A Clearview AI, empresa americana de reconhecimento facial usada por milhares de órgãos de segurança nos Estados Unidos, construiu e testou um protótipo de inteligência artificial capaz de transformar a foto do rosto de alguém num perfil online detalhado. A ferramenta, chamada InquiryIQ, foi revelada pela revista WIRED e repercutida nesta semana por publicações especializadas como Biometric Update e ID Tech Wire.
A Clearview afirma que o sistema é um protótipo interno, que nunca foi oferecido nem entregue a clientes e que nenhum agente da lei chegou a usá-lo. Mesmo assim, o projeto mostra para onde a tecnologia de vigilância pode caminhar, e o assunto interessa a qualquer pessoa com fotos, perfis e dados espalhados pela internet.
O que é o InquiryIQ?
Hoje, o produto principal da Clearview funciona assim: o investigador envia a foto de um rosto e o sistema devolve imagens parecidas encontradas na internet. O trabalho seguinte, que é descobrir quem é aquela pessoa, onde mora e com quem se relaciona, ainda é feito à mão, pulando entre buscadores e bancos de dados.
O InquiryIQ automatiza essa segunda etapa. Segundo o ID Tech Wire, o protótipo consegue abrir páginas da web, analisar imagens e rodar buscas de texto e de imagem a partir das informações de uma busca facial. De acordo com o Biometric Update, a ferramenta também aplica o reconhecimento facial a novas fotos que encontra pelo caminho.
O resultado é organizado no que a empresa chama de "Candidate Graph", uma rede de possíveis identidades e conexões. Entre os dados que o sistema foi desenhado para reunir estão possíveis apelidos e nomes alternativos, empregadores, endereços, números de telefone, contas em redes sociais, histórico de prisões e pessoas associadas.
O investigador ainda pode refinar a busca com detalhes demográficos, como idade, gênero, raça e cor do cabelo e dos olhos, segundo o ID Tech Wire.
Como a ferramenta veio a público
A existência do InquiryIQ foi revelada pela WIRED, que analisou arquivos de código e de interface ligados ao sistema da Clearview. O Biometric Update e o Gulf News citam a reportagem da revista como origem da informação.
O Biometric Update também lembra que a Clearview tem uma patente nos Estados Unidos (US11250266B2), pedida em agosto de 2020 e concedida em fevereiro de 2022, que descreve sistemas para buscar informações pessoais associadas a uma correspondência facial.
O que a Clearview diz
A empresa descreveu o InquiryIQ como um "assistente de analista" experimental, voltado a reduzir pesquisa repetitiva. Segundo o Gulf News, a Clearview argumentou que automatizar essas etapas pode também criar registros mais claros de como o investigador chegou a cada informação.
Segundo o ID Tech Wire, a Clearview afirmou que a ferramenta "has never been pitched or shipped to customers", ou seja, nunca foi apresentada nem entregue a clientes, e que não tem plano de lançar o protótipo na forma atual.
As travas previstas no protótipo
O ID Tech Wire descreve alguns mecanismos de controle incluídos no sistema:
- Cada achado precisa ser aceito ou rejeitado pelo investigador;
- dados demográficos, de redes sociais e de prisões gerados automaticamente vêm com aviso de possível imprecisão;
- O policial precisa verificar por conta própria e atestar os achados aceitos antes que eles entrem no perfil do investigado.
O Biometric Update aponta outro problema: sistemas automatizados criam cadeias de investigação mais longas, o que obriga a auditar quais fontes foram consultadas e quais correspondências faciais secundárias foram feitas.
O tamanho da base e dos clientes.
O serviço atual de reconhecimento facial da Clearview reúne mais de 70 bilhões de imagens, segundo o Biometric Update e o ID Tech Wire. A empresa atende mais de 2.000 órgãos de segurança nos Estados Unidos, de acordo com o ID Tech Wire.
As fotos da base foram coletadas de fontes públicas na internet, como redes sociais, sites de notícias e o Venmo, segundo a National Law Review, o que colocou a Clearview no centro de processos por privacidade.
A Patrulha de Fronteira na lista de interessados.
O Biometric Update cita um documento de fevereiro de 2026 da Customs and Border Protection (CBP), a agência de alfândega e proteção de fronteiras, que previa 15 licenças da Clearview para o pessoal de inteligência da Patrulha de Fronteira no National Targeting Center. O objetivo declarado era apoiar "análise estratégica de contra-redes".
O documento trata do produto de reconhecimento facial já existente, e não do InquiryIQ, que, segundo a empresa, nunca foi oferecido a clientes.
O acordo judicial de 2025
Em 20 de março de 2025, a juíza federal Sharon Johnson Coleman aprovou um acordo coletivo nacional contra a Clearview por violações à lei de privacidade biométrica de Illinois (BIPA) e às leis de outros estados, segundo a National Law Review. Em vez de pagar em dinheiro, a empresa destinou aos membros da ação 23% do seu valor, estimado em US$ 51,75 milhões.
A aprovação saiu apesar das objeções de 22 procuradores-gerais estaduais. A juíza citou a baixa oposição dos consumidores e a complexidade de levar o caso adiante.
O que preocupa especialistas em privacidade
Especialistas ouvidos pelo Gulf News alertam que eliminar o tempo e o esforço necessários para investigar a vida online de alguém pode ampliar a vigilância de forma drástica. Eles também apontam o risco de erro: sistemas de IA falham, e a informação encontrada na internet pode estar desatualizada, ser enganosa ou pertencer a outra pessoa.
Por ora, o InquiryIQ segue como protótipo, sem data nem plano de lançamento anunciados pela Clearview.
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