Entrar
Brazuca News

A informação que conecta brasileiros e latinos nos EUA

Voltar
Economia

Fed de Minneapolis: a corrida da inteligência artificial já pesa tanto quanto a tarifa na inflação americana

Estudo do Federal Reserve de Minneapolis calcula que as tarifas somaram de 0,2 a 0,4 ponto percentual ao núcleo da inflação em julho — e que os preços de eletrônicos puxados pela demanda de IA acrescentaram outros 0,4 ponto.

Redação Brazuca News 31 de August de 2026, 11:20 2 visualizações
Compartilhar
Fed de Minneapolis: a corrida da inteligência artificial já pesa tanto quanto a tarifa na inflação americana
Foto: Brett Sayles / Pexels License

As tarifas de importação chegaram à etiqueta do consumidor americano — e, mesmo assim, respondem por menos da metade da inflação que está acima da meta. É a conclusão de um estudo publicado em 28 de agosto pelo Federal Reserve de Minneapolis, assinado por Neil Mehrotra, vice-presidente assistente e conselheiro de política econômica do banco, e por Michael E. Waugh, conselheiro monetário.

O outro motor tem nome: a corrida por memória e hardware para inteligência artificial. Segundo os cálculos dos dois pesquisadores, ela empurra o núcleo da inflação com força pelo menos igual à das tarifas.

O que o estudo mediu

Os autores usaram o índice de preços de gastos com consumo pessoal (PCE, na sigla em inglês), o termômetro que o Fed olha para perseguir sua meta de 2% ao ano. O núcleo do PCE — que exclui alimentos e energia — subiu 3,3% em 12 meses até julho. É o nível mais alto desde 2023 e, fora o período da pandemia, o maior desde o início dos anos 1990.

Dentro desse número, o componente de bens subiu 2,3%. Comparado com a média de 2015 a 2019, esse componente sozinho está acrescentando mais de 0,7 ponto percentual ao núcleo.

A tarifa demorou, mas chegou

Em abril, os mesmos autores tinham escrito que as tarifas não explicavam a inflação alta dos bens. Naquele momento, não havia relação estatística entre o quanto uma categoria de produto fora tarifada e o quanto ela tinha encarecido.

Até dezembro de 2025, essa relação continuava plana. Em julho de 2026, virou claramente positiva: os produtos mais tarifados passaram a ser justamente os que mais encareceram acima do padrão histórico. Foi o repasse que estava represado na cadeia.

Roupa e calçado, o exemplo mais visível

A categoria de vestuário e calçados saiu de uma inflação de 0,3% em 12 meses, em dezembro de 2025, para 3,5% em julho de 2026. Antes da pandemia, o item ficava perto de zero — roupa era uma das poucas coisas que quase não subiam de preço nos Estados Unidos.

Feita a conta para todas as categorias, os pesquisadores estimam que as tarifas respondem por 0,2 a 0,4 ponto percentual do núcleo do PCE em julho. O resultado bate com uma estimativa recente do Federal Reserve de St. Louis.

A categoria que quase ninguém tarifou e mesmo assim disparou

Mehrotra e Waugh deixaram de fora dessa conta um item específico: equipamentos de vídeo e de processamento de informação — computadores, celulares, monitores, consoles. A categoria praticamente não foi tarifada, e ainda assim mostra a inflação mais fora da curva de todo o núcleo.

Os preços desse grupo subiram 12,2% em 12 meses até julho. Entre 2015 e 2019, eles caíam 6,5% ao ano. A virada é grande o bastante para acrescentar sozinha outros 0,4 ponto percentual ao núcleo do PCE — o mesmo peso do teto da estimativa das tarifas. A categoria representa 2,4% do núcleo.

Por que o notebook ficou mais caro

A explicação é de demanda, não de imposto. Microsoft, Google, Meta e Amazon disputam os mesmos chips e o mesmo hardware para montar seus sistemas de inteligência artificial, e essa disputa aperta a oferta que sobra para o resto do mercado.

O efeito já apareceu na loja. A Apple aumentou os preços de MacBooks e iPads entre 15% e 25% em junho, e Lenovo, Dell e HP aplicaram reajustes parecidos, segundo a Forbes. Quem precisa trocar o computador do filho para a volta às aulas está pagando essa conta.

Sem tarifa, a inflação ainda estaria alta

O ponto mais duro do estudo é uma conta simples. Se as tarifas desaparecessem hoje, o núcleo do PCE ainda ficaria cerca de 1 ponto percentual acima da meta de 2% do Fed.

Parte da piora da inflação no primeiro semestre de 2026 veio mesmo do repasse atrasado das tarifas, mas retirar as tarifas da equação não resolveria o problema. A pressão de preços tem mais de uma fonte, e uma delas é o investimento em inteligência artificial.

O que ainda está na fila

Categorias pesadamente tarifadas ainda não subiram. Veículos novos, por exemplo, seguem sem alta relevante — e novas tarifas sobre autopeças já foram anunciadas. Uma pesquisa do Federal Reserve de Nova York com empresas mostra que elas planejam repassar mais aumentos ligados a tarifas.

Isso indica que a parcela tarifária da inflação tende a crescer, não a encolher, nos próximos meses.

O que isso muda para quem vive nos Estados Unidos

Para o consumidor, a distinção entre as duas fontes de inflação importa por um motivo prático: elas têm prazos diferentes. O repasse tarifário depende de decisão política e pode ser revertido. Já a pressão vinda da construção de data centers depende do ciclo de investimento das grandes empresas de tecnologia, que não muda por canetada.

Com o núcleo em 3,3% e o Fed com a próxima reunião marcada para meados de setembro, os dois vetores explicam por que a discussão dentro do banco central deixou de ser sobre quando cortar juros e passou a ser sobre a possibilidade de subir.

Comentários

Faça login para comentar

Entrar

Seja o primeiro a comentar!