O governo americano já devolveu US$ 100 bilhões em tarifas cobradas indevidamente, mas quem pagou a conta na gôndola não deve ver esse dinheiro. A estimativa citada pela CNN Business é que a família americana média gastou cerca de US$ 1.700 a mais em 2025 e 2026 por causa das tarifas, e que apenas 15% a 20% disso volta ao consumidor, seja em reembolso direto, seja em corte de preço.
O total arrecadado foi maior que o já devolvido. Segundo a CNN, o governo recolheu US$ 168 bilhões de 330 mil importadores; até 31 de julho, US$ 100 bilhões haviam sido distribuídos. A Fortune registra US$ 166 bilhões arrecadados e os mesmos US$ 100 bilhões certificados como reembolso até aquela data — a diferença entre os números aparece porque as duas fontes medem recortes distintos da arrecadação.
Como se chegou aqui?
Em 20 de fevereiro de 2026, a Suprema Corte decidiu por 6 a 3 que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) não autoriza o presidente a impor tarifas de alcance indefinido por conta própria, conforme o explicador da revista TIME.
A decisão não derrubou todas as tarifas. Continuam de pé as da Seção 232 da lei de comércio de 1962, baseadas em segurança nacional — aço, alumínio e automóveis —, e as da Seção 301 da lei de 1974, que atingem parte das importações chinesas. Ou seja: parte do custo embutido no preço não vai desaparecer da etiqueta.
O ministro Brett Kavanaugh anotou no julgamento que devolver bilhões teria consequências relevantes e que o processo provavelmente seria confuso. Foi o que aconteceu.
Quem recebeu quanto?
O reembolso foi para o importador, que é quem recolhe a tarifa na alfândega. A lista levantada pela CNN Business e pela Fortune inclui:
- Walmart: US$ 2,9 bilhões
- Apple: cerca de US$ 2,2 bilhões.
- Ford: US$ 1,3 bilhão.
- Target: US$ 994 milhões.
- FedEx: cerca de US$ 800 milhões.
- Home Depot: US$ 730 milhões.
- Nike: US$ 684 milhões pendentes, de um total esperado de US$ 986 milhões.
- Amazon: US$ 640 milhões no segundo trimestre de 2026.
- General Motors: US$ 500 milhões.
- Stellantis: 400 milhões de euros, cerca de US$ 467 milhões.
No outro extremo da escala, a Fortune cita a Busy Baby, pequena fabricante que recebeu US$ 50 mil. A revista registra ainda que a Kohl's pediu cerca de US$ 140 milhões e não havia recebido nada até o último balanço, e que a Home Depot classificou como irrelevante o valor recebido em determinado período.
Quem devolve e quem não devolve.
A Fortune separou as empresas por postura. A FedEx começou a processar reembolso a clientes em agosto e já havia processado o governo para receber o valor integral. A Costco informou que vai devolver a consumidores depois de quatro ações coletivas. A Amazon reconheceu que devolve em circunstâncias limitadas, para quem pagou determinadas taxas de importação.
Walmart e Target descartaram o cheque ao cliente e disseram que vão usar o dinheiro para reduzir preços. O diretor financeiro do Target, Jim Lee, afirmou que a empresa investiu e vai continuar investindo em preço para garantir valor aos consumidores. A Apple informou que aplica o valor na produção doméstica; segundo a Fortune, os reembolsos somaram dois pontos percentuais à margem bruta do trimestre fiscal e 11 centavos ao lucro por ação.
A Nike não se pronunciou sobre reembolso a consumidores e enfrenta ações de clientes. Tesla, Revlon, J. Crew e Bumble Bee Foods processaram o governo, com desfecho ainda indefinido.
Por que o dinheiro trava no caminho?
A explicação é estrutural. Quem paga a tarifa é o importador, não o comprador final, e não existe registro de qual consumidor pagou quanto a mais em cada compra. Reconstruir esse caminho, produto a produto e nota a nota, é praticamente inviável — daí a estimativa de que só uma fração retorne, e mais na forma de preço do que de cheque.
A TIME registra ainda que parte do Senado propôs legislação obrigando o reembolso integral com juros, algo em torno de US$ 175 bilhões, e que alguns parlamentares defenderam devolução direta às famílias, com cálculos por estado. O governo sinalizou oposição a reembolsos, e a disputa pode se arrastar por até cinco anos nos tribunais, segundo a revista.
O que isso muda no bolso?
Para quem vive nos Estados Unidos, o efeito prático aparece de duas formas. A primeira é o preço: se as redes cumprirem o que anunciaram, a queda vem diluída em promoções e ajustes de prateleira, não em um valor identificável na nota fiscal. A segunda é a expectativa — não há programa federal aberto para o consumidor pessoa física pedir devolução de tarifa.
Vale um alerta prático. Sempre que um tema de reembolso ganha manchete, aparecem sites e mensagens cobrando taxa para recuperar o dinheiro. Nenhum órgão federal cobra para devolver reembolso, e qualquer contato nesse sentido pode ser denunciado à Comissão Federal de Comércio.
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