O telefone toca e o identificador de chamada mostra um número que parece oficial. Do outro lado, uma voz diz ser agente de imigração e afirma que existe um mandado de prisão por um suposto erro no registro de entrada. A ameaça vem em seguida: deportação imediata, a menos que a pessoa pague e entregue dados pessoais na hora.
O cenário descreve um golpe que vem mirando imigrantes pelos Estados Unidos, e que ganhou um alerta recente com endereço certo. Em 1º de junho de 2026, o setor de Serviços para Estudantes e Pesquisadores Internacionais (ISSS) da Universidade do Colorado em Boulder publicou um aviso sobre ligações fraudulentas que clonam números do Immigration and Customs Enforcement (ICE) e do Departamento de Polícia de Boulder.
Como a fraude funciona
A peça central do golpe é o chamado spoofing. Segundo o alerta da CU Boulder, "uma chamada falsificada é uma ligação em que quem chama altera deliberadamente a informação exibida no identificador de chamada do destinatário para disfarçar sua identidade". Ou seja, o número que aparece na tela do celular pode ser real e ainda assim a ligação ser falsa.
No caso descrito pela universidade, o identificador mostrava o número de um escritório do ICE em Nova York e o golpista afirmava que havia "um mandado de prisão contra a pessoa por causa de um erro no Registro de Entrada I-94". O criminoso chegava a inventar nome e número de crachá de agente do ICE e exigia "fotos dos seus documentos de imigração, dados de contato, informações de conta bancária e seu número de seguro social".
O esquema costuma ter um segundo ato. Logo depois, a vítima recebia outra ligação, dessa vez com o número clonado do Departamento de Polícia de Boulder, ameaçando prisão e visitas em casa. A dobradinha aumenta a pressão e dá ar de autenticidade à farsa.
Um problema em alta
O golpe se apoia no medo gerado pelo aumento das ações de imigração. Em 7 de novembro de 2025, o FBI emitiu um boletim alertando que criminosos passaram a se passar por agentes do ICE para cometer crimes. Segundo a agência, "devido ao recente aumento das ações de fiscalização do ICE pelo país, atores criminosos estão usando o maior destaque público e a cobertura da imprensa do ICE a seu favor para atacar comunidades vulneráveis".
A escala do problema chamou a atenção das autoridades estaduais. No estado de Washington, ao anunciar projetos de lei para coibir quem se passa por agente federal, o governo do governador Bob Ferguson citou levantamento da CNN segundo o qual "houve mais casos de pessoas se passando por agentes do ICE em 2025 do que nos quatro mandatos presidenciais anteriores somados".
O que órgãos oficiais não fazem
As orientações públicas convergem em um ponto: governo de verdade não opera assim. O gabinete do procurador-geral da Califórnia orientou, em março de 2025, que agentes de imigração não pedem dinheiro nem informações financeiras e que normalmente não ligam para avisar imigrantes de que serão detidos ou presos.
O alerta da CU Boulder reforça a regra de bolso: "Agentes legítimos do governo, autoridades de imigração e representantes da universidade nunca pedirão informações pessoais por telefone. Eles também nunca ameaçarão prisão ou deportação." Pedido de pagamento imediato e exigência de dados sensíveis pelo telefone são, por si só, sinais de fraude.
O que fazer ao receber uma ligação dessas
- Desligue. Não confirme nome, data de nascimento, número de seguro social, dados bancários nem envie fotos de documentos.
- Não confie no identificador de chamada. O número que aparece na tela pode ser clonado. Um número "oficial" não prova nada.
- Não pague. Exigência de pagamento por telefone, em especial por aplicativos, transferência ou cartão-presente, é marca registrada de golpe.
- Confirme por canais oficiais. Em caso de dúvida sobre o próprio processo, procure um advogado de imigração licenciado ou um representante credenciado, e use sites terminados em .gov.
- Denuncie. A CU Boulder orienta reportar à Comissão Federal de Comércio (FTC), ao procurador-geral do Colorado, à linha de denúncias do ICE e à polícia local.
O recado vale para Denver e Seattle do mesmo jeito que vale para Boulder. A tecnologia que torna o golpe convincente, a clonagem do número na tela, é também o que o desmonta: quando o pedido é dinheiro ou dado pessoal pelo telefone, a origem aparente da chamada deixa de importar.
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