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“Muito bem!”: será que existe outra forma de incentivar as crianças
Artigo

“Muito bem!”: será que existe outra forma de incentivar as crianças

MM 10 de September de 2026, 04:21 28 visualizações

“Parabéns!”, “Muito bem!”, “Você é tão inteligente!”. Elogiar uma criança parece uma das formas mais naturais de incentivá-la — e muitas vezes é. Mas será que existe uma maneira de reconhecer suas conquistas que também a ajude a perceber o próprio esforço, suas escolhas e seu processo de aprendizagem? Neste artigo, proponho uma reflexão sobre a diferença entre elogiar e encorajar e sobre como pequenas mudanças na nossa linguagem podem fazer diferença.

Imagine que uma criança chega até você segurando um desenho que acabou de fazer. Você olha e, quase automaticamente, responde: “Que lindo! Muito bem!”.

Eu mesma já fiz isso inúmeras vezes.

E não há nada de errado em dizer a uma criança que gostamos do desenho dela. O problema talvez esteja no fato de que “muito bem” se tornou uma resposta tão automática que, muitas vezes, encerramos ali uma oportunidade muito mais interessante de conversa.

E se, em vez de apenas dizer “Que desenho lindo!”, perguntássemos: “Me conta sobre o que você desenhou”? Ou observássemos: “Você usou várias cores aqui. Como escolheu essas cores?”.

De repente, o foco deixa de estar na nossa avaliação e volta para a experiência da criança.

Essa diferença parece pequena, mas é uma das coisas que mais me chamam atenção como pedagoga. Existe uma diferença entre elogiar uma criança e encorajá-la.

O elogio geralmente parte da avaliação do adulto: “Você é muito inteligente”, “Você é uma ótima menina”, “Que desenho perfeito”. Já o encorajamento procura reconhecer aquilo que a criança fez, o esforço que colocou naquela tarefa, as estratégias que utilizou e até aquilo que sentiu durante o processo.

Pense em uma criança aprendendo a andar de bicicleta. Depois de várias tentativas, ela finalmente consegue pedalar sozinha. Podemos dizer: “Você é incrível! Muito bem!”. É uma reação carinhosa e genuína.

Mas também podemos dizer: “Você tentou várias vezes, mesmo quando estava difícil, e conseguiu! Como você está se sentindo?”.

A conquista continua sendo celebrada. Só que, dessa vez, ajudamos a criança a perceber algo sobre si mesma: eu persisti.

O mesmo pode acontecer quando ela monta um quebra-cabeça difícil. Em vez de “Nossa, como você é inteligente!”, podemos observar: “Você tentou algumas peças diferentes até encontrar a que encaixava”.

A mensagem deixa de ser apenas “sou inteligente” e passa a incluir “quando alguma coisa é difícil, posso tentar estratégias diferentes”.

Isso é importante porque nem sempre as coisas darão certo.

A criança que acredita que seu valor está em ser “a inteligente”, “a boazinha”, “o melhor jogador” ou “a artista da família” pode começar a sentir que precisa proteger essa imagem. Errar, perder ou encontrar algo realmente difícil pode ameaçar aquilo que ela aprendeu sobre si mesma.

Já quando valorizamos o processo, mostramos que erros, tentativas e dificuldades também fazem parte da aprendizagem.

Isso não significa que precisamos vigiar cada palavra que sai da nossa boca ou abolir o “parabéns” da nossa casa. Educação parental não precisa transformar conversas espontâneas em um roteiro perfeito. Se seu filho fizer algo e você disser “Muito bem!”, ótimo. Afeto e entusiasmo também importam.

A proposta é apenas ampliar nosso repertório.

Podemos trocar algumas avaliações por observações: “Você guardou todos os brinquedos que estavam no chão”.

Podemos reconhecer esforço: “Você continuou tentando mesmo quando não conseguiu de primeira”.

Podemos despertar reflexão: “Você encontrou uma solução diferente. Como pensou nisso?”.

E podemos simplesmente compartilhar a alegria: “Você está tão feliz! Eu adoro ver você comemorando”.

Talvez a diferença mais bonita seja justamente esta: aos poucos, a criança não precisa olhar sempre para o adulto para descobrir se aquilo que fez foi bom o suficiente. Ela começa a reconhecer o próprio esforço, perceber suas conquistas e construir uma voz interna que diz: “Eu consegui”, “Eu aprendi”, “Eu posso tentar novamente”.

Como educadora, não quero que as crianças deixem de ouvir que são amadas, incríveis ou especiais. Muito pelo contrário. Quero que saibam disso independentemente do que produzem ou conquistam.

Mas também quero que aprendam que seu valor não depende de fazer tudo certo.

Por isso, talvez da próxima vez que uma criança vier correndo mostrar um desenho, uma torre de blocos ou algo que acabou de aprender, não precisemos engolir aquele “Muito bem!” que já está na ponta da língua.

Podemos dizer.

E depois podemos acrescentar algo muito mais poderoso:

“Você parece muito orgulhoso do que conseguiu. Me conta como você fez.”

Porque incentivar uma criança não é apenas mostrar que nós acreditamos nela. É ajudá-la, pouco a pouco, a acreditar em si mesma.


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#educação #maternidade

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