, de magnitude 7,5, abalou a área de Yumare. Foi o mais forte registrado no país desde 1900, e os dois abalos rasos (cerca de 10 km de profundidade) derrubaram construções em estados como La Guaira e na capital, Caracas.
O balanço subiu rápido conforme as equipes de resgate avançavam sobre os escombros. Em 27 de junho, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, informou ao menos 1.430 mortos e 3.238 feridos — número que as autoridades esperavam ver crescer. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) estimou que até 6,76 milhões de pessoas podem ter sido afetadas, incluindo até 2 milhões só em Caracas. O sistema PAGER do USGS havia classificado o evento com alerta vermelho, o nível mais alto.
Dois brasileiros entre as vítimas
O Itamaraty confirmou a morte de dois brasileiros nos terremotos: Vanessa Zacarias da Silva, de 44 anos, e Romildo Batista de Lima, de 69 anos. Em nota, o ministério expressou solidariedade ao governo e ao povo venezuelanos. O governo brasileiro organizou uma missão humanitária, e a Força Aérea Brasileira (FAB) mobilizou uma aeronave KC-390 Millennium para levar ajuda ao país vizinho.
Japão e Califórnia: tremores fortes, sem mortes
No mesmo período, um terremoto de magnitude 6,9 atingiu o litoral norte do Japão, perto de Kuji, na província de Iwate. A Agência Meteorológica do Japão não emitiu alerta de tsunami, e ao menos dez pessoas ficaram feridas.
Na Califórnia, um tremor de magnitude 5,6 (revisado de uma medição inicial de 6,0) atingiu o condado de Mendocino, no norte do estado, às 8h10 (horário do Pacífico) de 24 de junho, perto de Redwood Valley. Foi o maior terremoto naquela região rural desde 1940 — e o maior em toda a Califórnia em mais de três anos. Mais de 6 mil clientes ficaram sem energia e houve feridos, mas nenhuma morte. Milhões de pessoas sentiram o abalo.
Os três terremotos, lado a lado
- Norte da Califórnia (EUA): magnitude 5,6, profundidade rasa (~8 km), falha local; maior tremor na região desde 1940; danos leves, sem mortes.
- Costa da Venezuela: magnitudes 7,2 e 7,5 (~40 segundos de intervalo), profundidade ~10 km, na borda entre as placas do Caribe e da América do Sul; devastação histórica, mais de 1.430 mortos.
- Norte do Japão (Iwate): magnitude 6,9, profundidade intermediária no oceano, zona de subducção da Placa do Pacífico; tremores intensos, sem alerta de tsunami, ao menos dez feridos.
Por que os terremotos não estão ligados
Apesar da coincidência, os especialistas descartam qualquer conexão. William Barnhart, coordenador-assistente do programa de riscos sísmicos do USGS, observou que os três ocorreram em fronteiras de placas já conhecidas pela alta atividade, mas que a proximidade no tempo foi apenas coincidência. Martin Hudson, especialista em engenharia geotécnica da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), afirmou que nem o terremoto do Japão nem o da Califórnia estavam perto o suficiente para transferir tensão às placas sob a Venezuela.
A explicação está na tectônica. Japão e Califórnia ficam sobre o Anel de Fogo do Pacífico; a Venezuela, na fronteira entre as placas do Caribe e da América do Sul. São sistemas independentes, separados por milhares de quilômetros. Em um ano qualquer, o planeta registra dezenas de terremotos acima de magnitude 7 — ver três no mesmo dia chama a atenção, mas não indica um padrão. O único "efeito gatilho" real do dia foi interno à Venezuela: o abalo de 7,2 ajudou a romper uma falha vizinha, gerando o de 7,5 menos de um minuto depois.
O que isso significa para quem vive nos EUA
Para a comunidade brasileira nos Estados Unidos, o episódio pesa em duas frentes. Há o lado humano e diplomático, com brasileiros entre as vítimas e o Brasil enviando ajuda à Venezuela. E há um lembrete prático: boa parte dos imigrantes vive em regiões de risco sísmico, como a Califórnia e o Noroeste do Pacífico, que inclui o estado de Washington. As agências de emergência dos EUA, como USGS e FEMA, recomendam o protocolo "Drop, Cover, Hold On" — abaixe-se, proteja a cabeça e o tronco sob um móvel resistente e segure-se até o tremor passar. Manter água, lanterna e documentos à mão completa o básico da preparação.
Na Venezuela, as buscas por sobreviventes seguiam no terceiro dia, com a janela crítica de 72 horas se encerrando, e o número de mortos continuava em revisão.
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