O Centro de Previsão Climática da NOAA calcula em 69% a chance de o El Niño que se forma no Pacífico virar o mais forte já medido desde 1950. A conta está na discussão diagnóstica de 13 de agosto, o boletim oficial em que o órgão mantém o país sob "El Niño Advisory".
A frase que abre o documento não deixa margem: "El Niño está se fortalecendo, com mais de 90% de chance de um evento muito forte durante o outono e o inverno de 2026-27 no Hemisfério Norte".
O que a NOAA mediu no Pacífico
Em julho, os índices de temperatura da superfície do mar usados para medir o fenômeno marcaram +1,4 grau Celsius na região Niño-3.4, +1,7 grau na Niño-3 e +2,9 graus na Niño-1+2, mais próxima da costa sul-americana. No Pacífico equatorial leste, as anomalias já passaram de +2,0 graus.
A atmosfera acompanhou o oceano, no que os meteorologistas chamam de acoplamento: ventos de oeste em níveis baixos e de leste em níveis altos se estenderam pelo Pacífico equatorial, com chuva reforçada do centro para o leste da bacia e suprimida sobre a Indonésia. É o padrão clássico de um El Niño em consolidação.
Os 69% que valem um recorde
O número que chama atenção no boletim é o do trimestre outubro-dezembro. Para esse período, o centro estima 69% de probabilidade de um evento histórico, definido como um valor RONI de três meses igual ou superior a +2,5 graus, marca que superaria todos os El Niños do registro que começa em 1950.
A escalada é recente. Em junho, a NOAA ainda trabalhava com 63% de chance de um evento muito forte com pico até o fim do ano. Em agosto, esse patamar passou de 90%.
Os modelos: 25 de 26 no topo da escala
O panorama do Instituto Internacional de Pesquisa para Clima e Sociedade, da Universidade Columbia, publicado em 19 de agosto, chega ao mesmo lugar por outro caminho. A avaliação aponta 100% de probabilidade de condições de El Niño do trimestre agosto-outubro de 2026 até fevereiro-abril de 2027, 97% em março-maio e 78% em abril-junho de 2027.
No pico projetado, entre outubro e dezembro, 25 dos 26 modelos acompanhados colocam a região Niño-3.4 na categoria muito forte, acima de +2,0 graus. Quinze deles projetam +3,0 graus ou mais, acima da categoria de intensidade mais alta que o instituto define.
Colorado: começo cedo, meio de inverno seco
Para as montanhas do Colorado, a previsão de outono aponta precipitação acima do normal entre setembro e novembro, com chances iguais de temperatura acima ou abaixo da média. O meteorologista Alan Smith, do OpenSnow, projeta uma temporada de neve começando mais cedo do que no ano passado.
"Nesses anos de El Niño, a gente vê um sinal mais forte de começo mais cedo no outono", disse Smith. "Acho que pode ser um início mais cedo da temporada de acúmulo de neve nas montanhas."
O contraponto vem no meio da temporada: o padrão projetado traz neve acima da média nas pontas do inverno e abaixo da média em janeiro e fevereiro. Uma monção tardia ativa deve se estender por setembro, e restos de tempestades tropicais do Pacífico leste podem alcançar o estado no outono.
Noroeste: a regra que o El Niño forte costuma quebrar
No noroeste dos Estados Unidos, o manual diz que El Niño significa inverno mais quente e seco. O climatologista do Oregon, Larry O'Neill, avisa que os eventos extremos não seguem o manual. "Os muito fortes não seguem a regra de bolso", afirmou, ao classificar o fenômeno em formação como possivelmente "um dos El Niños mais fortes que já tivemos". Nesses casos, o resultado pode ser o oposto: outono e inverno mais úmidos, com mais neve nas montanhas.
A incerteza tem peso prático na região, onde a geração hidrelétrica depende do acúmulo de neve. Um levantamento do Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico calculou em US$ 28 bilhões as perdas ligadas a secas na geração hidrelétrica entre 2003 e 2020.
A seca que já vinha de antes
O fenômeno chega sobre um terreno castigado. Na temporada 2025-2026, a região registrou acúmulo de neve historicamente baixo, com derretimento de duas a cinco semanas antes do normal em várias áreas e cerca de dois meses adiantado nas Cascades do Oregon. Governadores do noroeste declararam emergência de seca.
A vice-climatologista do estado de Washington, Karin Bumbaco, acompanha o ritmo desse derretimento, que define quanta água sobra para o verão seguinte.
As datas que valem acompanhar
O próximo boletim diagnóstico do Centro de Previsão Climática está marcado para 10 de setembro, e é nele que sai a atualização das probabilidades. As previsões sazonais de inverno ganham precisão a partir de outubro, quando o pico do fenômeno se aproxima e os modelos passam a enxergar o trimestre dezembro-fevereiro com menos ruído.
Até lá, o que está consolidado é a direção: um El Niño que se fortalece e que, na conta de agosto da própria NOAA, tem mais chance de bater recorde do que de não bater.
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