Quem já sente o aperto no mercado e nas contas do mês tem um motivo concreto para não esperar alívio tão cedo. Economistas do Federal Reserve de Nova York publicaram em 8 de julho um estudo mostrando que a maior parte do custo das tarifas de importação ainda não chegou ao consumidor: 44% das indústrias e 47% das empresas de serviços que pagaram tarifa planejam novos aumentos de preço para repassar essa conta.
O levantamento vem das pesquisas regionais de negócios que o Fed de Nova York realizou em maio, no Segundo Distrito, e foi publicado no blog Liberty Street Economics pelos economistas Jaison R. Abel, Mary Amiti, Richard Deitz, Sebastian Heise e Nick Montalbano.
A conta vem devagar — e continua vindo
O que chama atenção não é só quantas empresas vão subir preços, mas quando. Cerca de 40% das indústrias e 30% das empresas de serviços que pagaram tarifa pretendem aumentar preços dentro dos próximos seis meses. Outros 7% das indústrias e 16% das empresas de serviços planejam aumentos depois de seis meses — ou seja, já dentro de 2027.
Dois motivos explicam a lentidão. Muitas empresas estão presas a contratos com preço travado até o vencimento e só podem reajustar na renovação. E há uma escolha deliberada: subir de pouquinho em pouquinho, para não assustar o cliente com um salto de uma vez.
"Muitas empresas estão espalhando os aumentos de preço por períodos prolongados — o que significa que as pressões inflacionárias devidas às tarifas podem muito bem durar ainda por um bom tempo", escreveram os economistas do Fed.
O choque de "uma vez só" que não é de uma vez só
A tese oficial, repetida por dirigentes do banco central, é a de que tarifa provoca um ajuste único no nível de preços e depois some da inflação. O presidente do Fed de Nova York, John Williams, disse recentemente que a inflação causada pelas tarifas parece perto do pico. O estudo do próprio banco puxa o freio nessa leitura.
"Embora economistas e formuladores de política frequentemente esperem que os aumentos de preço causados por tarifas constituam um ajuste único no nível de preços, o que 'único' significa na prática pode ser um processo arrastado, especialmente quando as tarifas mudam com frequência", diz o texto.
Quanto isso custa por família
A Tax Foundation projeta que as tarifas custarão cerca de US$ 700 por domicílio americano em 2026, depois de aproximadamente US$ 1.000 por domicílio em 2025. Pesquisa do Fed de Dallas estima que as tarifas responderam por 0,80 ponto percentual da inflação núcleo, que estava em 3,2% ao ano em março.
E não adianta contar com o exportador estrangeiro para pagar a conta: um estudo anterior do próprio Fed de Nova York, de fevereiro, calculou que quase 90% do peso econômico das tarifas caiu sobre empresas e consumidores dos Estados Unidos.
O que fazer com essa informação
Para a família que planeja o orçamento, a leitura prática é que os preços de bens importados — eletrônicos, eletrodomésticos, peças de carro, roupas — devem continuar subindo em ondas ao longo do próximo ano, e não estabilizar de repente. Compra grande e adiável tende a ficar mais cara depois. Contrato de serviço que vence em breve provavelmente vai voltar mais caro na renovação.
Para quem manda dinheiro ao Brasil, há um efeito indireto: inflação mais persistente aumenta a chance de o Fed manter os juros altos por mais tempo, o que costuma sustentar o dólar forte.
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