Antes de me tornar mãe, eu já dedicava minha vida à infância. Como professora, educadora parental e profissional da educação inclusiva, estudei desenvolvimento infantil, comportamento, aprendizagem e relações familiares. Passei anos aprendendo como as crianças crescem, se comunicam, aprendem e se desenvolvem. Sempre acreditei que esse conhecimento me preparava para ajudar outras famílias a compreenderem melhor seus filhos.
E preparava.
Mas não completamente.
Foi somente quando minha filha nasceu que percebi que existe uma diferença entre conhecer a infância e vivê-la de perto, todos os dias. A maternidade não invalidou tudo o que aprendi; pelo contrário, deu ainda mais sentido àquilo que eu já acreditava. Ao mesmo tempo, trouxe uma perspectiva que nenhum livro ou curso poderia oferecer.
Desde que a Mia chegou, passei a enxergar as famílias com outros olhos. Antes, eu entendia que a maternidade podia ser cansativa. Hoje, eu sinto esse cansaço. Antes, eu sabia que pais conviviam com dúvidas. Hoje, percebo que elas fazem parte da rotina, mesmo quando temos acesso à informação e conhecimento.
Curiosamente, mesmo trabalhando há anos com crianças, também me vi questionando se estava fazendo tudo certo. Será que ela mamou o suficiente? Será que esse choro é sono ou desconforto? Será que estou estimulando seu desenvolvimento da melhor maneira? Essas perguntas me mostraram que o conhecimento traz segurança, mas não elimina as inseguranças naturais de quem ama profundamente um filho.
Talvez tenha sido essa a maior transformação que a maternidade provocou em mim. Hoje, quando converso com uma família, não vejo apenas pais tentando lidar com o comportamento de uma criança. Vejo pessoas tentando equilibrar trabalho, responsabilidades, relacionamentos, noites mal dormidas e uma enorme vontade de oferecer o melhor aos seus filhos. Passei a compreender que, muitas vezes, o desafio não está na falta de informação, mas na sobrecarga emocional que acompanha a criação de uma criança.
Também comecei a refletir mais sobre o quanto julgamos uns aos outros. Vivemos cercados por opiniões: sempre existe alguém dizendo como um bebê deveria dormir, comer, brincar ou se desenvolver. Como profissional, isso reforçou uma convicção que já fazia parte do meu trabalho, mas que hoje carrego com ainda mais força: famílias precisam de orientação baseada em evidências, mas também precisam de acolhimento. Conhecimento sem empatia dificilmente gera transformação.
A Mia também me ensina diariamente sobre algo que sempre procurei transmitir às famílias: cada criança tem seu próprio ritmo. Como mãe, comemoro cada nova conquista, cada sorriso, cada descoberta. E, justamente por acompanhar esse processo tão de perto, reforço ainda mais a importância de evitar comparações. Não existem duas crianças iguais, assim como não existem duas maternidades iguais.
Essa percepção também me fez olhar de forma diferente para minha trajetória na educação inclusiva. Durante anos, acompanhei crianças com diferentes formas de aprender e se desenvolver. Hoje, além de enxergar a individualidade de cada criança, compreendo ainda melhor a individualidade de cada família. Cada uma carrega sua própria história, seus recursos, suas dificuldades e seus desafios. Isso torna impossível acreditar em soluções prontas ou fórmulas universais.
Se antes minha missão era ajudar adultos a compreenderem melhor as crianças, hoje sinto que ela se ampliou. Quero ajudar famílias a encontrarem mais confiança, mais leveza e menos culpa. Quero que saibam que educar um filho não significa ser perfeito. Significa construir uma relação baseada em vínculo, respeito e presença.
A maternidade não mudou apenas minha rotina. Ela mudou minha forma de ensinar, de ouvir e de acolher. Continuo acreditando na ciência, no estudo e na importância do conhecimento. Mas hoje sei que nenhuma teoria faz sentido se não enxergarmos, antes de tudo, a humanidade de quem está cuidando.
No fim das contas, a maior transformação não aconteceu apenas dentro da minha casa. Ela aconteceu dentro de mim. A maternidade não me fez deixar de ser educadora; ela me fez uma educadora mais humana. E talvez seja justamente isso que eu desejo levar para cada família que cruza o meu caminho: a certeza de que, antes de buscarmos pais perfeitos, precisamos construir adultos que se sintam vistos, acolhidos e confiantes para viver a infância ao lado de seus filhos.
Obrigada por ler até aqui. Se você acredita que compreender uma criança começa por compreender quem cuida dela, convido você a acompanhar meu trabalho no Instagram. Compartilho reflexões, conteúdos baseados em evidências e ferramentas práticas para fortalecer as relações entre adultos e crianças. Espero você por lá! 📲 @marimarcotte