Imagine que você está no parque com seu filho. Vocês brincaram por uma hora e chegou o momento de ir embora. Você avisa que está na hora, ele pede mais um pouco. Depois de alguns minutos, você avisa novamente e, quando finalmente precisa sair, ele começa a chorar, gritar e se joga no chão.
Para nós, adultos, a situação parece simples: estava combinado que era hora de ir embora. Por isso, é fácil pensar que a criança está fazendo birra porque não conseguiu o que queria.
Mas será que essa é a história inteira?
Como pedagoga, aprendi a olhar para o comportamento como a ponta de um iceberg. Aquilo que vemos é apenas a parte que está acima da superfície. Embaixo dela podem existir cansaço, fome, frustração, excesso de estímulos e, principalmente, habilidades que ainda estão em desenvolvimento.
No caso da criança no parque, talvez não seja simplesmente uma questão de “não querer obedecer”. Interromper algo prazeroso e passar para outra atividade exige flexibilidade e capacidade de lidar com a frustração, habilidades que uma criança pequena ainda está construindo.
Isso significa que ficaremos no parque até ela decidir ir embora? Não.
O limite continua sendo: é hora de ir para casa.
Mas existe uma diferença entre responder “Para com essa birra, eu já falei que acabou!” e dizer: “Eu sei que você queria continuar brincando. É difícil ir embora quando estamos nos divertindo, mas agora precisamos ir. Você quer segurar minha mão ou quer ir pulando até o carro?”.
Nos dois casos, a criança vai embora. O limite não mudou. O que mudou foi a forma como o adulto ajudou aquela criança a atravessar a frustração.
É por isso que compreender o comportamento não significa ser permissivo. Acolher sentimentos não significa permitir todos os comportamentos.
Pense em outra situação: uma criança está brincando e o irmão pega o brinquedo que estava em sua mão. Ela imediatamente bate nele.
Precisamos impedir a agressão. Bater não é permitido. Mas, se nossa intervenção termina em “Não bate!”, ensinamos apenas aquilo que a criança não deve fazer. Ela ainda precisa aprender o que pode fazer quando alguém pega seu brinquedo, como comunicar sua raiva, pedir ajuda ou resolver aquele conflito.
Podemos impedir a agressão e dizer: “Eu não vou deixar você bater. Você ficou bravo porque ele pegou seu brinquedo. Vamos pedir de volta.”
O limite está ali, mas o ensinamento também.
Essa mudança de perspectiva foi uma das coisas mais importantes que aprendi trabalhando com crianças. Existe uma diferença enorme entre pensar “essa criança é difícil” e perceber que “essa criança está tendo dificuldade”.
Uma criança que enxergamos como difícil tende a receber julgamento. Uma criança que percebemos estar tendo dificuldade nos convida a fazer uma pergunta diferente: o que ela ainda precisa aprender?
Essa pergunta muda o nosso foco da obediência imediata para aquilo que queremos construir no longo prazo.
Quando uma criança bate, nosso objetivo não é apenas que ela pare naquele segundo. Queremos que, aos poucos, aprenda a sentir raiva sem machucar alguém. Quando recebe um “não”, não queremos eliminar sua frustração — frustração faz parte da vida. Queremos ajudá-la a desenvolver recursos para lidar com esse sentimento.
E talvez seja importante lembrar que nem nós, adultos, conseguimos fazer isso o tempo inteiro. Sabemos que deveríamos ter paciência quando estamos cansados e que não deveríamos responder impulsivamente quando estamos irritados. Ainda assim, às vezes fazemos exatamente isso.
Se existe uma distância entre saber o que fazer e conseguir fazer para um cérebro adulto, imagine para um cérebro que ainda está em desenvolvimento.
Compreender isso não significa justificar tudo o que uma criança faz. Significa ajustar nossas expectativas e lembrar que educar é muito mais do que interromper comportamentos indesejados. É ensinar, repetir, colocar limites e oferecer oportunidades para que habilidades sejam construídas ao longo do tempo.
Então, da próxima vez que uma criança fizer algo que desafie você, talvez valha experimentar uma pequena mudança de pergunta. Em vez de apenas pensar “Como faço isso parar?”, pergunte também: “O que está acontecendo aqui e o que essa criança ainda precisa aprender?”
Talvez você ainda precise carregar uma criança chorando para fora do parque. Talvez precise separar uma briga ou dizer um “não” firme. Olhar além do comportamento não elimina os limites; apenas nos ajuda a lembrar por que eles existem.
Porque todo comportamento conta uma história. Antes de tentar corrigi-lo, vale a pena descobrir o que ele está tentando nos contar.
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