O governo americano liberou a importação de até 300 mil toneladas métricas de carne moída sem tarifa por 90 dias, com o objetivo declarado de derrubar o preço na gôndola. Os importadores se comprometeram a vender o produto 25% abaixo do preço de mercado atual.
O anúncio veio de Donald Trump, que afirmou ter fechado um acordo para reduzir substancialmente o preço da carne moída para as famílias trabalhadoras americanas e disse ter o compromisso de que a carne será vendida 25% abaixo do mercado.
Quanto à carne, subiu.
Os números explicam a pressão. A carne moída chegou a uma média de US$ 6,89 a libra em julho de 2026, segundo a CBS News — alta de 9% em doze meses e de 57% em cinco anos. O bife subiu 9,6% no mesmo período de um ano.
A causa está do lado da oferta. Os Estados Unidos tinham 28,5 milhões de vacas de corte em julho, o menor número já registrado para o mês. A Fox Business descreve o rebanho como o menor em 75 anos.
Anos de seca, custo alto de ração e liquidação de rebanho reduziram o plantel, e recompor gado é lento: entre a decisão de segurar uma novilha e a carne chegando ao açougue, passam-se anos.
De onde vem a carne?
Trump não especificou os países fornecedores, dizendo apenas que são alguns e que forneceriam carne da mais alta qualidade, conforme a Fox Business.
Não é a primeira medida do tipo neste ano. Em fevereiro, o governo assinou ordem ampliando em 80 mil toneladas métricas a importação vinda da Argentina, registra a CBS News.
A reação dos pecuaristas
A resposta do setor foi imediata e dura.
Colin Woodall, presidente-executivo da National Cattlemen's Beef Association, disse que o melhor a fazer é ficar fora do negócio deles e afirmou que o presidente perdeu o fio da meada, porque a questão é de demanda.
Justin Tupper, presidente da U.S. Cattlemen's Association resumiu a crítica: não se coloca a América em primeiro lugar colocando os produtores de gado dos Estados Unidos em último.
O senador Tim Sheehy, republicano de Montana, afirmou que a medida vai prejudicar as famílias de pecuaristas que alimentam o país. A American Farm Bureau Federation advertiu que medidas de curto prazo podem gerar efeitos negativos de longo prazo tanto para consumidores quanto para produtores.
Um porta-voz do Departamento de Agricultura defendeu a decisão, dizendo que ela ajuda a enfrentar a questão da acessibilidade da carne e que o governo está cortando regulações para agricultores e pecuaristas.
Vai chegar ao consumidor?
Aqui entra a parte que o comprador precisa acompanhar. Especialistas ouvidos pela CBS News se mostraram céticos de que importação adicional tenha efeito relevante no preço final.
Trezentas mil toneladas métricas são uma fração do consumo americano; o compromisso de vender 25% abaixo do mercado foi feito por importadores e não por supermercados, e a janela é de 90 dias — prazo curto demais para mudar contrato de fornecimento de rede grande.
Some-se um sinal ruim do lado da indústria: a Tyson Foods anunciou o fechamento de unidades de processamento de carne bovina em Illinois e em Utah, segundo a Fox Business.
O que fazer na compra da semana?
Enquanto a medida vale, três hábitos ajudam a capturar qualquer queda que apareça:
- Comparar o preço por libra, e não o preço da bandeja, já que a gramatura muda entre marcas;
- Olhar o teor de gordura na etiqueta — a moída 80/20 e a 90/10 costumam ter diferença grande de preço pela mesma proteína;
- Conferir a origem no rótulo, porque a carne importada e a nacional passam a dividir a mesma prateleira nos próximos meses.
Para quem cozinha comida brasileira, vale notar que o corte usado em picadinho, almôndega e carne de panela é justamente o que entra nessa faixa de moída e de segunda — a parte da gôndola onde a medida, se funcionar, vai aparecer primeiro.
Por que o preço subiu antes da medida?
A alta da carne não começou com tarifa. Ela vem de uma sequência de anos de seca no cinturão pecuário, custo alto de ração e liquidação de rebanho — decisões tomadas por produtores que, diante de pasto seco e ração cara, abateram matrizes em vez de mantê-las.
Esse movimento derruba o preço no curto prazo, porque joga carne no mercado, e o eleva depois, porque reduz a base de reprodução. Os 28,5 milhões de vacas de corte registrados em julho são o resultado acumulado dessa escolha.
Reconstruir leva tempo. Segurar uma novilha para reprodução significa tirá-la do abate hoje para ter bezerro no ano seguinte e carne pronta cerca de dois anos depois — período em que a oferta fica ainda mais apertada antes de melhorar.
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